BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL

quinta-feira, 28 de abril de 2011

CONFISSÃO - Cida Bainchini




Confissão
Cida Bianchini



Aos Teus pés, Crucificado,
Venho com o coração rasgado
pedir-Te perdão!

Afastei-me de Ti.
Fui tragada pelo mundo,
Naveguei em mares profundos,
Olhos vendados...
Andei por terras distantes,
Balancei nas pinguelas da vida,
Perdi-me nos atalhos,
Causei discórdia!
Hoje quase desfalecida
Encontrei no bolso da alma
Um retalho da Tua misericórdia...

Voltei! Eis-me aqui Senhor...
Vês como tremo de frio,
Sem forças, coração vazio...

Carrega-me no colo,
Envolve-me em teus braços, 
E, depois do abraço,
Veste-me com roupas novas!
Pôe um anel em meu dedo
Dissipa todo meu medo,
Unge-me-me as mãos,
Abre-me o coração...
Inunda-me com Tua luz,
Doce coração de Jesus!


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Jumentação literária




Mais sabido do que o jumento dessa foto é o bicho homem que realiza a história de levar literatura boa para o interior de Pernambuco. Dá gosto a idéia de fazer bibliotecas ambulantes no caçuá do burrico que já salvou muita gente da seca. A cidade de Amaraji, na Zona da Mata Sul, vai receber o jumento carregado com 100 obras - inclusive cordéis - neste domingo. Haverá contação de histórias e dramatização de textos ao ar livre. Um jeito lúdico e sabido de aproximar a gente da leitura, né? Tomara que vingue. Tomara que o jumento carregue a literatura boa para mais lugares, mais crianças, jovens e adultos. A Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico de Artístico de Pernambuco), que apóia o projeto junto a prefeituras, batizou a história de Livros Andantes. Eu chamaria também de Jumento Sabido.

A novata - Daisy Daghlian



A novata
Daisy Daghlian

Abismada, registrou mais algumas fotos e ficou esperando o casal deixar o local. Ela os seguiria. Nádia, embora inteligente e esperta, era apenas uma pobre jornalista brasileira que não conhecia os costumes daquele país, podia ter se enganado, queria ter se enganado, aquela senhora poderia não ser quem ela pensava que fosse.  Com o coração acelerado e  pensamentos desencontrados, aguardou para dar o próximo passo.

Os dois se levantaram ariscos, e nesse instante do bolso do conde caiu um cartão. Ela esperou. Eles saíram de mãos dadas do café. Nadia,  imediatamente recolheu o cartão, seus  equipamentos,  e correu para a rua, sem deixar de notar o comportamento estranho da dama. Alguma coisa nela não parecia feliz. O Conde de Villabond abriu a porta do Rolls Royce  que estava estacionado à porta, para a senhora. Ela entrou, ele não. Acenaram um para o outro e partiram. O Conde seguiu a pé.

Não tinha escolha, Nadia queria saber o que estava acontecendo, então o seguiu. Examinou o cartão, tinha apenas seu nome. Ele era muito alto, tinha as pernas longas, e andava muito depressa,  a jornalista tinha quase que correr para não perdê-lo de vista. Haviam percorrido alguns quarteirões, quando ele entrou num charmoso e florido hotelzinho que ficava escondido no meio daquele bairro afastado. 

Agora era esperar. Demorou mais duas horas e meia para que algo acontecesse.

Viu sair o Conde e depois a dama,  em seguida aquele automóvel estacionou à porta e a mulher com o rosto coberto pelo mesmo véu verde água, chapéu de abas molengas que caiam ao rosto,  com a mesma capa, entrou nele e partiu.   O homem com  ar contrafeito pôs seu chapéu e ficou ali por alguns segundos. Rapidamente, Nádia parou um táxi e  seguiu o automóvel da dama. Rodaram uns quarenta e cinco minutos e, o veículo entrou por uma porta camuflada que ficava nos fundos do Palácio de Buckingham. 

Nadia não queria acreditar naquilo. Totalmente atordoada, retornou ao hotel onde estava hospedada. Jogou seus apetrechos no sofá e pulou na cama. Tinha muito em que pensar. Sua primeira impressão de quem era aquela mulher estava certa. Era ela! Pegou a câmera, analisou suas fotos, e ligou o gravador. O que Nadia não sabia era que tinha gravado a conversa do casal lá no café. Pelo que ouvira o homem estava chantageando a mulher. Ele teria descoberto que ela tinha um amante e se aproveitava disto.

Nádia, pensou em voz alta:

Se fizesse uma matéria, com as fotos, seria um furo jornalístico, por outro lado se a identidade dela fosse revelada seria um escândalo de proporções inimagináveis.

No dia seguinte,  mais descansada  pegou seu equipamento e voltou aquele café. Sentou nn mesma mesa. Em sua cabeça vários planos foram traçados, mas descartados em seguida. Tinha que investigar melhor. Resolveu se hospedar naquele hotelzinho. Encerrou sua conta e foi até o hotel onde estiveram o Conde e a dama.  O recepcionista, um inglês muito antipático, mal olhou para Nadia. Suas perguntas a respeito das acomodações, mal foram respondidas, parecia que o tal não queria que ninguém se hospedasse lá.  Algumas camareiras, circulavam pelo saguão, limpando, colocando flores nos vasos, ajeitando as cortinas, como se um hóspede importante estivesse para chegar. 

