BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL

terça-feira, 29 de junho de 2010

NOSSAS POESIAS INFANTIS!

Julho - só textos infantis


Em julho vamos nos dedicar à criação de poesias e contos infantis. Todos os trabalhos serão postados depois de "revisados". Eles farão parte de um grupo de textos que serão publicados em breve. Aguardem!

Mandem seus textos bem caprichados para o blog, e boa sorte!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

SÃO JOÃO - Ivonete Miranda





SÃO JOÃO
Ivonéte Miranda

Gosto das festas de São João
Com quadrilha e com quentão
Mas se alguém for soltar balão
Por favor, você diga logo :
Nããoooo!!!

Lá no céu até é bonito
Mas se cai aqui na terra é perigoso
Causa incêndio, até morte ...
Não vá soltar seu teimoso !

Quero festejar São João
Com quadrilha e com quentão
Mas se não tiver quentão?
Tomo água com limão

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Posse transitória - Franco Alves


Posse transitória
Franco Alves




Naquele dia acordei cedo para garantir que teria mais


tempo para por em execução aquele tão esperado plano,


tantas vezes adiado, mas nunca esquecido ou deixado de


lado.As vezes em minhas elocubrações noturnas eu me


pergunto por que tem que ser assim...sempre deixamos


para depois o que realmente importa, agindo como se o


tempo fosse nossa propriedade e não apenas uma posse


transitória.É... mas não desta vez!.


Vesti minha melhor roupa e me dirigi até a porta de


uma maneira resoluta, mas antes voltei e dei uma ultima olhada no espelho e me perguntei:


E aí? será desta vez?


Então respondi:


Acho que sim!


Acha ou tem a certeza?, tornei a indagar


Tenho certeza! respondi prontamente.


Então vou te emprestar o meu melhor sorriso, para que cause uma boa impressão, leve também a esperança para que no caso de dificuldade não esmoreça,ah..e principalmente pode levar toda a alegria que puder, pois poderá precisar para emprestar para alguém que precise.


Abri a porta e saí em busca de meus sonhos.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Só lamento ! - Noemi Carvalho



Só lamento!
Noemi Carvalho

 
Oi vida!
Quanta lida !
Acordo sem dormir
Já pensando
Na lida.
Tanta lida!
Oi vida!
Faço café,
Nem gole tomo.
Desço na estação,
Corro atrás do gole.
Quanto gole desperdicei!
Oi vida!
Que vida!
Não tomei
Desperdicei!
Na volta
Na esquina
Outro gole
Tento na vida
Oi vida!
Tomar.
Na vida
Vou tomar
Gole por gole.
Encontro tantos
Na lida
Na vida.
Que vida!
Oi vida!
Feito hiena
Só lamento a minha vida
Que não é minha.
Só construi
A vida na vida
Da lida
Da condução que tomei
Em estação
Certa ou errada
Não sei
Nada da vida!

Santo Antonio me arruma um noivo!!!!!! - Noemi Carvalho

Santo Antonio me arruma um noivo!!!!!!


Nesta tarde tão florida
Com tantos convidado
Eu tô aqui pra mór
De encontrá um noivo.

Meu vestido tá encomendado
Minha grinarda é faceira
Mas farta o noivo eu achá.

Prá mór de vê se encontro
Nesta prateia tão bonita
Trouxe doce prá nóis comemorá.

Lá do sítio onde moro
Há de chegá muita gente.
Mas a bicharada era muita,
Então trouxe só a galinha Jacinta
Prá mór de representá.

Oi Jacinta,
Se comporta!...
Aqui não é galinhero
É festa do meu noivado
Só tô esperando o noivo chegá...

Sô muito devota!
Santo Antonio é meu santo preferido.


Converso com ele todo dia
Prá mór de um noivo arranjá.
Até trouxe ele pra me ajudá!
Mais viu Santo Antonio
Ocê tem que caprichá!
Pois quero um noivo de muitas qualidade.
Não sou exigente não!
Só quero um noivo bonito e cheiroso
Pois meu nariz num guenta mais
Tanto cheiro da porcada lá do sítio.
Ah! Ele tem que tê boca perfumada

Prá mor de uns beijo a gente trocá.
Pode tê dentadura mas não me deixa vê ele sem dente.
Tem que sê carinhoso prá mor de fazê cócega no meu pescoço.

Santo Antonio vê lá o noivo que vai me arranjá,
Pois minha mãezinha lá no céu ia ficá muito contente
De eu tê um noivo bem aprumado.
Ah! Santo Antonio não deixa ele sê guloso
No fogão não quero ficá pois quero tê
Tempo prá namorá.

Já que fiz minhas exigência,Santo Antonio!
Prá prateia vou de novo oiá
Prá mor do noivo eu encontrá.

Todo mundo já é cumprometido,
Então meu santinho já que aqui
Não vou arrumá um noivo,
Vô esperá o outro aniversário do sinhô.Se até lá
Eu não arranjá, perco a paciência,boto o Sr.
De cabeça prá baixo,vou fazê tanta promessa
Até o noivo encontrá.

Agora vamo comemorá ,
Vóis distribui doce prá adoçá
Os cunvidado prá mor deles
Esperá até o noivo chegá.

O menino que não brincava - Lilia Carvalho



O menino que não brincava – Lilia Carvalho

O cheirinho atravessava a sala, o jardim, ia até a calçada. Cheiro de bolo de fubá que só a Ana Pé de Boi sabia fazer. E o odor era de tal forma apetitoso, que os que passavam aspiravam-no gulosos, até os cachorros recusavam-se a seguir.

Na manhã gelada de junho, p’ra esquentar, a criançada corria p’ra lá e p’ra cá a procura de algo constante da brincadeira. De vez em quando vinha ansiosa a pergunta, aflita, “to frio, ou tô quente?” “Tá esquentando, vai, vai” respondia a coordenadora e, finalmente diante do misterioso achado, explodia do fundo da alma, o grito glorioso: “chicotinho queimado!”.

A avenida animada por aquele fragor de infância contagiava vizinhos e vizinhos, que se entregavam exuberantes.

Só Waldinho não brincava. Cabisbaixo, com os cachos castanhos sobre a testa clara e magra, olhava, impassível, os dedos entrelaçados nos joelhos.

Nem um monossílabo lhe era arrancado, nem uma resposta aos convites para a folia. A meninada puxava-o para animá-lo, inútil. Aquele universo denso a ninguém era dado deflorar. Suas pupilas – verdes ou azuis – tão bem escondidas, só por milagre conseguir decifrá-las.

Desde que a mãe doente viera para a casa dos primos – os filhos acompanharam-na – deixara p’ra trás, lá no morro do céu, sua vitalidade, sua loquacidade, sua felicidade.

Nada lhe lhe apetecia, nem ajudar o primo armar a arapuca p’ro curió que, por perto, ameaça arrebentar os pulmões com seu trinado.

- Venha Waldinho, olha ele está chegando!

- Eu quero a minha mãe sarada.

- Ela vai sarar, Deus é grande! - ouvia o menino, enquanto os cabelos recebiam o carinho, a solidariedade. Mas, ele não abandonava seu posto de desencanto.

De repente o curió, até então indeciso à porta da arapuca, entra não entra, atraído pelo cheiro das frutas, pára pensativo, olha em derredor e voa em direção ao menino. Pousa-lhe na cabeça e começa a beliscar seus cachos castanhos. O garoto tristonho tenta afugentá-lo, mas o passarinho insiste na brincadeira até que consegue um sorriso de Waldinho.

Despede-se com um trinado mais forte para, na manhã seguinte, voltar. E assim vários dias.

O menino já sentia saudade quando ele demorava, e aos poucos ia lhe devolvendo o carinho, oferecendo-lhe o dedo para pousar. Ao final de uma semana e meia saíram para um passeio, o curió pulando de galho em galho, e o menino no seu encalço.

O garoto cresceu, o curió envelhecendo enquanto passava para o amigo a lição que recebera do poeta: “tudo vale ‘a pena, quando a alma não é pequena”.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Nossa galeria de fotos - OFICINA DE TEXTOS JUNHO 2010

Galeria de fotos da Oficina de Criação de Textos Idéias e Ideais - Junho 2010

Dinah Choichit - Presidente do ICAL


Pausa para a foto

A turma em plena atividade

Silêncio! Escritores criando.



Ana Maria - Moderadora

Dinah Choichit - Andrea - Adão Junior e Noemi Carvalho

Andrea - Nossa Anfitriã

Isabel Sousa

Anna Blen

Adão Junior

Lilia  Carvalho 

Hirtes

Maria de Lourdes Wolff

Sanae Guenka Palma



Maria José P. Sousa

Eliane

Noemi Carvalho

Ivonéte Miranda


Tanto dizem as palavras quanto dizem estas imagens!

domingo, 20 de junho de 2010

Letra sobre o ICAL - Carmen Apóstolo - HOMENAGEM AO ICAL

Vasculhando a internet encontrei essa doce homenagem ao ICAL no blog da nossa querida amiga Carmen Apóstolo. E resolvi publicar aqui no blog do ICAL para mostrar o carinho que esta poesia contém, e para fazer aflorar o orgulho de ser ICAL.

 
Letra sobre o ICAL

Sol
Alegrias
Luzes
Poesias
Cantos
Recantos
Deste sem fim
Saudemos flores
Cantos
Encantos
Cultura em mantos
Do esplendor
Campos decoram
Rosas formosas
No verso e prosa
Do teu louvor
Cantos vibrantes
Rasgam poemas
Abrem verdades
Do teu amor
Aves gorjeiam
Verdes retocam
Um leve canto
Grau de louvor
A brisa leve
Traz o seu canto
Apaga o pranto
E escreve amor
Livros conduzem
Trazem saber
Mostram verdades
Ensinam a ser

E escreve Amor
Traz o seu canto
 
 
 
 
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Carmen Apóstolo
 
O ICAL AGRADECE ESSA HOMENAGEM!
 
A Carmen é um doce de pessoa!
Tem uma veia literária voltada para o causo, mas como podem ver ela brilha em qualquer constelação.
Vejam essa poesia abaixo:
 
 
Lágrimas de Palhaço
Carmen Apóstolo



Palhaço, palhaçadas

na corrida das quebradas,

das cadeiras. espalhadas

entre os sonhos das rodadas

Vidas, pandeiros,

Cores, alegrias

encenando nossos dias

entre cantos e poesias...

E no fim,

resta uma lágrima...

Os lábios traçam sorrisos

E a dor dá cambalhotas

pra esconder as agonias

nas gargalhadas sombrias.

sábado, 19 de junho de 2010

Big Boom - Franco Alves


Big Boom
Franco Alves

Era mesmo um dia “daqueles”, teria sido melhor eu ter ficado na cama, cuidando de uma pretensa gripe ou algo assim, pensava Vladivor o detetive incumbido do caso do homem que teria sido encontrado estirado ao lado do corpo sem vida da perigosa ricaça Vitória Fernandes às margens do Tâmisa. Há muito tempo, esta mulher tem causado dor de cabeça para a policia de Londres. Ela dominava os negócios de prostituição e tinha ligações com o tráfico de drogas, mas ao que tudo indica, estaria flertando com elementos da Al-Qaeda, pois desejava ganhar dinheiro se envolvendo com os fundamentalistas.

E agora Vladivor se perguntava: - Por que justamente eu?

Esta investigação o levaria com certeza a um campo minado, e ele teria que ter muito cuidado, caso contrário poderia ir literalmente para os ares. Enquanto aguardava os paramédicos cuidarem do homem vitimado passou a anotar em sua surrada agenda de bolso qualquer detalhe que pudesse ser de importância para elucidação do caso. Mas algo parecia estar errado, ele sentiu um frio na espinha, quando avistou uma Van que se aproximava lentamente da cena do crime e mal teve tempo de olhar nos ponteiros do Big Bem, quando aconteceu a explosão, e os seus piores pesadelos se tornaram realidade.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

17 de junho - Hoje na Oficina o tema será Construção - Obra de Chico Buarque de Holanda


Construção



Chico Buarque de Holanda













Amou daquela vez como se fosse a última
Amou daquela vez como se fosse o último
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a única
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Sentou pra descansar como se fosse príncipe
Sentou pra descansar como se fosse pássaro
E flutuou no ar como se fosse pássaro
E flutuou no ar como se fosse sábado
E flutuou no ar como se fosse príncipe
E acabou no chão feito um pacote flácido
E acabou no chão feito um pacote tímido
E acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Morreu na contramão atrapalhando o público
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Amou daquela vez como se fosse máquina
E acabou no chão feito um pacote flácido
E acabou no chão feito um pacote tímido
E acabou no chão feito um pacote bêbado
Amou daquela vez como se fosse a última
Amou daquela vez como se fosse o último
Amou daquela vez como se fosse máquina
Morreu/Morreu/Morreu



Video Clip Chico Buarque


A Princesa e o Sapo - Cida Bianchini


A PRINCESA E O SONHO
Cida Bianchini


Era uma vez uma menina que gostava de sonhar, talvez fosse a maneira que ela encontrava para fugir da realidade em que vivia.

Seus sonhos ultrapassavam os limites do raciocínio lógico, à uma criança na sua idade.

Velejava pelos mares, atravessando oceanos, aprendendo novas línguas, convivendo com pessoas diferentes, ao ancorar em países que nunca ouvira falar.

Um dia, como de praxe, sentada à sombra de uma árvore, lugar preferido para decolar rumo ao sonho, deliciava-se com as aventuras aceleradas pela fértil imaginação.

Descalça, cabelos despenteados, shorts um pouco sujo, amparando a blusa colorida, um tanto longa, numa aparência desengonçada.

Olhar perdido nos carneirinhos que pastavam ao seu redor, sem percebe-los.

O sol despejava seus raios sem piedade, tingindo os vários tons de verde num cenário perfeito ao se contrastar com os olhos azuis, destaque daquele rosto bonito da criança que não sabia exatamente o tamanho da sua beleza, assim como da sua pobreza.

Bela, nome de batismo, fazia jus ao seu encantamento.

O cenário era perfeito para uma longa viagem. Já acomodada no avião, esperando em instantes atravessar as nuvens e poder olhar do alto a paisagem que a fascinava, teve uma surpresa. A viagem foi interrompida. Desceu do sonho e se deparou com uma realidade de sabor infinitamente melhor que todos os sonhos já sonhados.

Uam, garoto de mais ou menos sua idade, estava parado diante dela, feito uma estátua. Permaneceu por longo tempo, sem dizer nada, apenas a fita-la.

Bela sentiu pela primeira vez o sabor da vida. Era tão verdadeiro aquele momento que até podia toca-lo, senti-lo, beija-lo... Meu Deus, que loucura, pensou ela,

E para Uam, também a recíproca era verdadeira.

O menino buscou forças e conseguiu comunicar-se através de gestos e de algumas palavras que aprendera, mas se confundiam com seu idioma europeu.

A comunicação maior foi através de olhares...Estes sim, falaram forte, tão forte que ficou imprimido em cada coração, o propósito do verdadeiro amor.

O tempo passou...

Bela já adolescente, conservava a beleza angelical da criança que de tanto encantamento, conquistou o coração de um príncipe.

E numa tarde qualquer voltou a sombra da árvore, testemunha única de uma promessa de amor.

Foi recebida com sorriso das flores que se abriam para anunciar a chegada da primavera.

A saudade bateu forte.

Sentou-se no mesmo lugar, que há mais de uma década vivera a verdadeira felicidade.

Enquanto desfolhava o galho do bem me quer, percebeu a chegada de alguém caminhando por entre os campos em sua direção.

A princípio ficou surpresa, quem visitaria aquele lugar bucólico, que nada tinha a oferecer a não ser a ela o divã de seus sonhos...

Uam também não havia mudado. Conservava a beleza de criança e aprimorara o estilo de monarca.

Abraçaram-se, beijaram-se longamente. Uam tomou Bela em seus braços levou-a para o seu castelo.

Bela atravessou os mares para morar num palácio, casando-se com o lindo príncipe, herdeiro do trono real.

Já não era mais sonho, era realidade...

Bela e Uam foram felizes para sempre.

Senzala - Cida Bianchini


SENZALA
Cida Bianchini



Negros que passam pela estrada


Seguindo o rumo da senzala,
Na encruzilhada à Cruz abandonada
Inspira o amor de Deus, que exala.

Pés descalços, descamisados...
Corações silenciados...
Abertos apenas ao canto que consola
Encanto único, amor infinito dos passarinhos,
Que se aninham nos ramos entrelaçados!

A lágrima extravasa a dor das marcas
Deixadas pelas fortes chibatadas
Estreitando o horizonte da alma
Que se perde entre as nuvens empanadas!

No campo florido de girassóis
Negrinho e Negrinha tão crianças...
Brincam contra o vento primaveril
Trocam flores numa alegria destemida,
Sem saber que toda aquela gente,
Também é gente, mas quase sem vida...

Encontro - Cida Bianchini



ENCONTRO
Cida Bianchini




Olhares pensantes... Concentração...
Mesmo foco, mesmo quadro, mesmo silencio,
A circundar a noite escura da Rua Oscar Freire.
Relógio que lembra antiguidade...
E aguça uma pitada de saudade
Indiscreto, no seu tic-tac sem parar,
Talvez para lembrar as mentes vagarosas
Que o tempo vai expirar...
Mas elas não param de pensar
Qual locomotivas, umas deslancham,
Outras, quase param, sem saber que rumo tomar...
São caminhos traçados que não se cruzam
Andam como paralelas, nunca irão se encontrar.
Quanta riqueza ali existe!
Quanta imaginação!
Criação!
Eu! Quero um caminho feito de garoa que cai lá fora
Quero passar pela floricultura e apenas olhar as flores
Correr pelas ruas, face nua, sem maquiagem
Deixar que me vejam como sou...
Quero fazer mágica, evaporar as drogas,
Renascer a juventude perdida,
Eu quero vida!
Quero abraçar este circulo de amigos
E transforma-los em borboletas
Voos rasantes, beijar todas as flores,
Lançar em bando a mesma profecia,
Eu quero amar o amor...
Como amo a poesia!

O menino que não brincava - Noemi de Carvalho


O menino que não brincava
Noemi de Carvalho




Um prédio classe média alta se destacava na orla marítima.

Ali morava Adriano de dez anos filho do zelador e que se isolava num apartamento dos fundos, onde sala cozinha e quarto se misturavam tirando a privacidade, sufocando desejos e vontades.

Seu passatempo era ver televisão, um aparelho velho onde as imagens se cortavam interrompendo a seqüencia das historias.

Às vezes o pai o chamava para molhar o jardim, carregar as ferramentas ou fazer outros serviços.A mãe ele acompanhava quando ela era contratada para limpar os apartamentos.

Os dias eram enfadonhos para Adriano.

O mar ele via de longe quando ia prá escola.

Quando era época de temporada ele se debruçava à janela vendo as crianças que iam chegando já provocando um tumulto natural no prédio.Elas jogavam pebolim,dominó, xadrez e brincavam de se esconder.

Muito raro o momento em que o convidavam para participar da brincadeira.

Este menino não brincava. Se embutia e se isolava tornando-se mais um ser que vivia por viver, sem sentir o cheiro do bolo da vovó, sem o carinho espontâneo do semelhante tendo um presente circunspecto com interrogações para o futuro.



O MENINO QUE NÃO BRINCAVA
Cida Bianchini





Éramos mais ou menos doze crianças a encher a casa de bagunça, numa gritaria sem fim, certamente o tédio dos nonos que buscavam o silêncio, em seus contritos corações.

Assim eram as tardes ensolaradas da minha infância. Espaço não faltava. A casa grande da fazenda, mais parecia um hotel, não só pelo tamanho, mas pela circulação de gente!

Cercada de árvores floridas na primavera, e imenso pomar com grande variedade de saborosas frutas.

O rio, com uma praia de areia branca, era mais uma opção, depois de muito correr nas diversas brincadeiras.

Meus irmãos, meus primos e os filhos dos empregados que, apesar de morarem distante de casa, não faltava disposição para irem ao nosso encontro.

Minha prima Ofélia, era a mais “pata choca”, assim apelidada pela falta de agilidade.

Pedrinho, o filho do oleiro, era o mais ágil de todos. Quando ele se aproximava todos gritavam: “Devagar Serelepe. Qualquer dia você vai se dar mal!”

Nininha, sua irmã, era calma e a mais bela de todas. Olhos grandes, azuis, cabelos que de tão loiros, brilhavam no sol com esplendor.

Neguinho era o inverso. De tão negro também irradiava certa luz, debaixo do quente sol de verão. Rosto suado, cabelos pixaim, sempre ostentava um rasgo em seu short ou em sua camiseta. Pés descalços, pois, ninguém andava calçado.

Neguinho era apático. Nunca quis brincar... Acompanhava de longe as brincadeiras. Sorria pouco, era de uma introspecção a toda prova, levando-o a uma incontida timidez. Ninguém sabia o porquê! Todas as crianças já haviam se aproximado dele para descobrir o motivo de ser tão arredio! Era inútil questionar...

Às vezes torcia os dedos das mãos, deixando que eles falassem...E, raramente não controlava a lágrima que escorria transparente na negra pele.

Todos porem, sabiam que Neguinho era o primeiro aluno da classe. Aprendia a lição com tanta facilidade que nem mesmo os professores entendiam. Hoje vejo que tais características são próprias de uma criança super-dotada.

Havia certa disciplina para as brincadeiras. O brinquedo era escolhido por votos. Colocava-se uma dezena de opções e com o braço erguido, chegava-se ao escolhido. Quando o número de meninas era maior, com certeza elas dominavam. Imensa roda, numa cantoria afinada, deixavam os meninos com inveja, ao se manterem sentados à distancia, participavam em silêncio.

Quando o número de meninos era maior, as meninas não tinham vez! O clube do Bolinha, não permitia a presença feminina. Eram jogos mais violentos, perigosos para a fragilidade feminina.

Na corrida dentro do saco eu era imbatível! Gritava com voz de taquara rachada, irritando a todos: ” Eu sou a força! Eu ganhei... Mais uma vez!”

Na corrida do Pula-Pau, ah, Tuca era sempre o ganhador...

Na amarelinha, sem dúvida o destaque era a Deca...

Boca de Forno...., todos eram destaques

Perna de Pau, o Duda era imbatível.

Só havia uma coisa em comum; a gula. Na hora que o cheirinho do café exalava, as brincadeiras ficavam para trás. Era um corre-corre, onde atropelavam-se sem tomar conhecimento. Sabiam que junto ao café a mesa era farta. Pão-doce, goiabada, bolo, biscoitos de polvilho, enfim, era uma festa...

Nossas tardes nem sempre acabavam bem. Certa vez, a gritaria era tanta que, meu nono, como bom napolitano, não suportou o estresse. Apesar do problema nas pernas que o impedia de correr, pegou o chicote de couro e tentou em passos largos nos alcançar. Demos várias voltas em torno da casa e ao encontrá-lo eu gritava fazendo careta: “Nonno, você não me pega”...

De repente, ele não suportou. Caiu por terra semi desmaiado. Todas as crianças se evadiram e eu me desesperei. Deitei sobre seu peito, abraçando-o forte pedi perdão. Neguinho se aproximou com um copo de água fresca, levantando sua cabeça forçou-o a tomá-la, e foi o que o reanimou. Chorei muito abraçada ao meu nono e percebi o quanto o amava.

Depois deste episódio, eu passei a liderar o grupo.

Tudo foi muito diferente. Entre as brincadeiras, passamos a ter a sessão de civismo. Aos poucos, foi crescendo até transformar-se numa verdadeira aula. Semanalmente eram distribuídos os grupos, com a respectiva agenda e o assunto.

Os grupos se reuniam para a pesquisa e preparação. A exposição era feita em grupo de três crianças.

Lentamente a brincadeira foi dando espaço à pesquisa e consequentemente o interesse ao estudo cresceu, para espanto dos professores.

A paz passou a reinar naquela casa para a felicidade dos nonos. Contudo as brincadeiras não cessaram. Apenas foi mudado o jeito de brincar.


Jequitibá - Cida Bianchini


JEQUITIBÁ
Cida Bianchini





Um braço do rio avançava em direção ao caramanchão todo florido que abrigava a família nos fins de semana.

Gostosas reuniões escreveram a história, sempre com convidados novos, pois, o circulo de amizades daquela gente, era vasto, pelas inúmeras atividades cultural, social e profissional, que o casal e seus cinco filhos exerciam.

Classe média alta, sem ostentação, seguiam rigidamente as regras deixadas pelos seus ancestrais, simplicidade....

Num dia qualquer da semana, Nina, a funcionária que há anos cuidava da limpeza daquele recanto que, de tão belo, parecia um conto de fadas, surpreendeu-se,ao ver Lelo, o filho mais velho e mais amado por todos, sentado à sombra do flamboyant, com a cabeça sobre os joelhos apoiados no banco que sustentava seu corpo.

Nina, aproximou-se em silêncio, embora estivesse nervosa ao perceber o pinga-pinga das lágrimas coloridas pela dor, pois, nunca vira Lelinho chorar. Era o mais alegre de todos, parecia estar sempre de bem com a vida. Algo de muito grave deveria ter acontecido...

Abraçou-o e sussurrou ao seu ouvido: “Meu anjo, porque choras assim”.

Demorou para que as palavras fossem pronunciadas. Nina, com seu rebenque mágico, conseguiu descobrir a causa daquela dor!

Com a voz entrecortada, o jovenzinho desabafou...

Abraçados caminharam para o local do acidente que resultou na morte da ovelha branca que, talvez por excesso de amor ao vê-lo chegar, atirou-se diante do carro. Apesar da freada brusca a morte fora inevitável.

Por instantes o sol perdeu o brilho, parecia triste, o pombal esvaziou-se... As pombas foram em bando acompanhar o funeral.

Lelo e Nina, envolveram a ovelha mais linda do rebanho numa toalha branca. O cortejo seguiu em companhia das outras ovelhas, e caminharam em silêncio.

Dindinha, foi colocada em meio a uma cama de folhas verdes e flores coloridas, à sombra do Jequitibá, local em que eles passavam horas brincando numa troca mútua de carinho.

O céu chorou através da nuvem que se deslocou sobre o jazigo.

Os pássaros cantaram, o vento soprou forte...

Em passos lentos, Lelo voltou à vida. Enquanto a alegria parecia desaparecer, a certeza gritava forte:

“ A paz foi morar debaixo do Jequitibá”!


Pedido de casamento - Cida Bianchini



Pedido de casamento
Cida Bianchini



Tudo começou durante uma linha cruzada, que ao perder o foco, duas pessoas de idiomas diferentes passaram a se comunicar, em clima de paz, sem estresse como comumente acontece.

Da Itália para o Brasil, Gianino para Ana Mária. Assim nasceu o romance que durou alguns anos.

Separados por um continente, escreveram a história que ficou guardada em dois baús. A comunicação através de cartas, foi o recurso mais prático que encontraram dada a dificuldade entre os idiomas.

Foi assim que nasceu o amor e caprichosamente se instalou em corações tão semelhantes.

Giane, assim conhecido, era um homem deslumbrante. Belo como diziam as italianas.

Empresário bem sucedido, orgulho da mamma que incansávelmente o admirava.

Ana Mária, jovem bonita, corpo esbelto, seios avantajados, bem ao gosto dos italianos, vivia uma vida simples no sofrido agreste pernambucano.

Filha de agricultores conhecia como ninguém a monotonia... A cada cair de tarde se preparava para não sofrer tanto, o que intensificava o desejo de escrever e transmitir ao seu amado a paixão edificada nas bucólicas tardes naquele canto escondido do agreste.

Estudante universitária cursava o último ano da Faculdade de Agronomia.

Seus pais, apesar de analfabetos, tinham planos para o seu futuro profissional, cujo maior sonho era ampliar os negócios do pequeno sítio, para o mercado de exportação.

As cartas pareciam falar... Tinham força estranha, ao ponto de transformar seus comportamentos em risos e lágrimas, saudade e espera... Esperar até quando...

Esperança....

Tão verde quanto as folhas da bananeira para Ana Mária.

Tão vermelho, tão ardente, cor de sangue, cor do semáforo que o faz esperar em sua máquina potente, enquanto visita o cliente, para Giane...

E o tempo passou sem que ambos perdessem o sabor daquele amor!

Enfim, a chegada do grande dia estava próxima. Saborearam passo a passo o sonho do primeiro encontro.

Brescia parecia pequena para conter a euforia de Giane.

O agreste também era pequeno para acomodar a ansiedade de Ana Mária.

O avião partiu e o belo ragazzo tentava decorar as frases que escrevera num italiano abrasileirado, o pedido de casamento à principessa piu bela del mondo!

Entre as nuvens, o sonho se intensificava. Era mais forte que a morte. Era mais saboroso e doce que o próprio mel.

O ônibus também partiu da pequena cidade para o longínquo aeroporto internacional... E com ele, a bagagem do sonho de alguns anos. Coração apreensivo, esperançoso, batendo forte no peito.

A medida que a paisagem ia ficando para trás e o caminho se encurtava, o sonho crescia. Ana Mária, mais parecia uma menina indefesa. A criança que nunca saíra daquele cantinho perto do fim do mundo. Era preciso se fortalecer! Afinal seu destino estava às portas de uma grande mudança!

Diante do aeroporto, segura firme a maleta e segue meio perdida...

O burburinho do Aeroporto, entremeado ao constante barulho das aeronaves que não param de chegar, deixam Ana Mária cada vez mais ansiosa! Sem desviar o olhar do painel que atualiza a cada instante a situação dos vôos, de repente sente um calafrio...

Chegou!... Meu Deus, meu coração parece que vai explodir...

Ana Mária, Ana Mária, daqui a poucos minutos tudo será diferente... Tão diferente... Não fique insegura, afinal você esperou tanto tempo por este momento! Diz ela consigo mesma.

Com passos lentos ela segue em direção à sala de desembarque. Segura firme o bastão que sustenta a placa, escrito com letras grandes: GIANI.

A porta se abre e entre toda aquela gente, identifica a figura do seu amado, não sei se pelo porte altivo bem característico dos italianos, ou pela expressão de felicidade que, como ela, não conseguia ocultar. Certifica-se, porém, quando ele vai ao seu encontro e com sotaque puramente italiano.

“Dio que bella”...

Abraçam-se, beijam-se, não se importam com o tempo e muito menos com as pessoas que não deixam de olhar aquele encontro tão caloroso...

Giane e Ana Mária seguem vagarosamente à Capela Ecumênica.

Lá fora o sol se põe. Pela primeira vez, não vê o cair da tarde que sempre lhe trouxera angústia.

Agora, abraçada àquele homem maravilhoso, que aprendera a amá-lo mesmo sem vê-lo, e hoje tão seu...

Giane tira do bolso uma aliança de diamantes e coloca-a em seu dedo, selando o amor.

A penumbra da Capela, cortada por apenas um fio de luz, tão tênue, tão especial, parece apenas ter espaço para os dois, que se contemplam.... Se ofertam....Se descobrem...