BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL

terça-feira, 31 de maio de 2011

O causo do italiano Ninim - Hirtis Lazarin







     Seu Ninim é um dos muitos italianos que fugiram da Europa para o Brasil após as duas grandes guerras mundiais.   
                                                                         
     Chegou casado com Dona Rosina e como tantos outros imigrantes instalaram-se numa fazenda cafeeira num dos "cafundó" de São Paulo.

     Tiveram três filhos homens e depois de muitos anos de trabalho...muito suor... e muita economia compraram alguns alqueires de terra do ex-patrão; após a morte da esposa, ali vive até hoje com o filho mais velho, Toninho, casado com Dona Ivone e mais três netos.         
                               

     Ao completar oitenta anos, já com a vista cansada e as pernas que não ajudavam mais, foi forçado a deixar a labuta.  Foi um momento de decisão bastante difícil, orgulhoso da boa disposição e destreza pra lidar com a roça, as ferramentas e os animais.

     Todos os negócios ficaram por conta do filho.  Com dinheiro, fazia tempo que seu Ninim não lidava mais.  Não conseguiu acompanhar e nem compreender tantas alterações na nossa moeda.  Não sabia mais o que custava caro e o que era barato.  Só dava conta dos contos de réis e do cruzeiro. 

     Todos da casa trabalhavam na lavoura do algodão e cultivavam um "cadinho" de arroz e outro de feijão para consumo próprio.  E conforme pensamento de seu Ninim, em sítio de italiano "num pode fartá" um bom galinheiro com um galo bem macho "pra dá conta das galinha".  Elas têm a obrigação de "botá ovo bão tudo dia", gema bem amarelinha "pra dexá tudo mundo fortinho".  E "pra cumê" só os frangos-machos.



     O chiqueiro cheinho é de onde sai todo mês um porco graúdo "pra num dexá fartá" carne, linguiça, torresmo e banha.  Dá gosto ver as fileiras de linguiça penduradas na cozinha.

     No pasto estão algumas cabeças de gado e uma vaca leiteira.  Tirar leite da Mimosa seu Ninim não abriu mão e todo dia, por volta das seis horas da manhã, lá vem ele com o caldeirão cheinho de leite.

     Ah! Ia me esquecendo da horta. Zequinha, o neto mais velho, cuida dele com muito jeito.  Aprendeu tudo com a "nona" Rosina.  E dela saem todos os dias "foias verdinha" e tempero pro almoço.

     Quer ver o "zoinho" de seu Ninim brilhar?  É quando Dona Ivone faz a polenta quentinha "se esparramá" no "fondar", acompanhada de uma fritada de linguiça purinha de carne de porco.

     Do tempo de seu Ninim só ficaram dois italianos, seu Pedro e seu Gijo, moradores de Iberê, cidadezinha próxima do sítio, não dá mais que oito quilômetros de distância.

     Iberê não foi pra frente, não cresceu como se esperava, rodeada que era de fazendas cafeeiras.

O café prometia fartura e progresso, mas não durou muito e foi se acabando.  A terra já não era mais tão fértil, as despesas para o cultivo eram altas, os juros bancários elevados, sem contar que o cafezal só produz frutos a partir do quinto ano de seu plantio.  E durante todos esses anos o agricultor ia se virando como podia.

     Os italianos primeiros foram morrendo e a grande maioria dos descendentes se deslocaram pra cidade grande.

     Iberê ficou pra trás com a igreja matriz no centro, rodeada por um jardim bem cuidado, a prefeitura, o correio, a CEF, um comércio bem simples e a casa lotérica, onde todos faziam a sua "fezinha".  Até seu Ninim.

     Quase toda semana seu Ninim pegava sua charrete velhinha atrelada à égua Pampa, sua xodó, e tocava até Iberê bater papo com os dois amigos.  Passavam horas recordando os bons e velhos tempos, bebericando aquela "pinguinha braba", a "mió" do boteco de seu Osório.

     Naquele dia seu Ninim não chegava em casa.  A família toda preocupada estava de prontidão no terreiro e Toninho já estava com o cavalo atrelado.  Mas eis que lá na virada da curva aparecem seu Ninim e a égua.

     Ela caminhava lentamente, mais que de costume, respirava com dificuldade, parava um pouquinho, tomava fôlego, parecia que não ia chegar.  Mas chegou...

     Pudera!  A carroceria estava carregada de caixas empilhadas, tamanhos diversos.  Eram muitas, nem dava pra contar...

     Seu ninim "apeou" tranquilo, não deu explicações nem permitiu perguntas e ordenou que as caixas fossem levadas pra dentro de casa.
     Estava cansado e foi dormir bem cedo.

     Os familiares sem saber de nada passaram quase a noite inteira contando dinheiro. E eram só notas de cem reais.

     Amanheceu.

     O italiano chamou os familiares e falou calmamente diante da grande surpresa de todos: 


- Toninho, vá até Iberê, passe no banco e traga as "otras caxas que ficaro lá.  Num é que na semana passada, eu acertei os número da Sena?"



domingo, 22 de maio de 2011

Ainda lembro ... - Dinah Ribeiro Amorim




AINDA LEMBRO...
( conto de suspense)

Dinah Ribeiro de Amorim


Lembro-me ainda de minha primeira exposição de quadros...

Foi uma noite de intensas emoções!

Fiz sucesso, agradei bastante os críticos de arte, vendi alguns quadros importantes e, conheci um rapaz pelo qual me apaixonei loucamente... Fiquei hipnotizada pelo seu olhar...

Fomos apresentados por uma amiga e ele se agradou muito dos meus quadros de crianças e gatos.

Eram também as suas paixões...

Colocou sua mão em meus cabelos e perguntou-me se gostaria de sair com ele, dar uma volta de moto, conhecer o seu local predileto, largar tudo e todos e fugir ... Para onde? Não sei!

Atraída por ele, abandonei a exposição; coloquei-me na garupa e fomos numa velocidade incrível!

Paramos num local estranho, semelhante a um castelo em ruínas, cheio de gatos, alguns miando, outros dormindo...

Ofereceu-me um “comprimidinho para relaxar” e, sem querer, fui deixando-me levar por gestos sensuais e mágicos, acontecendo o inevitável... Adormecemos!

Quando acordei, na manhã seguinte, minha cabeça girava e não sabia direito aonde estava...

Fui me lembrando, aos poucos, da loucura da noite anterior! O que me acontecera? O que eu fizera? E a minha exposição? Um sonho de tanto tempo!

O rapaz bonito havia desaparecido. Só avistei, ao longe, olhando-me por uma janela, uma velha senhora alisando um gato no colo.

O que me parecera um castelo, era um velho sobrado, descascado e feio!

Levantei-me com dificuldade, reparando que estava num bairro afastado , pelo barulho, perto de uma estrada...

Cambaleando, meio enjoada, talvez pelo comprimido da noite anterior; o que seria aquilo? Alguma droga ou psicotrópico, talvez, fui caminhando.

Apalpei o bolso do casaco e senti que o celular havia ficado. Liguei para Nanci, minha secretária, que, apavorada, perguntou-me aonde estava. Interroguei um homem que passava e ele respondeu que a estrada era a Castelo Branco, próximo a Aldeia da Serra.Dei-lhe o endereço e ela veio me buscar! Custou um pouco a encontrar-me.

Felizmente, achou-me, sentada numa mureta, descabelada, amassada, meio suja de terra e pálida como um defunto!

Logo eu, que dou tanto valor à limpeza e elegância!

Muito espantada, Nanci ajudou-me a entrar no carro e, só depois de muitas horas, perguntou-me o ocorrido...

Reparei, enquanto voltávamos, que a linda pulseira, guardada a tanto tempo, herança de minha avó, para usar em minha primeira “vernissage”, havia desaparecido.

Dar queixa do roubo? Como explicaria a minha saída com ele? Minha aventura, iniciativa própria?

Senti vergonha e preocupação ao mesmo tempo!

Que impressão teria causado a minha ausência?

Por sorte, ninguém reparou e, graças a Nanci, fiel amiga, nunca se soube de nada.

A exposição durou dois meses, com bastante elogios e grandes vendas.

Às vezes, quando fico sentada, observando meus quadros, principalmente os de gatos, lembro-me da loucura que fiz, acho que a única na vida pois, normalmente, vivo reclusa, e, sinto um arrepio pelo perigo que corri!

Ah! Esqueci-me... Recebi minha pulseira de volta, por Sedex, uns vinte dias depois, quando soube que vendera um auto-retrato para uma senhora de meia idade, acompanhada de um gato...

Muito estranho tudo isso...


Continuação de uma história... - Dinah Ribeiro Amorim



CONTINUAÇÃO DE UMA ESTÓRIA...

Dinah Ribeiro de Amorim

 
Seu marido chega, de repente, achando-a muito corada, excitada, diferente... Desconfia logo, esperto como todo homem, que havia acontecido algo...

Pergunta: “O que houve? Com quem esteve falando? Por que essa alegria toda? Não deve ser pelo meu atraso!

Você, maliciosa, arma habilmente uma resposta:

_ Seu atraso foi tanto que, imagine só, reencontrei um amigo de infância e ficamos relembrando nossos tempos de adolescência e namoricos... Foi muito gostoso e demos muitas risadas! Pela primeira vez, não me aborreci por ter ficado tão sozinha...

Percebeu que o marido, enciumado, começa a tratá-la com muita delicadeza e mimos, desculpando-se e prometendo não se atrasar mais. Tomaria cuidado na próxima ocasião!

Jantaram muito bem, dançaram, o que fez você se sentir atraída novamente por ele e tiveram, em casa, uma noite inesquecível!

No dia seguinte, você pensou: “Como é fácil um homem agradar uma mulher! Pena que poucos sabem disso!”

sábado, 21 de maio de 2011

Vou contar um causo - Hirtis Lazarin


Vou contar um causo
Hirtis Lazarin


Era domingo. Brincavam na fazenda do vovô um rapazinho arretado que dizia não ter medo de nada e dois primos seus medrosos de causar dó.

Naquela semana chegara no pasto, trazido lá das bandas das Minas Gerais, um cavalo orgulhoso e selvagem. Se alguém dele se aproximava, dava coices e, apoiado nas patas traseiras, quase sentado, empinava as patas dianteiras bem lá pro alto impondo medo e respeito. Vovô até já contratara um peão pra domá-lo.

Ninguém ousava chegar perto. Ninguém não... Foi desafiado pelo menino corajoso e sem juízo. Como quem não queria nada foi se aproximando do animal. Devagarinho... bem devagarinho.

Olhos fixos nos olhos da fera. O animal foi se acomodando... se acomodando... Parecia hipnotizado.

Num impulso violento e rápido o menino saltou, enlaçou as pernas nas ancas do animal e cravou-lhe na pele o salto da botina velha e carcomida pelo uso e pelo tempo.

O animal nervoso deu um pinote mais alto que todos os outros e saiu galopando desenfreado pasto afora. Fora desafiado e não gostara disso nem um pouco.

Entrou no brejo, escorregou no barro, embrenhou-se no mato, saltou sobre montes de galhos secos, fez de tudo um pouco. Não conseguiu desvencilhar-se da companhia indesejada e intrusa. Não podia aceitar esse desafio.

Nessa corrida maluca surgiu a frente um obstáculo maior que todos, uma cerca bem alta feita de arame farpado. Parecia que não ia dar tempo; o cavalo não exitou, voou alto feito um gavião e caiu sobre as quatro patas no outro lado do terreno. Sacolejou pra direita, pra esquerda, relinchou bem alto feito um Titã e vitorioso desapareceu no meio do mato.

O menino ficou estendido no chão sangrando muito.

Os outros dois meninos tinham certeza de que o primo estva morto. Eles não tinham tempo pra perder. Carregarram o falecido até a casa grande da fazenda, espiaram pela porta principal e não avistaram ninguém. Abandonaram o corpo inerte no primeiro quarto da frente e fugiram. Seja lá o que Deus quiser.

Morrer o menino valente não morreu. Senão eu não estaria aqui pra contar esse "causo" que aconteceu com o meu pai.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Não quer vir jantar comigo? - Suzana Lima

No restaurante você está esperando pelo marido ha mais de duas horas, e um homem solitário em uma das mesas deseja jantar com você. Você olharia para trás e o convidaria para sentar-se com você? -  Resposta: sim





Ela começou a ficar furiosa com tal situação. Ali, linda, cheirosa, toda mulher, a esperar um marido relapso e pouco cavalheiro, que não chegava. Um marido que sequer lhe dera alguma justificativa para não estar no encontro na hora marcada. Pior, para nem comparecer. E seu celular estivera ligado aquelas três horas infindáveis. Seu admirador, às suas costas, tinha toda razão. Ela era mulher que fazia os homens esperarem por ela, não era feita para esperar ninguém.

Olhou o relógio outra vez: 10 e 15. Decidiu-se; virou-se devagar, bem sedutora, cruzando as pernas com graça e jogando os cabelos para o lado e acenou para o homem que esperava quieto, sentado bem atrás dela..

- Não quer vir jantar comigo? – perguntou com sua voz mais doce.

Ele prontamente se levantou, aproximou-se dela sorrindo, pediu licença e se sentou. Era belo, muito belo. E viril. Qualquer coisa no seu modo de sorrir, apertando um pouco os olhos, seu à vontade e segurança, sua elegância num terno muito bem cortado, tudo isso compunham um retrato muito sedutor de um homem.

- Quer pedir o jantar agora? Perguntou estendendo o cardápio para ela.

Ela não estava com vontade de comer nada. Ainda bem que o aborrecimento causado pelo marido estava se esvaindo diante da excitação causada por sua atitude tão ousada, desafiadora mesmo, aceitando jantar com um completo desconhecido. Assim, como pensar em comida nesta hora, com aquele homem à sua frente? Quem era? O que fazia? E, mais importante, até onde ela iria com ele?

Olhou o cardápio devagar, sentindo o leve aroma cítrico de uma lavanda fina, notando suas mãos bem feitas brincando com a taça de vinho, a falta de pressa, a espera silenciosa como um tigre à espreita. Quieto, mas atento.

- Na verdade, perdi a fome, sabe?

- É natural. Mas já passou das dez e você não pode ficar tanto tempo sem se alimentar. Pedimos o couvert que é uma delícia e mais uma taça deste espumante. Até lá você resolve o que fazer. Está bem assim? Você está linda demais para sair deste restaurante sem ao menos ter provado o patê de berinjela e as torradinhas de alho do mestre Cortez. São divinos e ele ia ficar muito contrariado se soubesse que nem sequer isso lhe serviram.

- Você vem muito aqui? perguntou admirada com desenvoltura dele num restaurante tão chique. Até o nome do chef ele sabia...

- Pelo menos uma vez por semana. Mas conheço o chefe há muitos anos. Somos conterrâneos, da velha Andaluzia. – fez sinal para o garçon e encomendou o couvert .

- Você é espanhol então? Não percebi pelo seu jeito de falar.

- Sou. Mas vim para o Brasil quando tinha dezoito anos. Será que já perdi o sotaque? - Desta vez ele falou carregando bem no espanhol, sabia que isso sempre provocava algum frissom.

- Agora sim. Que facilidade falar com ou sem sotaque... observou ela., se arrepiando toda.

- Como você acha que fica melhor? Ele continuava carregando nas palavras e aproximou seu rosto um pouco do dela, sorrindo, meio divertido.

- Acho que você sabe bem o efeito que um sotaque produz, não é? ela resolveu jogar um pouco de charme para ele e falou sua frase com o restinho do sotaque francês de que se lembrava.

- Ulá, lá, lá – disse ele meio surpreso - Chega a ser uma covardia falar tão lindamente com este sotaque francês, ainda mais partindo de uma mulher tão bela.

Naquele momento o garçon veio colocar o couvert na mesa que era bem mais que patê e torradinhas. Parecia um banquete. Encheu as taças e se retirou bem discretamente. Quase na mesma hora os músicos começaram a tocar canções românticas. Ele ergueu uma taça para ela:

- À nossa amizade e que não termine aqui.

- Ao espanhol misterioso que salvou meu jantar. – disse ela faceira tocando sua taça na dele.

Ele olhou-a intensamente, enquanto bebia um gole de seu espumante. Depois preparou uma torradinha com o patê de berinjela, levando-a até a ela.

- Veja se não é um patê especial.

Ela aceitou a torradinha graciosamente. E vendo sua boca assim tão de perto, ele não se conteve e acariciou seu rosto devagar, depois a boca e aos poucos foi aproximando seus lábios dos dela. Ficaram assim algum tempo, olhando-se fascinados diante da onda irresistível de atração que percorreu seus corpos.

O couvert ficou para trás, as taças ainda cheias também e eles saíram tão enlevados da mesa que ela nem percebeu direito que ele a levava para o elevador, pois o restaurante ficava num hotel. Mas no segundo que a porta se fechou, ela conseguiu perceber Fábio entrando no restaurante à sua procura.

- Foi um momento mágico em minha vida. Parecia um filme de suspense. Por um segundo Fábio não me viu ali dentro do elevador, abraçada com outro homem. – contou ela depois às amigas. Mas enquanto a porta se fechava, deu bem para vê-lo ali desnorteado, me procurando nas mesas, enquanto eu subia para o quarto de um homem até então completamente desconhecido para fazer amor. Isso deu um sabor extraordinário à noite. – Gente, e que noite! O espanhol, aliás, Pablo, é uma figura, grande amante, grande cavalheiro, valeu cada minuto que passei com ele.

- E aí? Seu marido não quis explicações? Não ficou furioso?- perguntaram elas.

- Não dei explicação nenhuma, tive uma noite de amor espetacular com o espanhol, depois fui à casa de minha irmã. Para todos os efeitos dormi lá, furiosa pelo desencontro dele. Pelo menos foi o que eu ouvi minha irmã explicar a ele pelo telefone.

Olhem, - ela sorriu luminosa - nunca fui tão bajulada como agora. Ele faz tudo para me agradar. Diz que jamais vai querer ver aquele brilho sanguinário nos meus olhos...

terça-feira, 17 de maio de 2011

Dias das Mães - Dinah Ribeiro Amorim



DIA DAS MÃES!
Dinah Ribeiro de Amorim



Segundo Domingo de Maio, Dia das Mães!

Um único dia do ano para homenagear a mulher-mãe, digna de todos os dias.

Quem já as perdeu, acredito que não tenha um momento que não se lembre um pouco dela.

Dominadora, possessiva, super-mãe, agressiva, amorosa, sensível, delicada, protetora, seja lá o que tenha sido, não existe alguém que tenha exercido maior influência em nossas vidas, do que nossas mães!

Acho também que não haja quem se preocupe mais com a gente, que seja capaz dos maiores sacrifícios, sofrido as maiores dores e dado mais amores, do que nossas mães!

Longe ou perto, conscientes ou não de nossas verdadeiras vidas, nunca houve quem tenha se preocupado tanto conosco!

Se sofremos, sofrem junto. Se estamos alegres, sorriem também!

Sempre achei que ter filhos, neste mundo, são as nossas maiores alegrias e podem ser também nossas maiores tristezas...

Ser mãe é um dom dado por Deus às mulheres em geral e à algumas, em particular, quando passam por grandes dificuldades.

Quem consegue orar por nós, esquecer-se de si própria, pensar no problema do outro, senão uma mãe?

Quem sente vontade de lutar, de vencer barreiras, de defender uma causa, de lutar por ideais, senão uma mãe?

Pena que, muitas vezes, só tomamos consciência disso, quando as perdemos.

Que Deus proteja sempre toda mulher, toda mulher que é mãe, não só no dia dedicado a elas mas, todos os dias do ano; que seus desejos sejam realizados, que a felicidade de seus filhos se torne sempre uma verdade!

Que toda mulher que é mãe seja guardada com carinho dentro do coração de seus filhos e no aconchego de Deus!

JOANÓPOLIS - Suzana Lima


Suzana Lima fez uma poesia pueril para a cidade de Joanópolis que fica no Estado de São Paulo. A cidade é considerada a Terra do Lobisomen, e o Recanto das Cachoeiras. Abaixo temos um texto do professor folclorista Valter Cassalho sobre a crença do lobisomen em Joanópolis:


JOANÓPOLIS
(Suzana Cunha Lima)

Fui na terra do lobisomem.
Lá tem noite enluarada,
coelho correndo na estrada,
cachoeira pela mata,
grama verdinha no chão.

Em casa se faz o pão,
o leite vem da vaquinha,
alface, fruta fresquinha,
ali mesmo do pomar.
Passarinhos a cantar,
nas florzinhas a revoar.

Mas cansei de procurar,
nem na mata, céu e chão,
Lobisomem não vi não...

 
 
 
O PORQUÊ DO LOBISOMEM

novoDizem que, quem tem muita sorte nasce virado pra lua e Joanópolis parece ser uma destas cidades em que a lua dá muita sorte, principalmente a lua cheia, pois é nela que o lobisomem costuma aparecer. Temido no passado, o lobisomem joanopolense passou por nova metamorfose, deixou de ser amaldiçoado para dar sorte, de mau passou a brejeiro e de temido passou a ser amigo.

O lobisomem teve suas histórias aguçadas em 1983, quando a folclorista Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima defendeu sua tese para a Escola do Folclore de São Paulo, tendo como tema o Lobisomem e como local de pesquisa nossa cidade, lançando o livro: "Lobisomem: assombração e realidade".

Em 1998 o Lobisomem voltou à tona, através do comercial sobre folclore do grupo MacDonald´s, no qual figuraram pessoas de nossa cidade. