BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Natal! - Dinah Ribeiro Amorim

          

NATAL!
Dinah Ribeiro de Amorim

É Natal novamente
Quando Deus se faz mais presente
Em nossos corações.

Tempo de reflexões...
Tempo de mudanças...

Corrigir êrros que se foram
Esquecê-los se, possível.
Tentar mudar o presente
Modificando-o para melhor!

Com a ajuda do Alto e dos amigos,
Fazemos uma nova vida,
Acreditando que o impossível
É sempre possível aos olhos de Deus!

Que tenhamos em 2012
Uma alegria, uma saúde perfeita!
Que todo sonho seja realizado!
Que o ódio, a inimizade se desfaçam,
A paz entre os homens seja feita!

 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

QUALQUER SEMELHANÇA É MERA COINCIDÊNCIA - Dinah Ribeiro Amorim


QUALQUER SEMELHANÇA É MERA COINCIDÊNCIA...
Dinah Ribeiro de Amorim


  Nasceu Maria como tantas outras, na cidade de Belém, pequeno bairro chamado Santos Reis. Maria das Dores, Maria das Graças, Maria José, Maria de Fátima, ela, simplesmente Maria.

  Não era muito parecida com as de sua idade. Muito humilde, quieta, sossegada, equilibrada. Dócil e boa, negava-se a fazer parte das brincadeiras mais violentas. Temperamento calmo!

  Cresceu como todas, bonita e gentil, obedecendo aos pais em tudo. Muita graça e formosura, chamando atenção seu olhar, firme e franco, profundo, como se conhecesse as pessoas por dentro.
  Um dia, passeando sozinha pela praia, pensativa e sonhadora, foi levada por uma ventania de areia, que se formou, de repente, e que assolava aquela região, de tempos em tempos, pegando pescadores e moradores desprevenidos!

  Maria sumiu, levada pelo vento, preocupando a todos que a procuravam, insistentemente.

  Passado alguns dias, quando já a consideravam morta, apareceu tranquilamente andando pela praia, muito alegre, vindo da casa de uma prima. Havia se refugiado lá e ficado mais um tempo.

  Seus pais, sem saber direito se a repreendiam ou não, deram  Graças a Deus por ela! A alegria em tê-la de volta abrandara um pouco suas preocupações.

  Com o tempo, a moça retomou os afazeres domésticos, recebendo, de vez em quando, a visita de um amigo da casa, José, ao qual estava prometida desde a infância, segundo um costume local.

  Homem bom, trabalhador, carpinteiro de profissão, sabendo dar valor, respeitava muito sua prometida.

  Eis que uma novidade aparece, assombrando todos. A barriga de Maria começa a crescer, dando sinais de uma gravidez, impressionando e atraindo vários comentários maldosos!

  José, discretamente, começa a indagar sua mãe, sobre o que seria aquilo?

  A cidadezinha não falava em outra coisa! Algo acontecera quando ela sumira na tempestade de areia e, com vergonha, não queria contar.

  Pressionada, Maria não entende o que lhe está acontecendo e não responde nada...
  José, cumpridor de sua palavra, para acabar com os fuxicos, pede-a em casamento, embora também desconfiasse da pureza da noiva.

  Assume-a como esposa e descobre, espantado, que ainda era virgem.

  Sonha, à noite, que ela iria dar à luz um ser diferente, divino, como há mais de dois mil anos atrás, novo emissário de Deus ao mundo, trazendo muita felicidade.

  Resolve, então, sempre protegê-la, levando-a para outra cidade para fazer o registro da criança, quando nascesse.

  No meio do caminho, já em final de gravidez, Maria sente as dores do parto e acaba dando a luz numa cocheira, cercada de animais domésticos e pastores, recebendo como visita três homens diferentes, ricamente vestidos, um pouco estranhos, dizendo serem reis magos, vindos do outro lado do mundo, guiados por uma estrela que os avisara aonde nasceria uma criança muito importante, ensinando paz à humanidade.

  Um deles era muito claro, louro, de olhos azuis. Outro, bem moreno, de olhos escuros e amendoados, quase sem pálpebras e, o último, de pele negra, olhos grandes e também negros, cabelos muito crespos, dentes alvíssimos.

  Seus nomes: Baltasar, Belchior e Gaspar. Trouxeram vários presentes: ouro, incenso e mirra. Ajoelharam-se perante o menino, no colo de  Maria que, espantada, indagava a José quem seriam?

  Ele também não sabia.

  Maria e José foram entender, aos poucos, a grande missão que teriam: educar e preparar para a vida esse novo ser que, mesmo em criança, já demonstrava sinais de divindade!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

QUE SERÁ MAÇANETA? - Dinah Ribeiro de Amorim



QUE SERÁ MAÇANETA?

Dinah Ribeiro de Amorim


_Lúcia, vá até o quintal e me traga algumas maçanetas! Quero fazer um doce.

_Verdes, vovó? Ainda não estão muito maduras.

_ As verdes são as melhores para doce. Ficam mais macias e caudalosas. Da. Vera adora os doces que eu faço e como anda meio ranzinza, nada como um docinho de maçaneta para alegrá-la.

_Por que ela anda assim, vovó? Que aconteceu?

_Seu filho foi embora. Fugiu com uma moça aqui da fazenda e ninguém sabe deles. Não avisou ninguém! O pai dela quer até matá-lo! Ainda bem que não se sabe aonde estão!

_Cruz, credo! Que rapaz ousado! Atrevido mesmo! Aonde se viu fazer uma coisa dessas. Vou correndo pegar as maçanetas, vovó!


(Observação: maçaneta, maçã pequena, dando origem à palavra maçaneta, abertura de porta, devido à forma de maçã, como era feita, no início).

QUANDO A MENTIRA VIRA REALIDADE! - Dinah Ribeiro Amorim



QUANDO A MENTIRA VIRA REALIDADE!
Dinah Ribeiro de Amorim

Roberto apaixona-se perdidamente por Isabel, colega de repartição. Amor à primeira vista.

Preocupado, pergunta a um amigo em comum o que fazer para conquistá-la pois, era muito bonita e requisitada por todos.

Tomás, o amigo, conhecedor de Isabel de longa data, afirma-lhe que ela era louca por pintura. Fora do trabalho, o que mais a interessava era isso. Não perdia exposições, lançamentos, cursos, pintava sempre que podia. Seu hobby predileto.

Roberto começa então a se interessar repentinamente por essa arte e a mentir para ela que gostava e conhecia tudo sobre o assunto.

Levava-lhe presentes, reportagens, livros de arte, até que chega a convidá-la para uma exposição que rolava no momento: Deuses e Madonas, indo dos mestres antigos até os mais modernos.

A moça aceita logo, encantada.

Encontram-se no MASP para a exposição.

Isabel, estranhando um pouco esse conhecimento súbito, resolve testá-lo e convida-o a ver obras de Cézanne, afirmando ser um belo Renoir.

Roberto, sem contrariá-la, não sabendo nada de Renoir, concorda logo, elogiando também.

Isabel sorri maliciosamente e percebe que o rapaz mente, não entende nada de pintura. Resolve levar adiante sua brincadeira, confundindo-o com obras de Goya e Picasso, Modigliani e Monet e várias outras.

Já estavam quase saindo quando um quadro chamou realmente a atenção de Roberto, que ficou a olhá-lo, embevecido, admirado, querendo saber de quem era: um velho banco pintado por Van Gogh, durante sua estada no sanatório de Saint Rèmy. Olhava-o, olhava-o, cada vez mais interessado pelo autor.

Isabel, já impaciente, achou que era mais uma de suas mentiras e, contrariada, vai embora.

O rapaz, apaixona-se também por Van Gogh. Quis conhecer tudo sobre ele e recomeçar sua visita à exposição. A arte, o desenho, as cores dos grandes mestres ganha mais um adepto. Ele adquire um novo amor: a pintura, deixando Isabel à espera para quando começasse a crer nele de verdade.

Formariam um par perfeito! Ela também chegaria a essa conclusão.

domingo, 27 de novembro de 2011

Congresso do Escritores - De Carmen Lucia Raso

Olá Mestra,



O prazer foi todo nosso.


Acho até que "deu um gás " na vontade de escrever, apesar de todos os pezares,


aqueles que ouvimos e pudemos sentir.


O que vale é ainda sonhar, fazer o que nos deixa feliz e isto vale tanto para a nossa Mestra,


como a amizade de todas as " Meninas ".
 
Carmen Lucia Raso

A DE SEMPRE!” DE CARLOS DRUMOND DE ANDRADE - Dinah Ribeiro Amorim



OFICINA DE CLASSE: INVENTAR UM CONTO BASEADO EM :”A DE SEMPRE!” DE CARLOS DRUMOND DE ANDRADE.


Dinah Ribeiro de Amorim


Carlos, aborrecido com vários problemas, sai do trabalho e nem pensa em voltar para casa. Resolve tomar umas e outras...

Passa no bar de sempre e já pede uma cerveja. O garçon pergunta-lhe se já experimentou uma nova que chegou: Devassa! Ele, sem ligar para o rótulo, apenas querendo aliviar seus males, diz que sim! Experimenta a Devassa, gosta e pede mais uma.

Sai do bar já mais tranqüilo e resolve parar em outro, freqüentado por um amigo muito bacana, de bom papo!

Quando chega, encontra-o logo, tomando também uma cerveja. Pede para ele também. O garçon pergunta-lhe: Qual marca? Ele responde: a mesma do meu amigo. Era Skol.

Tomam duas cervejas juntos e resolvem sair dali e terminar a noite em outro barzinho legal, inaugurado recentemente. Pelo jeito, a boemia iria longe...

Logo que chegam, avistam um senhor pedindo uma cerveja ao garçon.

Este pergunta-lhe:

_ De qual marca?

O senhor responde: “ a mesma de sempre”.

Os dois amigos, já bastante alterados pelo efeito da bebida, muito alegres, brincando, pedem também uma cerveja.

O mesmo garçon pergunta-lhes:

_Qual marca?

Os dois respondem juntos, unindo-se ao velho: “A mesma de sempre”

_ Como? diz o garçon. Vocês nunca vêem aqui!

_ “A mesma de sempre que ele bebe”, respondem os dois, apontando o senhor, sem saberem qual cerveja faltava ainda para pedir!

O PALHAÇO - Resenha por Dinah Ribeiro Amorim

RESENHA DO FILME: “O PALHAÇO”

Dinah Ribeiro de Amorim






Filme brasileiro, 2011, com 90’ de duração. Feito pela Imagens Filme.


Direção: Selton Mello.


Elenco: Selton Mello, Paulo José, Larissa Manoela, Gisselda Mota, Moacyr Franco, Erom Cordeiro, Cadu Fávero, Teuda Bara e Thogun Ferrugem.


Festival de Paulínia: 2011.


Melhor direção: Selton Mello.


Melhor roteiro: Selton Mello, Marcelo Vindicatto.


Melhor ator: Selton Mello.


Melhor ator coadjuvante: Moacyr Franco.




O filme conta a estória de Benjamim que forma dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue, com seu pai, Paulo José. Crescido dentro do circo, Benjamim vai se cansando dessa vida, achando-a monótona, perdendo a graça, principalmente quando chega à conclusão de que não tinha identidade, documentos próprios nem para comprar um ventilador para o circo, que era o seu sonho. Só possuía um registro de nascimento, velho e roto, não sendo aceito por nenhuma loja. Todos no circo o amavam mas pedem-lhe a toda hora alguma coisa que necessitam e ele não consegue comprar. Até um soutien para a velha gorda teria que providenciar. Havia quebrado!

Conhece uma moça nova, de outra cidade, que o entusiasma a procurá-la mas, antes, cai em depressão e resolve ir embora. Mudar de profissão, ir em busca de seus sonhos...

Recebe antes um aviso do pai:”a gente tem que fazer na vida o que sabe fazer bem” e dedicar-se a isso! Filosofia simples que aprendera com um músico de bar, também simples!

Benjamim vai embora, procurar a moça e encontra-a noiva, para casar. Arruma um emprego, tira a carteira de identidade, compra o ventilador que queria e resolve voltar, sabendo que é engraçado, a única coisa que é na vida: engraçado, sabe fazer os outros rirem.

Na sua volta, encontra o pai encenando sozinho e diz-lhe, em forma de brincadeira:” a gente deve fazer o que sabe, fazer rir, e bem feito!”

Feliz novamente com sua arte, não precisou muitas andanças na vida para encontrar novamente seu caminho.

O filme é um poema, romântico, suave, bem feito, cômico às vezes, profundo, sem necessitar de palavras feias e cenas eróticas para retratar a vida simples do nosso interior, nossa população brasileira. É merecedor de muitos prêmios tanto o autor Selton Mello com seu texto, direção e atuação como seus companheiros de elenco, que são ótimos, cada um no seu papel.

domingo, 20 de novembro de 2011

Até que ponto uma mentira é valida? - Dinah Ribeiro Amorim



ATÉ QUE PONTO UMA MENTIRA É VÁLIDA?


Dinah Ribeiro de Amorim


Roberto era um tio muito querido que amanheceu um dia com dores de dente. Encaminhado ao dentista, foi verificado que sua dor não era o dente mas um tumor que havia invadido a maxila e necessitava ser operado com urgência.

Feita a biópsia, verificou-se que era maligno mas, totalmente extirpado, foi mandado para casa e recebido alta. Não seria necessária nem a quimioterapia.

Telefonei para ele e queria visitá-lo mas ele se esquivou, dizendo que não podia nem falar nem comer. Estava aguardando uma prótese para fechar um furo no céu da boca e a comida não sair pelo nariz.

Fiquei bastante penalizada, desliguei rapidamente o telefone e prometi ligar outra hora, quando estivesse em melhor situação.

Passado um tempo, soube que andava com muita depressão, sem vontade de comer e falar, trazido rápido para São Paulo, pois morava em Santos.

Talvez terapia em Psiquiatria ou Neurologia. Já nem conhecia mais os familiares.

Espantei-me muito! Como de um problema dentário, ele acaba em Psiquiatria? Achei bastante esquisito isso! E era o meu tio mais brincalhão.

Pedi a um amigo médico, otorrino, que soubesse a verdade sobre seu caso, indicado pela família para ir vê-lo e solucionar o problema da boca. Estávamos muito preocupados!

Qual não foi a surpresa quando descobrimos, através desse amigo, a ficha completa de meu tio ou do seu caso.

Estava nas últimas, com tumores pelo corpo todo e, nada a fazer. Nem a própria esposa sabia disso.

Morreu mesmo, no dia seguinte, inocente, sem saber direito o que tinha! Chegou muito tarde ao hospital!

Ou mentiram para ele quando foi operado da boca, para que não sofresse, mentiram para a própria família, que não sabia direito o que ele tinha, menti eu quando pedi que outra pessoa ligasse ao hospital e soubesse a verdade; houve muita mentira, não sei dizer ao certo se benéfica, ingênua, irresponsável ou maléfica!

Só acho bom que, já que iria morrer, não tenha sabido realmente o que tinha!

Morreu sem saber que estava no fim!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

AMELIA VIDOCA - poetisa e declamadora



Amelia Vidoca




Fantasiada de deusa da Floresta - sua personagem


Na terceira idade temos tempo de sobra para muita criatividade artística que poderá brotar, bastar alçar vôo.

A Amélia é nossa associada fundadora, artista, escritora, poetisa, declamadora, compositora, cantora e apresentadora de sarau.

Apresentando Sarau para a Terceira Idade.

Além de tudo ela ainda representa seus personagens literários e interpreta as canções que ela mesma compôs para um CD que acompanhará seu próximo livro infantil. 

Amelia participou de várias antologias, e escreveu a A Voz da Alma, um delicioso livro de poesias, cujas ela declama com emoção. Em breve sairá o encantado livro com histórias infantis, com músicas de seus personagens. Ela vem gravando as canções ha mais de 1 ano, e já está em fase de enviar para editoras seus textos. Vamos torcer por ela. 










A Deusa da Floresta é uma personagem linda que defende a floresta:







Tem Amelia Vidoca também no site do ICAL: Amelica Vidoca

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Alucinações - Dinah Ribeiro Amorim



ALUCINAÇÕES!
Dinah Ribeiro de Amorim

  Hoje em dia, tudo é chamado de arte. Qualquer escultura, desenho ou pintura, feitos pela mão do homem é exposta em museus, sem uma apreciação do que é belo ou do que o autor quis passar. Sem um trabalho prévio de avaliação. Muitas vezes, ele nem se preocupou em passar algo, só amedrontar ou afrontar.
  Foi diferente o que aconteceu com Gonzáles, quando visitou em Cuzco, uma exposição de arte primitiva e desobedeceu à ordem de não fotografar uma espécie de múmia ou deusa antiga, tipo feiticeira do lugar, chamada Khalengira. Seus olhos cintilantes, cabelos cor de fogo, corpo todo enfaixado como uma múmia, de pés descalços,exalava um perfume estranho e uma fumaça que lhe envolvia como uma nuvem. Ao lado, uma tabuleta contava sua triste história e recomendava que não a fotografasse pois poderia atrair grandes mudanças a quem com ela se envolvesse.
  Gonzáles, não acreditando em lendas, fez questão de fotografá-la e contar sua história quando voltasse para casa.
  Não imaginou que lhe sucederiam fatos estranhos, levando-o quase à loucura.
  Saiu do museu e viu-se num local diferente, pessoas vestidas à moda antiga, regional. Queria chegar ao hotel e não conseguia.
  Perambulou pelas ruas, tentou falar com estranhos, perguntar aonde estava.Ninguém lhe respondia.
  Tentou voltar ao museu histórico e também não o achou. O desespero tomou conta dele. Enfiou a mão no bolso e dinheiro, documentos,passaporte, haviam sumido. O celular não funcionava.
  Que lhe estaria  acontecendo?Só sentia um perfume estranho o acompanhando, o tempo todo.
  Andava cambaleante, às tontas, sem direção. Não sabia aonde ir.Resolveu simplesmente caminhar como todo mundo. Para onde? Quem sabe?
  Todos iam para um determinado lugar, um templo vermelho, no alto de uma colina, como sonâmbulos. Estaria no inferno? Teria sofrido uma espécie de morte, sem que percebesse?
  Seguindo, entrou no templo. Havia no altar uma deusa viva, meio mulher, meio bruxa, com olhos faiscantes e hipnotizadores. Seus cabelos emitiam raios como sol, o corpo envolvido num manto branco, soltava uma fumaça perfumada como gelo seco em festas modernas.
  A única diferença nela, semelhante às outras mulheres, eram os pés descalços e comuns, pisando numa espécie de globo terrestre, em miniatura, como se fosse dona do universo.
  As pessoas lhe rendiam graças e depositavam aos seus pés, dinheiro, comidas, documentos.
  Gonzáles observou bem o chão e reparou que lá estavam sua carteira, documentos, papéis do hotel.
  Como sairia dessa? Como voltar à realidade?Teria entrado como todos, num mundo antigo, imaginário, um tipo de alucinação?
  Sentiu que ela o olhava demoradamente, como a exigir alguma coisa. Que seria? Já estava tudo ali. Até sua verdadeira identidade estava perdendo, meio inconsciente e sem domínio.
  A mulher ou feiticeira o olhava, insistentemente, pedindo-lhe algo.
  Lembrou-se, de repente, que ainda portava à tiracolo, sua máquina fotográfica.
  Atirou-a logo ao chão, fazendo-a cair aos seus pés.
  Imediatamente, o cenário mudou. A deusa foi desaparecendo, dando uma gargalhada feroz, até que sumiu totalmente. As pessoas foram se retirando e, Gonzáles, pegou rapidamente suas coisas, abandonando aquele lugar.
  Viu-se de volta ao quarto do hotel, deitado na cama, com o torpor e o perfume que sentira, passando aos poucos.
  A cabeça lhe doía e, olhando o relógio, reparou que havia passado apenas uma hora. Parecia ter vivido uma outra vida. Entrado em outro mundo. Sentira passar um tempo enorme.
  Descansou um pouco, matutando no que lhe acontecera. Teria sido um pesadelo ou verdade o que vira? Alguma febre, indigestão ou medo? Sempre fora tão arrojado!
  Coisa estranhas acontecem quando saímos de casa e viajamos pelo mundo. Ainda bem que se lembrou de jogar a máquina. E essa, agora! Aonde teria ficado?
  Olhou na cadeira do quarto e a viu. Pensou, então, tudo não passou mesmo de um sonho, um momento de alucinação. Ligou-a e verificou as fotos do museu. Muitas estavam ali mas, a da tal Khalingira, não! Havia sido apagada.

                                      

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Mandacaru - Daisy Daghlian



O mandacaru - Daisy Daghlian

(trabalho criado baseado na obra de Graciliano Ramos - Vidas Secas)


Em meio ao sertão nordestino, quatro pessoas e uma cachorrinha se arrastam, numa peregrinação silenciosa. O menino mais velho, exausto da caminhada sem fim, deita-se no chão, incapaz de prosseguir, o que irrita o pai, que lhe dá estocadas com a faca no intuito de fazê-lo levantar. Compadecido da situação do pequeno, o pai toma-o nos braços e carrega-o, tornando a viagem ainda mais modorrenta.

À medida que vão se arrastando, o pai com muito esforço pensa no que estão fazendo. Tinham deixado para trás o pouco que possuíam e conheciam. O pequeno casebre quase em ruínas, a terra árida e improdutiva. O pouco gado, que agora era nenhum, havia morrido de fome e sede.

Devia haver algum lugar melhor que aquele. Fugiam da morte certa.

O medo do desconhecido, o atormenta o tempo inteiro. Ao mesmo tempo lembra-se de uma época, com um pouco mais de fartura, quando ainda dava para sobreviver com algum conforto. Mas os anos de estiagem chegaram. Tudo virou fumaça.

O gemido do filho em seu colo trouxe-o para a realidade. O menino com gestos pediu água.

A mãe, atenta, tirou da sacola, uma garrafa, olhou, ainda estava quase pela metade. Aproximou-se e sussurrou tome só um bocado, temos que poupar. O olhar triste do garoto mostrava a situação desesperadora. Obedeceu. A mulher deu um pouco de água para a criança menor e, colocando um pouco na mão deu para a cachorrinha que agradecida balançou o rabo.

Estavam exaustos, caminhavam há dias e, a paisagem não mudava. Terra seca, árvores secas, carcaças de animais espalhadas pelo caminho.

Mais um dia terminou. Resolveram dormir ali mesmo.

Juntaram um pouco de lenha. O pai acendeu uma fogueira para se protegerem dos animais que porventura existissem.

Pegou da sacola um pedaço de carne seca, cortou com o facão alguns pequenos pedaços e distribuiu para a família, pegou um pedaço para si mesmo e jogou um naco para a cadela.

Não tinham forças para conversar.

Adormeceram.

O dia chegou com aquele mesmo sol escaldante. Puseram-se a caminhar.

Quantos quilômetros andavam por dia, não tinham idéia. Quando chegariam a algum lugar habitado e onde tivessem uma condição melhor de vida, parecia um sonho distante que nunca iriam alcançar.

Passaram-se dias, semanas e até meses. Lá estavam eles, caminhando como espectros. Já faziam parte da paisagem. Sujos, esfarrapados e esqueléticos.

Naquela manhã acordaram sentindo que o dia seria diferente. O céu estava carregado de nuvens, um vento leve soprava.

A mãe mostrou desolada a sacola vazia. A farinha e a carne seca haviam acabado. Da água restavam alguns bocados. As crianças, não pediram nada.

Recomeçaram a caminhada, andando cada vez mais lentamente.

A chuva chegou de repente.

Os quatro como se agradecendo levantaram as mãos para o céu e sentiram aquela água fria jorrar pelo corpo abriram a boca e mataram aquela sede que durava meses, a mãe pegou as garrafas vazias e encheu todas. Pegou ainda um pedaço de sabão tirou a roupa dos filhos deu um banho neles ali mesmo. Sem pudores tomou banho também. Estendeu o sabão ao marido.

Pegou uma trouxa, que sempre carregava consigo e de lá tirou roupas quase limpas para todos. Sentindo-se quase humanos novamente se abraçaram.

A chuva parou. Recomeçaram a caminhar. As barrigas vazias gritavam de fome.

O mandacaru florido estava no meio do caminho, olharam embevecidos para aquela miragem. Se achegaram. Era verdadeiro. O pai pegou o facão, cortou alguns pedaços e eles saciaram a fome dolorosamente.

A esperança tomou conta deles. Iam conseguir. Tinham sobrevivido.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Situação difícil - Dinah Ribeiro Amorim


SITUAÇÃO DIFÍCIL!

Dinah Ribeiro de Amorim


  Professor Horácio, todo atrapalhado e sempre cheio de papéis, está saindo da escola quando é abordado por um jovem.
_ Olá, professor, não se lembra de mim?
  Meio assustado, responde:
_ Não, são tantos alunos! Confesso que é difícil guardar o rosto de todos.
  Quem será este rapaz? Pensa. Sujeito esquisito! Nem parece que foi da nossa escola!
_ Ah! O senhor não se lembra mas, eu guardei bem o seu rosto, as suas aulas, a sua matéria. Ciências, não é?
_ Não, geografia. Em que ano foi? Faz tempo que foi meu aluno?
_ Sim, já faz um tempinho. Saí da escola por sua causa! Porisso, lembro-me bem.
_ Por minha causa? Aconteceu alguma coisa?
_ Fui expulso da sua sala duas vezes. Briguei com outro colega. Na terceira, o diretor me expulsou.
_ Lamento muito mas, não estou lembrado. E agora, que faz?
  Moço estranho! Com esse palavreado! Será que foi mesmo meu aluno? Acho que está mentindo.
  _ No momento, estou parado. Vivo de bicos. Arrumo um serviço aqui, outro ali, faço o que aparece! A gente precisa estudar, né professor? Sem estudo, fica difícil. Não se arruma trabalho legal!
Sabe, a escola fez falta! Pena ter sido expulso...
  Coitado, pensa Horácio, vai ver que é verdade. Está com cara de sofrido. Deve passar uns maus bocados.
_ Por falar nisso, professor. Fico meio sem jeito de tocar no assunto mas, não daria para me arranjar uns trocados? Preciso levar um dinheirinho pra casa. Sustento mãe doente e velha. Ih!, dá um trabalho! Remédio, roupa, comida, é coisa que o senhor nem imagina!
  E essa agora! Que faço! Pensa o professor. Caio na conversa dele ou não? Quer fazer-me sentir culpa pelo ocorrido, se é verdade que foi expulso de minha aula.Dou-lhe uns trocados e ele se manda.
  Enfiou a mão no bolso, achou vinte reais e estendeu para ele.
_ Tome, espero que isto o ajude. Sou também um simples professor. Ganho pouco...
_ Muito obrigado, valeu... Foi um prazer encontrar o senhor aqui na saída da escola.Acho que se depender de mim, nenhum aluno irá brigar mais em aula. Tô indo!
  E sumiu logo de vista.
  Professor Horácio ficou com cara de bobo, sentindo-se meio enganado, não sabendo direito por que?

Fugindo sa seca - Dinah Ribeiro Amorim


FUGINDO DA SECA!
Dinah Ribeiro de Amorim

  Em pleno sertão nordestino, no polígono das secas, ainda algumas pessoas insistiam em viver. Plantar alguma coisa.
  Muitos já tinham ido, fugindo desse lugar em que nada mais brotava, nem água nos riachos havia.
  A seca já durava oito meses.
  Mulheres rezavam para chover, faziam peregrinações, cantorias e, nada, nenhuma nuvem naquele céu quente e vermelho, de solo rachado e endurecido.
  Os animais que ainda viviam, rumavam para outras regiões, procurando novas pastagens. Tinham ainda instinto de sobrevivência.
  Seu Honório, dono de terras, decide finalmente. Iria embora. Avisa a família, mulher e três filhos para arrumarem pequenas trouxas com poucos pertences. Seguiriam caminho logo cedo, em busca da capital, de serviço, de vida melhor do que aquela.
  O Senhor havia abandonado mesmo aquele lugar. Não havia mais jeito. A época das chuvas se fora para não mais voltar.
  Partiram de madrugada, com lágrimas nos olhos, deixando casa, terrenos, móveis, alguns utensílios de cozinha.
  A água escorrendo pelo rosto era o único líquido que ainda tinham.
  Caminham devagar, para quê a pressa se a jornada era longa e haveriam muitas paradas.
  Numa delas, encontram um homem velho, barbudo, de olhos negros e penetrantes. Conversa vai, conversa vem, o ancião, Herculano, pergunta-lhes para onde vão?
_ Sabemos ainda não, sinhô! Aonde tiver vida melhor que esta. Boa terra para plantá, comê, água para os homens e animais, plantação... Aqui, neste lado de Deus, não brota mais nada.
  Herculano pensa um pouco, parece falar com ele mesmo, orar talvez, compadecido da sorte de Honório e de tanta gente como ele, na mesma situação. De repente, fala:
_ Por que o amigo não planta abóboras?
_ Como, responde Honório, plantá abóboras neste terreno seco? O sinhô deve de estar louco!
_ Pois eu acho que deveria tentá de novo. O Senhor manda dizê pra plantá abóboras! Esta terra ainda vai dá alguma coisa.
  Outros retirantes se aproximam.Estavam curiosos com aquela prosa e no que iria dar.
  A mulher de Honório, Suzana, ainda crente que a sorte deles poderia mudar, convence-o a voltar. E plantar abóboras!
  Fariam uma última tentativa, teve fé nas palavras do velho, uma alma boa no meio daquela gente descrente.
  Honório voltou com a família e, ajudado pelos filhos, jogou na terra seca, sementes de abóbora.
  No fundo, era descrente mas, não custava nada fazer o gosto da mulher. Já tinham perdido tudo, mesmo.
  Os outros retirantes também voltaram e, plantaram, em suas terras, sementes de abóboras.
  Passado um tempo, olham o céu e, nada, nem sombra de chuva, nenhuma gota no sertão.
  A fome e a sede já começa a tomar conta deles. Que bobageira fora aquela? Seguir um velho desconhecido, com a cabeça já delirando devido ao calor e à idade. Que imprudência e ilusão a deles. Era a voz do coração que tinha mandado, não a voz da razão. Preparam-se novamente para partir.
  Quando olham, de manhãzinha, parece que uma nuvem, ao longe, está se aproximando.
  Seria a vista de Honório? O sol quente lhe cozinhara os miolos? Resolvem ficar mais um dia.
  De manhãzinha, novamente, aquela nuvem escura se aproximando. Todos a vêem.
  E assim, todos os dias, a nuvem escura se achegava, cada vez mais perto da plantação, até que parou em cima dela e, à noite, orvalhava a terra dura e seca.
  Ficou assim por três meses, até brotarem algumas folhas, regando, à noite, aquelas sementes de abóbora, com orvalho da madrugada.
  Depois, surgiram as flores! Lindas as flores da abóbora! Grandes, brancas, rasteiras, transformando a triste paisagem numa alegre primavera.
  Primavera no sertão árido, esquecido de Deus!
  Até que a nuvem resolveu fazer chover e molhar completamente a região.
  Muitos vieram para vê-la, não acreditando que fosse verdade.
  Pois foi,deu abóboras no sertão!
  Quando chegou a colheita, abóboras maduras, enormes, carnudas, fizeram a alegria geral, livrando-os da fome, da miséria, da  fuga daquele lugar.
  Houve festa grande! Venderam muito. Distribuíram para outros povoados aquelas abóboras deliciosas, suculentas, que nunca tinham visto igual.
  Procuraram o velho Herculano para agradecer. Ele já tinha ido. Sumira para outras paragens, levando sua fé com ele.
  Deixara saudade e a sabedoria que sempre resta uma esperança nessas regiões em que Deus parece ausente.
  A nuvem também se foi. Não voltou mais, deixando a terra úmida e o riacho cheio.
  Com o dinheiro da colheita, Honório e sua família passaram a viver melhor, conseguiram canalizar a água de grandes rios para seu riacho, não pensaram mais em mudar para a capital e abandonar as terras de origem.
  Pois é, deu abóboras no sertão! Muita gente não acredita:ah! estórias que o povo conta...

                                    
                                           

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Você me conhece? - Suzana da Cunha Lima



Você me conhece?
Suzana da Cunha Lima

 
Estava eu atravessando a rua com pressa, para ainda pegar o banco aberto. Eis que, quando consigo entrar lá, sou quase atropelada por uma senhora gordinha e sorridente que estava lá dentro e veio em minha direção me fazendo muita festa.

- Ah, quanto tempo a gente não se vê, heim? Acho que perdi seu telefone e queria tanto te encontrar...

- É mesmo? – respondi quase automaticamente, abraçando-a também, de olho no único caixa eletrônico vazio, sem me recordar absolutamente com quem eu estava falando. Mas como sou muito distraída, achei que acabaria me lembrando.

Ela se desprendeu de mim, alegre e me olhando de alto a baixo:

- O tempo não passa para você, não é? Está ótima, mulherona mesmo... Ficou parecida com Lady Gaga.- Deu uma risada e me propôs - .Escuta, não dá para a gente ir tomar um cafezinho aí no lado, no Franz Café? Tenho uma proposta para lhe fazer.

Olhei-a atentamente e nada me veio à cabeça. Ela me confundiu com alguém, coitada, mas resolvi responder com polidez.

- Hoje não é um bom dia, sabe? Tenho que pagar estas contas, e daqui vou correndo para o médico... Fui tirando os documentos da bolsa e me achegando ao caixa livre, enquanto dava um pouco de atenção à ela: - Proposta é? Acho que não vai me interessar. Estou aposentada e feliz da vida sem horários e patrão.

- Olhe, estou muito feliz por ter-lhe encontrado. Não é nada de trabalho, pelo menos não o convencional...Eu ia lá lhe propor algo careta? - ela riu e se encostou no caixa comigo, cortando totalmente minha rota de fuga..

Enquanto eu resolvia minhas contas e sacava algum dinheiro, ela parecia uma matraca no meu ouvido, falando sem parar.

- Eu me encontrei com a Baixinha outro dia, mas ela também não sabia onde você morava agora. Ela me disse que depois da separação você vendeu a casa e foi morar num flat. Ela não está nada bem, acredita que foi presa por porte? Vacilou, dá nisso... Era um tico de nada, mas não era mais primária, sabe como é... E o pior é que os filhos nem estão aí. Essa vida é madrasta mesmo – suspirou – E a Barbie, lembra dela? Sempre arrumadíssima, sempre se achando, mas totalmente brega, coitada, e agora....

- Por que coitada? Perguntei enquanto colocava os pagamentos na bolsa, tentando achar alguma saída para aquela saia justa.

- Você sabe, Julinha, a gente comentava muito sobre isso em nossos encontros. – falou ela quase impaciente - O marido resolveu sair do armário e se mandou com um rapazinho. Um vexame...

Suspirei aliviada. Bom, pelo menos eu sabia que não era a tal Julinha, nem daquela turma, mas resolvi levar aquilo adiante, por curiosidade. Daqui a pouco eu ia inventar um nome para ela.

- Eu não tenho visto ninguém de nossa turma, tem tempo. – desconversei tentando sair do Banco e pedindo a Deus que o convite para o Franz Café fosse esquecido.

- Da nossa gang, você quer dizer, não é? retrucou ela – Estamos mais velhas, mas continuamos as mesmas doidas de sempre. Questão de honra, já esqueceu? Fizemos juramento de sangue, até... Nada de caretice...Ou você já está dando para trás?

Agora a fala era mais ríspida, mas senti que ela estava me conduzindo para fora do Banco enquanto eu estava tentando furiosamente revolver meu arquivo de nomes no cérebro para descobrir quem era aquela senhora de cabelo pintado cor de beterraba e parecendo tão à vontade naqueles trajes esdrúxulos: bota alta, fuseau bem justinho, coletão. Uma figura...

Aí, algo acendeu em meu cérebro... Esta mulher quer é me assaltar e veio com esta conversa que me conhecia. Resolvi não sair do Banco e voltei para trás. Pelo menos tinha um segurança lá dentro.

- Receio que não possa mais conversar contigo, Sebá. (ri comigo mesma, pensando o que iria na cabeça dela ao ser chamada de Sebá – de Sebastiana) Lembrei que preciso pegar talão de cheque, tenho que voltar para a máquina e já estou atrasada para o médico. Até outro dia! – e deixei a porta se fechando na cara dela enquanto fui rapidamente para a máquina de cheques.

Olhei-a com o rabo dos olhos e vi-a desconcertada, na porta do Banco, sem poder entrar porque já tinha passado do horário.

– Acho que me safei desta , pensei aliviada enquanto a máquina funcionava e eu ia pegando os talões. Quando me virei para a porta, eu a vi atravessar a rua rapidamente, sem olhar para trás.

O segurança veio me perguntar: - aquela senhora lhe molestou?

- Não, respondi – acho que ela me confundiu com outra pessoa, ou então queria mesmo me assaltar. Uma conversa muito esquisita, sabe? .

- Ela é doida, não regula bem, mas não acredito que seja perigosa. – retrucou o segurança - . De vez em quando aparece por aqui. A gente fica de olho quando ela se aproxima de alguma pessoa, mas nunca vi fazer mal a ninguém. Deve ter alguma deficiência mental, quem sabe...Ou é apenas mais uma mulher solitária, sem família ou amigos que fica vagando por aí, tentando arranjar amizade.

Eu ri meio amarelo para ele enquanto guardava o talão e pensei.

- Você fica ai com suas teorias, meu chapa, porque, pelo sim pelo não, Sebá, eu estou caindo fora de sua gang – e saí do Banco rindo muito daquela situação inusitada e mais ainda do horrível apelido que eu tinha arranjado para ela. Vá que ela encarne que é a Sebastiana mesmo, pensei.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

INFÂNCIA INFELIZ - Dinah Ribeiro Amorim



INFÂNCIA INFELIZ!
(APROVEITANDO VOCABULÁRIO DADO EM SALA DE AULA)
Dinah Ribeiro de Amorim

 
Igor era uma criança órfã, criado por sua dindinha dona Iná, que era uma mulher muito irada. Sofreu uma doença grave em criança, uma espécie de febre mal curada tornando-se muito amargurada e sofrida pelo resto da vida.

Criou Igor com rigor, sem amor nem doçura.

Quando ficou rapaz, não via a hora de se libertar, sair de casa e viver sozinho. Ficar livre da mulher irritadiça, hipocondríaca, de gênio incontrolável.

Brigava com ele por tudo. Suas roupas, educação, jeito de falar, estudos e, finalmente, trabalho.

Como Igor não encontrava um emprego que compensasse sua saída de casa, ia ficando, ficando e, esperando chegar o dia em que encontraria seu nirvana, libertando-se finalmente.

Incentivado por maus amigos, começou a jogar e reparou que a vida de jogador não era tão doce como pensava. Ainda mais jogador de cartas, em lugares secretos, nas noites que se estendiam até a madrugada. Mais perdia que ganhava!

Ficou muito endividado e, como chegava tarde, perdeu também seu emprego de garçom num restaurante do bairro.

Sua vida virou um inferno e, somente a dindinha, brava, amarga, com o dedo em riste, o controlava.

Foi nessa época que conheceu Yolanda, uma cantora da noite, atraente, que se engraçou por ele.Tiveram um caso e ela engravidou, dando à luz um menino forte e bonito.

Igor, apaixonado pelo filho, resolveu mudar de vida.

Arranjou outro emprego, chefe de cozinha de um novo restaurante; foi largando o vício do jogo, aos poucos e, pagando suas dívidas, quando podia!

Dona Iná gostou de Yolanda, sua companheira, que o trouxe ao bom caminho!

Até sua doença melhorou quando conheceu a criança.

Ninava-a com doçura e amor, quando ia visitá-los. Nem parecia mais a mesma pessoa!

Como o nascimento de uma criança pode, às vezes, mudar a vida das pessoas...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

CONTO CONTADO PARA TRAVAR LÍNGUA DOS LINGUARUDOS - Suzana da Cunha Lima


CONTO CONTADO
PARA TRAVAR LÍNGUA DOS LINGUARUDOS
Suzana da Cunha Lima

 
- Ei velho Vitor, viu a cor do pé de Pedro pedreiro, quando sem sapato ele se senta?

- Daqui eu vejo que o peito do pé de Pedro é preto, mas a sola do solado do sapato dele é mais preta ainda.

- É porque ele só calça calçado de soldado, de solado mal soldado, enquanto carrega o saco com sapo dentro, pras pretas patroas prestimosas.

- E como entram as patroas numa história de sapo, sapato e saco?

- Porque as práticas patroas pretas do preto pedreiro compram sacos com sapos e não sapos sem sacos.

- Pra que querem sapos, se sapos não se quer nem com sacos nem sem sacos?

- Querem sapos em sacos bem suturados, não sacos descosturados, pra satisfazerem a fome dos famintos filhotes das ferozes fuinhas.

- Céus, que saco de história, de saco com sapo que come filhotes de fuinhas ferozes!

- Você ainda não viu as variantes verdadeiras de várias e vorazes feras feridas focinhando fístulas fedorentas de focas...

- Nem quero ouvir...

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Cronica: O Travesseiro de Macela - Dinah Ribeiro Amorim




O TRAVESSEIRO DE MACELA – CRÔNICA.
 Dinah Ribeiro de Amorim

 Acabei de ler o livro de Contos “O Amigo Imaginário” de Suzana Cunha Lima. Gostei de todos, ela escreve e descreve muito bem e, o que mais me tocou foram suas palavras em “O Sonho”, quando diz que as mães, quando envelhecem, continuam com o mesmo colo e o mesmo abraço e sempre com a mesma vontade de protegê-los de toda dor, medo e tristeza desse mundo.

Talvez porque eu sinta o mesmo, esteja também nesse momento: mais velha, mais só, mais preocupada com filhos e netos, com o futuro, com o mundo atual.

Lembrei-me logo de uma crônica que escrevi quando minha filha se foi, para estudar no interior. O filho já havia ido morar com o pai, na adolescência. O apartamento ficou vazio. Embora lecionasse fora, senti sua falta e a movimentação de jovens, em casa, quando ela estava presente. Voltei a escrever e surgiu: “O Travesseiro de Macela”, publicado em Antologia de Santos e usado como dramatização em aula da F.A.A.P. (1992).

“Cinco horas, seis horas e nada...Rolo na cama, levanto, espio no quarto, vazio total. Que será agora, meu Deus?

Mais tarde, você chega e diz calma:
  _Bom Dia!

 Pelo meu jeito, percebe logo que não é um bom dia e tem vontade de voltar.

_Precisa se acostumar mãe, não consigo pensar como filha. Nosso relacionamento mudou de mulher para mulher. Se não durmo aqui, durmo fora com ele.

 Tento entender uma situação nova e sinto não estar preparada.

 Ela simplesmente deixava concreta uma idéia definida, sem controvérsias.
  _ Agora, penso em você como amiga.Alguém para conversar.

 _ Filha, nem um aviso? Um telefonema? Simplesmente não vem? E eu, como fico? Não pensa em mim?

 _ Já fiz vinte e um anos. Não sou mais criança. Sei o que faço.
  De repente, um imprevisto!

 Tentativas de vestibular. Lista de Odonto, em Araras, em Santos,...
 Começa a correria. Prefere Araras, onde o pai é Diretor. Aluga casa, não dá certo. Aluga então apartamento com dois primos.

 Entra em cena uma “amiga” do pai, numa tentativa de ficar mais perto.

Roupas brancas compradas às pressas. São meias bonitinhas, blusinhas de seda branca, até lingerie nova. Enxoval completo!
  Só sei que pouco participo.

 Retiro um avental da gaveta com um certo orgulho. Fora do pai e depois meu, para dar aulas. Não serviria! Não fora pedido pela Escola e, o pior, era feio.
  Ainda tento ajudar.

 Levaria todo o seu quarto, seus cartazes, louças, lembranças de viagens, livros, móveis, enfim, tudo o que acumulara na adolescência.
  Teria sua casa afinal!

 Coloco em caixotes, embalo com jornais, guardo para mim uma foto luminosa, tirada por uma amiga fotógrafa.

 Mudança às pressas, destino novo.

 Ansiosa por começá-lo, dá um abraço rápido e, quando fraquejo, diz logo:

 _Nada de emoção, mãe.Domingo estarei aqui ou você irá me ver.

  Desce rápido o elevador ajudada pelo irmão que pergunta, intrigado, por que fico triste se é o melhor para ela?

  Penso nisso, dou razão. Sinto o começo de um fim.

 Adeus à minha filha pequena, nervosa, que me queria e necessitava. Não consigo sentir saudade dela moça, independente e adulta.

 Olho o quarto nu e, o que vejo? Jogado no chão, um amigo inseparável, remédio para insônia, que sempre carregou consigo: seu travesseiro de macela.

 Corro ao terraço, grito em voz alta: Ângela!

  _O que é agora, mãe?

  _Seu travesseiro de macelinha.

  Sorri e entra no carro.

  Penso comigo “as coisas mudaram de fato”. Etapa nova para ela e para mim também!