Nadia ficou andando à toa pela rua não sabendo o que fazer, nem por onde começar.  Comeu na lanchonete mais próxima, e esperou. Algum tempo depois, viu  uma das camareiras  sair para fumar. Correu até ela.  Nádia fez algumas perguntas, mas a moça  mal falava inglês. Quis saber de onde era, e para sua sorte a moça era paraguaia, finalmente, conseguiram se entender. Com muito tato perguntou sobre os hóspedes misteriosos do dia anterior. A moça não podia falar naquele assunto.  Nadia então convidou-a para jantar, que  aceitou de pronto. Encontraram-se à noite num restaurante chic no canto oeste da cidade.  Durante a refeição, Carmencita se mostrou mais falante,  contou sua vida, deu detalhes de seu trabalho no hotel.  Nádia então conseguiu convence-la a colocar uma câmera  no apartamento que  os dois supostos amantes se encontrariam.

Alguns dias depois, Carmencita telefonou para Nadia.  Tinha gravado o encontro. As duas  se encontraram no apartamento da jornalista.  Viram juntas o filme, e uma surpresa a aguardava: A lady era a mesma, mas o amante era um rico sheik da Arábia Saudita. O casal tivera um encontro quente e conturbado, os gemidos e ais de prazer ecoavam, o carinho entre ambos era imenso. Era nítido que se amavam. A mulher contou ao amante que estava sendo chantageada e assediada pelo conde.  O homem pediu que se acalmasse, ele resolveria o caso. As duas estavam atônitas. O caso tinha ultrapassado e muito todos os limites.

Na tv o noticiário da BBC  mostrava um grave acidente entre um caminhão e um Jaguar, o motorista do carro tinha teria morrido. Seu nome:
Mark Jones, o Conde de Villabond.

Nádia, automáticamente, arrumou suas malas, guardou suas novidades tecnológicas a sacola, chamou um táxi, deixou Carmencita no metrô mais próximo e, rumou para o aeroporto, embarcando no primeiro vôo para o Brasil. 

sábado, 16 de abril de 2011

Correu pelo caminho nervoso ouvindo passos misteriosos que ardiam atrás dela - Dnah Ribeiro Amorim


 

“CORREU PELO CAMINHO NERVOSO, OUVINDO PASSOS MISTERIOSOS QUE ARDIAM ATRÁS DELA...”
Dinah Ribeiro de Amorim

 
Rosa ia ao seu primeiro baile! O famoso baile Branco do clube que freqüentava, quando todas as adolescentes seriam apresentadas.

Enquanto experimentava seu vestido novo, sonhava esperançosa! Espeta aqui, espeta ali, encurta a saia, afina a cintura esbelta, sentia-se incomodada com tanta alfinetação mas, feliz, na ansiedade da espera! Conheceria alguém?

A valsa, dançaria com seu pai, Sr. Osvaldo que, todo orgulhoso, mandara também fazer uma fatiota nova. Seu orgulho, sua filha, merecia isso. Iria apresentá-la a todos os amigos.

Quando chegou o dia, um sábado risonho e enluarado, saíram no carro reluzente que o pai mandara polir: Rosa, sua mãe Ana, toda apertada num vestido preto, Sr. Osvaldo e, Júlio, o irmão mais moço, que já sabia dar umas dançadas rápidas!

Estavam muito animados e foram os primeiros a chegar! Escolheram a melhor mesa, nem muito perto nem muito longe da orquestra.

Logo chegaram todos! Num instante, o salão se abarrotou. Uns riam alto, outros conversavam, cumprimentavam-se amigavelmente.

Rosa notou um rapaz, na mesa ao lado, que a fitava insistentemente...

Sentiu-se bela, atraente, uma jovem mulher...

Começou a música; a hora da valsa! Foi lindo! Parecia estar nas nuvens, toda de branco, bailando com seu pai.

Todos a olhavam com curiosidade e, o moço bonito, ao lado, flertava com ela, demoradamente.

Acabada a valsa e iniciando nova música, o rapaz veio tirá-la para dançar.

Tímida, em seu primeiro baile, de olhar cabisbaixo, segurou em sua mão e foi.

Dançaram a noite toda. Rosa, na sua inocência, apaixonou-se por ele.

Uma nova emoção! Um novo sentimento!

Amedrontada, percebeu que já era tarde e os seus pais se levantavam para ir. Despediu-se dele, rapidamente e “correu pelo caminho nervoso, ouvindo passos misteriosos que ardiam atrás dela”...

Era Eugênio, o seu par elegante, que trazia-lhe a bolsa esquecida na mesa, apressada ao sair.

Agradeceu-lhe atrapalhadamente e entrou no carro.

Quando chegou em casa, de olhos quebrados de sono pois já estava amanhecendo, abriu a bolsa e, surpresa, achou um bilhete que Eugênio havia deixado: seu nome, endereço, telefone e a frase: “Quer namorar comigo?”

Sorrindo, adormeceu!

O furo de reportagem logrado - Dinah Ribeiro Amorim

O “FURO” DE REPORTAGEM LOGRADO.

( COMO UMA POBRE E DESCONHECIDA JORNALISTA BRASILEIRA VIU-SE DE REPENTE À FRENTE DE UMA NOTÍCIA BOMBÁSTICA...)
Dinah Ribeiro de Amorim

 

Nádia, no pequeno café, em Londres, estranha o comportamento de um jovem casal esquisito e reconhece no homem a figura importante do Conde de Villebond, íntimo da família real, que fotografara várias vezes no dia anterior, após a troca da guarda, entrando no palácio.

Quem seria a dama discreta, escondida através de um chapéu verde com abas caídas e um véu que lhe cobria totalmente o rosto?

Parece ser alguém importante na nobreza local pois, seu porte é o de uma rainha, embora discretamente vestida.

Nádia observa-os e prepara sua câmera para fotografá-los, sem que percebam.

Seu espírito de aventura e faro de repórter, impõe-se e logo prevê ali um “furo” jornalístico.

De repente, o Conde levanta levemente o véu de sua acompanhante, beijando-lhe os lábios e, sem querer, afasta o chapéu e descobre-lhe o rosto.

Flash! Nádia, estarrecida, percebe o rosto da mulher. Nada mais nada menos que... tem receio de pronunciar seu nome e trazê-la ao seu pensamento...

Seria mesmo ela que vira? Não fora impressão ou ilusão de ótica? O flash da máquina talvez revelasse...

O casal, sentindo-se fotografado pois, ouvira um leve estalido, pede a conta e sai apressadamente.

Nádia dá um tempo, reúne seu material e também sai, querendo chegar logo em casa, um sobrado que alugara, para estudos e averiguações.

Mal inicia sua caminhada, sente-se seguida por passos apressados.

Olha para trás e percebe dois homens, de terno e gravata, com jeito de seguranças, caminhando rápido atrás dela.

Começa a correr, muda o trajeto, entra em várias lojas, tentando despistá-los.

Que coisa! Era mesmo a mulher que pensara! Não bastou destruir casamentos anteriores? Que teria de tão diferente e excitante? Que atração exercia sobre os homens, fazendo-os cometer loucuras por ela, colocando a própria vida em risco? Nem bonita era...e já meio velha!

Quando achou que estava livre, saiu da loja de roupas aonde estava escondida e retomou o caminho de casa, com medo de ser abordada ou presa.

Foi cercada por guardas que lhe pediram seus documentos e que lhes entregasse a máquina.

Jornalista, em país estranho, resolveu obedecer mas pediu que a levassem até a Embaixada Brasileira.

Deixaram-na usar o celular e aconselharam-na que saísse do País, se não quisesse se meter em maiores encrencas!

Amedrontada, acompanhada por um secretário da embaixada, adido brasileiro no exterior, foi até sua casa, pegou seus pertences e rumou direto ao aeroporto.

Voltaria imediatamente ao Brasil, com esse segredo guardado pois, estava sem provas! Como poderia relatar algo? Com certeza seria acusada de falso testemunho!

Só mesmo inventando um conto, dando a entender o que descobriu como verdade...

Dependeria da esperteza ou perspicácia de quem o lesse...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Falta de amor mata - Ivonéte Miranda



FALTA DE AMOR MATA
Ivonéte Miranda



A pequena cidade estava invadida por rumores. Todos comentavam sobre o misterioso desaparecimento de muitas cabeças de gado e ninguém podia fazer nada senão rezar, pois a segurança estava restrita a um soldado.

Luciana saía da missa quando tropeçou em Mário e o jovem casal se deixou abandonar naquele banco. Ficaram ali de costas para a igreja e o novelo da conversa começou a se desenrolar junto com os olhares fogosos de ambos.

Parecia que havia se passado só um pinguinho de tempo quando soaram as badaladas denunciando ter chegado a meia-noite.

Na verdade o que nenhum dos dois percebeu foi que os ponteiros do relógio insistiram em correr.

Luciana então lembrou que a mãe havia dito para ela sair da missa e voltar para casa sem rodeios, pois o “bicho” que atacava a criação podia também atacá-la.

O casal trocou um rápido beijo na face e cada um foi para seu lado esbaforido.

Luciana passava pela lateral do cemitério, sentindo o coração massacrado pelo medo do desconhecido. “Corria pelo caminho nervoso enquanto passos misteriosos ardiam atrás dela”.

A moça pensou que ia desfalecer quando sentiu seu braço ser agarrado. As pernas de gelatina levaram Luciana ao chão.

Pouco depois a jovem sentiu a magia de uma mão tocando suavemente seu rosto e pensou que havia morrido.

Luciana abriu os olhos temerosos e viu que era o Mário que a acalentava.

Ela levantou em um pulo e antes que recuperasse a voz Mário levantou uma pulserinha e perguntou :

- É sua ? Logo que você saiu encontrei a pulseira dormindo ao lado do banco.

Antes que Luciana respondesse sentiu a pressão dos lábios de Mário contra os seus.

Daquele dia em diante não desapareceu mais nenhum animal, e conta a lenda que os desaparecimentos ocorriam em razão da falta de amor na cidade.

O feitiço - Daisy Daghlian




O feitiço
Daisy Daghlian

 

“Estou com mau pressentimento”... disse Duda em tom assustador. Soninha e Giulia correram para verificar o que estava acontecendo, com cuidado desembolararam um a um os enormes cobertores e, nada de Fernanda, em seu lugar um ursinho de pelúcia, desses com uma blusinha onde está escrito I love you, todo espetado com alfinetes com rosinhas vermelhas. Um bilhete todo amassado só dizia : amigas eu..., mais nada. As três, boquiabertas, não sabiam o que pensar, nem o que fazer. Assustadas voltaram para a cozinha, o leite esquecido já esfriara, a água do café secara, Giulia, automaticamente, desligou o fogão.

Vamos raciocinar, disse Soninha. Vocês viram a Fê chegando ontem à noite, estava com cara de poucos amigos e, falou que ia se deitar. Não a vimos depois disso. Nós, jantamos, vimos um filminho na TV, também fomos dormir. Eu, com a minha insônia, ouvi a porta ranger várias vezes, mas com a chuva caindo e, o barulho dos trovões, não me dei conta de que tinha algo errado acontecendo, murmurou Duda.

O telefone tocou, as três correram, Soninha atendeu e, foi ficando mais pálida, ligou o viva voz, a nona sinfonia de Beethoven, ecoou pelo apartamento. Nada foi dito. As três decidiram pedir ajuda a Renato, irmão de Fernanda, que morava ali perto. O telefone dele só dava sinal de ocupado. Giulia pegou o guarda chuva e abriu a porta, que rangeu novamente, correu até a casa do rapaz, que tomando conhecimento dos fatos resolveu chamar um amigo investigador. Quando retornaram, as moças estavam com um buquê de rosas amarelas,. nas mãos, leram o cartão, que dizia: Minha amada imortal agora me pertence. O investigador chegou e, foi examinando o local. Achou alguns indícios, sem nenhuma relevância. Achou melhor fazer um B.O. do desaparecimento da moça.

Os meses foram passando, apesar de preocupadas, retomaram a rotina. Ninguém dava notícias.

Quando a carta chegou as encontrou tomando café. Era de Fernanda. Enfim, notícias. Contou que estava casada, morando em Recife. Conhecera Murilo, numa exposição do Masp, onde ele expunha alguns quadros. Ela, encantada com as obras, quis conhecer o artista. Quando se olharam, uma atração avassaladora tomara conta dos dois. Ele era diferente, meio bruxo, a enfeitiçara com seu carisma e talento, pediu que fosse embora com ele, voltara para casa e não conseguia tira-lo da cabeça. Temerosa e ao mesmo tempo valente deixou o ursinho, representando seus pensamentos desencontrados, tentou deixar um bilhete, Mas fugiu no meio da noite, sem pensar nas conseqüências. Estava tão desvairada, quando telefonou no dia seguinte, que só conseguiu colocar a música para elas ouvirem. Estava feliz e realizada. Pedia desculpas pela atitude impensada de deixar a todos sem notícias, não podia dividir sua felicidade. Terminou com um convite para visita-los.

Encantadas, Soninha, Giulia e Duda exclamaram:
- Só a Fê para viver este louco amor.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O encontro da Felicidade - Daisy Daghlian



O encontro da felicidade
Daisy Daghlian


Sofia percorria com seus tênis ágeis o caminho restante para chegar à escola.

Estava atrasada. Esbaforida, ocupou sua carteira sob o olhar marmóreo da professora. A prova foi distribuída. Aluna competente terminou antes da hora prevista.

Seu pensamento, voou para aquelas férias surpreendentes que havia passado na casa dos avós. Moravam numa cidadezinha bucólica, a casa antiga parecia parada no tempo. Na cozinha risonha, a avó preparava o almoço no fogão a lenha. O avô cuidava da horta. Pareciam felizes rodeados com todos aqueles apetrechos antiquados.

Após o almoço, delicioso, recostou-se na rede convidativa do terraço.

Passados cinco minutos a garota elétrica deu um salto , foi explorar a vizinhança como sempre.

Andou um bom pedaço até encontrar a sorveteria, onde sempre encontrava seus amigos de infância. Os jovens espalhavam-se pela calçada tornando a tarde florida e barulhenta.

Recebida com muita festa, abraçou e beijou a todos e aproveitaram para contar as novidades.

Sua atenção foi desviada, para o rapaz bonito e desconhecido, que lhe sorria, com olhos travessos, convidando-a para uma aproximação. Não se fez de rogada, andou em sua direção, esbarrando nele pediu desculpas, se apresentaram. Wagner era novo na cidade, havia herdado de parentes, a casa desengonçada que ficava em frente ao jardim. Estudava na Capital, passava um ou outro fim de semana ali. Por sorte haviam se encontrado. Pareciam velhos conhecidos, tanto tinham em comum. A tarde desmaiava. Combinou com ele e a turma, se encontrarem no clube à noite. Clarissa caminhou com ela um bom trecho. Foi contando que desde que Wagner aparecera na cidade, coisas estranhas vinham acontecendo, vários animais tinham sido encontrados mortos, sem causa aparente, o filho do padeiro havia desaparecido, o padre resmungava mais que de costume, plantas destroçadas pelas calçadas.

Algumas casas foram arrombadas. O delegado andava investigando.

A noite foi especial, dançou com alguns amigos, ficou mais com Wagner. A música adocicada e a luz terna fez com que o clima desenrolasse ardente, e no final ela levou-a para casa.

Passaram-se os dias e, eles cada vez mais conectados.

Certa noite, passeando pelo pomar na casa dos avós, sentiu arrepios de medo, ao ouvir os lamentos e uivos dos animais, o massacre tinha recomeçado. Apavorada, correu pelo caminho nervoso enquanto passos misteriosos ardiam atrás dela. Sem fôlego, trancou-se. Bateram na porta. Ninguém se mexeu. Bateram novamente, do lado de fora a voz do delegado chamou. Só então que abriram a porta.

Um grupo de homens armados seguravam dois bandidos pegos em flagrante praticando a barbárie. Agora, podiam ficar tranqüilos. No dia seguinte, não se falava de outra coisa na cidade. Os meliantes tinham confessado, que haviam sido contratados por um empresário, para assustar a população, queria comprar terras por preços irrisórios. Jorge, o filho do padeiro, voltou, tinha fugido de casa.

A paz reinou. A desconfiança contra Wagner, não tinha mais razão de ser.

Continuaram a se encontrar, cada vez se sentiam mais ligados. Voltando das férias, todos notaram seus olhos floridos. Confessou, estava apaixonada.

Carta de um amor desesperado - Suzana Lima


Carta de um amor desesperado
Suzana Lima


- Gui, estou te escrevendo aqui do Hospital. Fui acidentada, meu querido, e fiquei uma semana fora de mim, de coma, foi o que me disseram.

Alicinha teclava com muito esforço, usando a mão esquerda. Seu braço direito estava engessado, do ombro à mão. E servia apenas para manter o lap-top, precariamente equilibrado na mesinha de refeições, em cima de suas pernas.

- Imagino que você foi ao nosso encontro, no Jardim da Luz, em frente à Pinacoteca, conforme combinado. Só hoje, Gui, voltei a mim e quis logo lhe dizer o que tinha ocorrido.

Parou um pouco, cansada, e só aí percebeu as gotas de lágrimas deslizando tristes pelo seu rosto machucado.

- Espero que você ainda esteja em São Paulo.

A mão pousou no teclado, cansada. Alicinha estava quase soluçando. A mãe, que a acompanhava, sentiu seu coração sangrar ao ver a filha naquele estado.

Levantou-se rápido, pegou um lenço de papel e apressou-se a consolá-la, enxugando seu rosto.

- Eu lhe ajudo, filhota. Dite para mim, é muito esforço para sua mão, ela está ferida também.

Alicinha respirou fundo, fazendo um esforço para deixar de chorar.

- É para o Gui, mãe, e sei que você não gosta dele. – suspirou angustiada.

- Tínhamos marcado um encontro, mas como não apareci, ele deve ter ido embora para sempre, foi o que ele disse que ia fazer se eu não fosse.

Olhou para a mãe como um cachorrinho perdido e assustado.

– Mãe, preciso que você telefone para ele e explique tudo. O número está no celular, ou então na minha caderneta, não sei bem. Mas telefone para ele. Faça isso por mim, mãe.

Ela falava como se cada palavra fosse um fardo que colocava nas costas, cada vez mais penoso de carregar.

- Estou tentando pelo e.mail, porque não sei se ele ainda está na cidade, mas sei que ele abre os e.mails todo dia.

Com a mão livre segurou o braço da mãe.

- Mãe, não posso perdê-lo! Não posso! Sem ele não quero mais viver. Nada vai ter sentido... – respirava com dificuldade.

- Só de pensar nisso, dói mais que todos esses ferimentos, dói muito mãe, me ajude...

E como uma comporta que se abre sem aviso, seu choro inundou o lap-top enquanto seu frágil corpinho se sacudiu em convulsões. Era de dar pena e sua mãe, apavorada, correu alucinada para o corredor gritando por socorro.

A enfermagem apareceu, aplicou um calmante. Alicinha foi se aquietando.

Quando a viu dormindo, a mãe olhou o e.mail começado e resolveu terminá- lo. Estava se sentindo como uma panela de pressão prestes a explodir de tanta raiva e revolta. Meu Deus, minha única filha, meu bebê, foi se apaixonar por este filho do Demo...

- Gui, esteja você em São Paulo ou não, trate de aparecer o mais depressa possível aqui no Hospital Madre de Deus. Não importa se gosto ou não de você, se você engana ou não a minha filha, se é um malandro mulherengo, sem vergonha e mentiroso. Alicinha o ama, e isso me basta. E ela está em perigo de vida, devido a um acidente horrível na Dutra. E quer vê-lo. O caminhão não a matou, porém se você não vier, ela pode morrer. Assim, se não aparecer, pode considerar que sua vida também já era. Vou lhe procurar em toda parte e acabo contigo, onde quer que você esteja. Não é uma ameaça vã. Você sabe que tenho poder e tenho dinheiro. Portanto venha logo, ela não tem muito tempo. Mas quero que ela viva para ter este momento e este encontro. O resto a Deus pertence.

Assim, ele apareceu no hospital, no dia seguinte. Não tinha saído da cidade e nem sequer tinha ido ao encontro. Mas entendeu perfeitamente a mensagem materna.

Suportou o olhar gelado da mãe ao entrar no quarto. Mas ao se chegar àquela cama, onde Alicinha parecia sumir no meio de tantos tubos e aparelhos, uma onda de compaixão, culpa e remorso o invadiu. Segurando as lágrimas, tocou a mão dela, com delicadeza, murmurando seu nome com carinho, do jeito amoroso como a chamava:

- Nina, nina... estou aqui, minha florzinha, seu Gui está aqui.

Ao som de sua voz, Alicinha abriu seus olhos devagar, como uma janela se abrindo para a luz de um jardim. Pareciam duas gotas de orvalho cintilando ao sol. A dor e o medo se evaporaram como a névoa matutina. Só restava um rosto feliz, com o frescor de uma manhã de primavera.

- Gui, que bom que você está aqui... Eu não pude ir...

Mas ele gentilmente tocou seus lábios com os dedos, murmurando:

- Eu sei, minha querida. Não fale para não se cansar. Fiquei lá lhe esperando, mas meu coração avisou que algo tinha acontecido. O amor é assim, não é?

Ainda mais um tão grande como o nosso. Você vai logo ficar boa. Não saio de perto de você, viu? Não vou te perder nunca mais...

Ele nunca mais esqueceu o sorriso iluminado de Alicinha, que, por um instante, devolveu a beleza e frescor ao seu lindo rosto, como a tinha conhecido, jovem e alegre rodando com sua bike no Parque da Aclimação. E foi assim que, envolta numa nuvem de felicidade, que Alicinha, ainda sorrindo, foi fechando mansamente seus olhos, em paz e para sempre.

E nessa hora ele soube que ia purgar a vida toda a dor daquela perda.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Mascarados - Dinah Choichit



Mascarados
Dinah Choichit


Marina não sabia se iria ao baile de Carnaval. Acabara há menos de uma semana seu namoro de dois anos, e ela estava muito triste, e completamente desanimada.  As colegas já tinham telefonado inúmeras vezes animando-a, dizendo que ela poderia faltar. 

Maria Alice, sua melhor amiga fez mais, arrumou-lhe uma fantasia de dama antiga, peruca de cachos, chapeu de plumas e máscara. Com essa fantasia ela jamais seria reconhecida. Marina animou-se para a brincadeira. À noite arrumou-se com esmero e foi ao baile. 

Embalada pela multidão ela entrou no cordão carnavalesco,  dançou muito, flertou com o Zorro, e quando o baile estava chegando ao final,  trocaram selinho. O jovem parecia educado, e Marina então deixou-se levar para algumas voltas pelo salão. Pelo caminho trocavam graciosos selinhos. 

Quando o salão já estava quase vazio, ele disse que queria conhecê-la e pediu seu telefone. Ela também estava curiosa sobre a identidade dele, então combinaram que anotariam em papeis separados seus nomes e telefones, e os trocariam simultaneamente. 

Assim fizeram, e ao abrirem os papeis diante do outro, qual não foi a surpresa de ambos ao souberem que foram namorados até  a semana passada.

Abraçaram-se, e prometeram que jamais se separariam de novo. 

Baile de Máscaras Debutantes - Ivonéte Miranda





Baile de Máscaras Debutantes
Ivonéte Miranda



Ficou muito claro para toda a rapaziada que Mônica não deixaria entrar, em sua festa de quinze anos, quem  não estivesse mascarado.

Ao contrário do desejo dos pais, a voluntariosa debutante decidiu comemorar em um baile de máscaras.

A rapaziada ficou agitada e tentando descolar verdadeiros disfarces para tornar a brincadeira ainda mais engraçada.

O sábado custou a chegar, mas chegou.

O salão ficou lindo com muitas serpentinas e grandes másccras " gatinho" recobrindo o teto.

Passou pela portaria do prédio até um dinossauro, além do velho Zorro, e Mulher Aranha.

Os mascarados simulavam vozes diferentes das suas, no intuito de não serem reconhecidos.

Mônica recebia os convidados sem saber quem a cumprimentava, pensando que poderia estar sendo abraçada por Paulinho ou ele sequer teria vindo.

Com o som muito alto todos se agitavam, dando gritinhos eufóricos.

A festa já estava amornando e Mônica sentia calafrios cada vez que se questionava: " Atrás de qual disfarce estaria Paulinho?" 

Restavam poucas pessoas na pista quando a aniversariante reparou que estava sendo acompanhada pelos olhos mascarados de alguém. Seu coração disparou.

 O moço se aproximou, não disse nada e estendeu a mão para dançar a única música lenta que encerraria o baile.

Mônica teve então a certeza de que a mão que a tocou a sua era a de Paulinho.

Dançaram como se estivessem nas nuvens, a troca de olhares por entre as máscaras revelava a emoção do par no meio à difusa iluminação, quando os lábios se aproximaram e o beijo intenso fez os ponteiros do relógio pararem.
A música terminou, as luzes foram acesas e o casal permaneceu enfeitiçado um nos braços do outro, fazendo juras de amor.

Mônica pediu então que o moço retirasse a máscara. Relutante o rapaz queria ir embora. Mônica insistiu e ele tirou a mascara deixando-a ver que era seu primo Bento.

A aniversariante se enlaçou nos braços do primo e disse:

" Nunca pensei que você viesse a ser meu grande amor" .

As mulheres que cantam sempre à meia-noite! - Dinah Ribeiro de Amorim




Lenda Urbana:

As mulheres que cantam sempre à meia-noite!
Dinah Ribeiro de Amorim


  Era Dia de Natal! Na pequena cidade do interior de São Paulo, “Capim Santo”, o povo se preparava para a Missa do Galo, na Igreja da Matriz, que seria à meia-noite, em ponto, com o sino badalando as horas, chamando todos à oração!

  Para isso, preparavam-se meses antes! Limpavam toda a Igreja, enfeitavam-na com enormes arranjos florais, retocavam as imagens, davam um colorido novo!

  O coral de mulheres, com vozes suaves e cristalinas, ensaiava várias horas por dia, músicas natalinas, dirigidas pelo maestro Inocêncio, o diretor musical da cidade.

  Era sempre um acontecimento especial, a festa natalina, mais na Igreja do que nas casas, mais social que pessoal.

  Quase que uma obrigação, conclamando os cidadãos a orar, a festejar, a cantar, homenageando o nascimento de Jesus!

  Todos faziam roupas novas, trajavam-se bem, as mulheres ficavam mais bonitas e elegantes e, os homens, compravam ternos escuros e chapéus, tendo o cuidado de tirá-los durante a missa.

  Já era quase meia-noite! O sineiro preparava-se para badalar o sino, com imponência, respeitoso na sua obrigação!
  Mas, e as mulheres do Coral? Não chegavam! Estavam muito atrasadas... Não se poderia começar a função sem elas... A música era de muita importância, nesse evento!

  Esperam,esperam, a igreja cheia, o padre na sacristia, andando de um lado a outro... O sineiro, preocupado: _Bato ou não bato?Já deu meia-noite! É melhor bater...Precisamos respeitar a hora!

  Com o barulho do sino, o padre resolve entrar no altar e iniciar a reza.Mesmo porque, o povo já estava muito impaciente: mexiam-se, reclamavam, as crianças não paravam quietas! Já corriam pela nave..

  E as mulheres do Coral? Nada! Viriam todas juntas, com o maestro, em um ônibus, atravessando a linha do trem...

  Quando a missa já estava quase terminando, muito triste, sem o canto bonito das vozes femininas, ouviu-se, ao longe, o canto maravilhoso, natalino,ensaiado pelas mulheres...

  Aos poucos, todas elas foram se chegando, ocupando seus lugares, soltando a voz, cantando suas canções! Sr. Inocêncio acompanhava-as, chegando um pouco depois!

  O povo e o padre ficaram aliviados e encantados! A Missa do Galo, nesse ano, estava salva! Nunca haviam cantado tão bem!

  Ao terminar, todos trocaram cumprimentos, desejaram Feliz Natal, agradeceram ao padre que, na porta, despedia-se, cumprimentando um por um, família por família.

  Mas, e as mulheres do Coral, aonde estavam? Queriam cumprimentá-las também e não as achavam! E o Sr. Inocêncio? Saíram assim, tão cedo? O padre também não sabia...

  Horas depois, chegou uma notícia triste e espantosa: o ônibus que trazia o coral foi atropelado por um trem desgovernado e, ninguém se salvou!

  E o Coral? Como chegou? Não se soube explicar... Uns falavam em “milagre”! Outros, em “espíritos” Muitos se benziam:”é coisa de Deus”!

  Até hoje, essa estória é comentada. Virou uma lenda de Natal: As Mulheres que cantam à meia-noite!

  Já não existe mais Missa do Galo nesse horário. O sineiro, morreu! As pessoas, daquela época, foram-se, não sem antes contar esse fato a seus filhos e netos que nasceram...

  Há quem diga na cidade que, ao passar, à meia-noite, no Dia de Natal, em frente à Igreja Matriz, ouve-se um Coral feminino com as mais lindas músicas de Natal...

                                               

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A surpresa de cada dia - Daisy Daghlian


A surpresa de cada dia
Daisy Daghlian

Sábado, fui com minha família à festa de aniversário de meus amigos Caio e Carlos são gêmeos, cabeludos e cheios de tatuagens, têm uma banda de rock, vivem de música, divertidos e hospitaleiros, num sítio próximo a São Paulo.

O dia que prometia estava maravilhoso, sol forte, uma brisa leve, céu azul. A estrada bem movimentada, as crianças impacientes para chegar logo foram cantando.

Ao chegar, me deparei com um local bucólico e bem cuidado, repleto de araucárias, deixando o ar perfumado e agradável. Flores muito coloridas se espalhavam pelos canteiros. No meio do jardim uma piscina convidativa e vários quiosques. As crianças mal cumprimentaram as pessoas, pularam na água. Fui dar um abraço em Ritinha, mulher de Caio, que estava perto da churrasqueira. Muito bonita e charmosa, morena cor de jambo, engenheira competentíssima no trabalho, generosa, pessoa adorável, sorriu quando me viu, o semblante tão iluminado mas, no fundo de seus olhos havia aquela expressão de dor, que não a deixava nunca. Ela, como sempre, não parava um minuto, arrumando pratos e copos, vendo se as saladas estavam prontas, dando ordens aos empregados, eu quase não podia acompanhar seu ritmo. Na hora do almoço, os convidados que estavam espalhados pelo sítio foram chegando, a comida deliciosa foi um sucesso total.

Várias redes foram armadas, me recostei em uma delas junto com Fernanda minha prima. No galpão principal a banda começou a tocar os primeiros acordes. Não dava para dar nem uma cochiladinha. Fomos dar uma volta, Fê, que não era íntima dos anfitriões, muito curiosa quis saber qual era a história deles.

Contei que Ritinha, casou-se muito jovem aos 17 anos, Alberto tinha 19. Logo tiveram um filho. Se amavam muito, batalhavam para construir uma vida boa. Num fim de semana conseguiram ir à praia, aproveitaram aqueles dias de folga. Retornando a São Paulo, um caminhão desgovernado chocou-se contra o automóvel , só ela sobreviveu.

Muito abalada, sofreu e chorou muito a perda de seus entes mais queridos. Com o coração partido, criou forças, adquirindo mais compaixão e compreensão. Reagiu de uma maneira surpreendente, retomando sua vida. Os amigos sempre ao seu lado.

Passados alguns anos, conheceu Caio. Não era a mesma paixão que sentira antes, mas havia ternura e amizade. Após alguns meses de namoro, casaram. A vida deles transcorria bem. Dois anos depois nasceu Lucas. Ficaram encantados. Ela não cabia em si de tanta alegria e amor, a dor que seus olhos tanto expressavam quase não aparecia mais. Com a chegada do filho só trabalhava no período da tarde. Certa manhã sentiu uma tontura e seus olhos escureceram, não enxergava nada. Foi socorrida pela mãe que a estava ajudando, esta chamou Caio que imediatamente a levou ao Hospital.

Após vários exames bem complexos, idas e vindas à vários médicos, foi constatado câncer no olho direito, tinha que ser extirpado. Após este diagnóstico atroz, foi operada.

Devido a gravidade do caso, tudo relativo ao olho foi retirado, ficando só um buraco vazio, sem chance de colocar uma prótese ocular.

Ao voltar da cirurgia, Ritinha se olhou no espelho, não gostou do que viu, tirou a camisola, vestiu suas roupas normais, ligou para uma amiga pedindo que lhe comprasse alguns tapa-olhos coloridos, não iria ficar com aquele tampão de gaze, aquilo a deixava deprimida. Não se deixou abater pela dor.

Com a força incrível que sempre teve, recuperou-se e retomou a vida mais uma vez.

Satisfeita a curiosidade, Fê e eu ainda abaladas e tristes com a história continuamos a andar pelo pomar para acalmar um pouco.

Horas depois, voltamos ao galpão, todos cantavam e dançavam, Ritinha entre eles.

A vida nos surpreende sempre.
 

Com muito amor - Daisy Daghlian


Com muito amor
Daisy Daghlian



A viagem a Porto Seguro programada para festejar a formatura do colégio foi um presente para Maria Luiza. A madrinha, generosamente, pagara tudo. Foi para o aeroporto, muito feliz e cheia de expectativas. Encontrou a galera toda fazendo check-in para o embarque. Fez o mesmo e, lá foram eles . Para alguns não era novidade, para ela só era. Primeira viagem de avião, nunca havia viajado para muito longe, sempre com a família. Os professores acompanhantes, Dona Ângela de história e, Seu Antero de português eram os mais queridos da turma.

O vôo transcorreu tranqüilo, a turma cantou, tocou violão, contou piadas foi ótimo.

Ao chegarem logo instalaram-se no hotel. O local era encantador, frente ao mar, muitos coqueiros, montanhas ao longe, o colorido dos guarda-sol completavam a paisagem. Foram à praia. O ambiente continuava alegre e festivo.

A noite resolveram dar uma volta pela cidade, andaram pela parte histórica com suas casinhas coloridas, jantaram, passearam mais um pouco e, cansados do longo dia voltaram, foram dormir.

Catia, sua colega de quarto ainda tagarelou um bocado, principalmente, sobre os rapazes, finalmente adormeceram.

No dia seguinte, descansados, foram a Trancoso, lugar maravilhoso, foi notando que os pares iam se formando, beijinhos pra cá, abraços pra lá. Fábio tentou fazer o mesmo com ela, que não aceitou, ficar não era do seu feitio. Só amizade, disse. Foi dormir cedo, ao acordar notou que a colega não tinha chegado ainda, preocupou-se.

No café da manhã, a algazarra e brincadeiras dos colegas, serviram para distraí-la e, correndo a amiga chegou contando que ficara a noite na praia com Fábio e outros casais.

Não comentou nada, mas ficou meio deprimida com o amor sem importância dos jovens. Não era o que queria para si. Foram à praia. Assim, os dias foram passando, cada um aproveitando o passeio a seu modo.

No último dia, durante o passeio pela cidade, Marco tropeçou em um tronco de árvore, justo ele que tinha paralisia em uma das pernas.

Todos correram para socorrê-lo, os professores o levaram ao hospital, todos acompanharam, tinha quebrado a perna que já tinha problemas, saiu andando de muletas, para ele o passeio tinha terminado. Os colegas já haviam ido embora. Malu era a única que esperava por ele. Com os professores ajudou a leva-lo ao hotel.

Enquanto arrumava a mala, pensou no rapaz, nunca tinha prestado muita atenção nele, sentiu uma grande ternura invadindo seu coração, prometeu a si mesma que iria ajuda-lo. Foi o que fez, ajeitou a bagagem dele, ficou ao seu lado a viagem inteira.

A despedida foi meio tristonha.

De volta a rotina, recomeçou a estudar pois ia prestar vestibular, lembrou de Marco, ligou para ele, conversaram bastante, propôs estudarem juntos. Assim, com carinho e amizade seguiram suas vidas.

Hoje, casada e com dois filhos, ele casado, continuam amigos e, tem muito amor um pelo outro, amor de amigo.

domingo, 3 de abril de 2011

CERTOS FATOS QUE SE TRANSFORMAM EM LENDAS...- Dinah Ribeiro Amorim


CERTOS FATOS QUE SE TRANSFORMAM EM LENDAS...
Dinah Ribeiro de Amorim


Tudo na vida tem um lado bom ou ruim!

Uma mudança de residência, de emprego, de amigos, de um país a outro, traz dificuldades, mas também compensações!

Foi assim com Da. Berta, senhora risonha, gordinha, muito corada, que viu-se sozinha, viúva, em terra estranha, sem amigos e parentes.

Vinda da Alemanha, com seu marido, um fotógrafo amador, tentaram vida nova no Brasil, cheia de ilusões e esperanças...

Aqui chegando, seu marido adoece, falecendo de um modo muito rápido!

Desorientada, Da. Berta fica em silêncio, dentro de casa, numa cidade pequena, onde haviam se estabelecido, não saindo nem para compras de alimentos!

Toda a vizinhança comenta e, um menino, sabendo de sua situação, resolve fazer-lhe uma visita e levar uma flor. Seu nome Roberto.

Ela não abre a porta.

Diariamente, Roberto vai até sua casa, bate na porta, esperando que ela abra.

Como Da. Berta não responde, deposita uma flor na entrada.

Essas visitas diárias duravam já um mês quando a triste senhora começou a prestar atenção nas batidas da porta e nos horários...

Um dia, resolveu abrir, recebendo uma linda margarida, do menino gentil.

Agradeceu e se fechou novamente!

Quando tornou a abrir, convidou Roberto a entrar, oferecendo-lhe um chá.

Logo, entusiasmou-se novamente, fazendo os bolos e “biscoitos’ que aprendera com sua mãe, na Alemanha.

A criançada da região começou a conhecer Da. Berta e seus famosos “biscoitos”. Sua casa virou atração e, seus “biscoitos”, ponto turístico.

Quando faleceu, já bastante idosa, muito conhecida, todos compareceram e, Roberto, já um moço, depositou em seu jazigo uma linda margarida!

Quando as mulheres do local se reuniam e a conversa eram doces, lembravam dos “biscoitos’ de Da. Berta. Ninguém sabia a receita nem fazê-los como ela.

Virou uma “lenda” falar em coisa boa e lembrar dos seus “biscoitos”.

“Um pequeno gesto de amor e atenção pode modificar uma vida!”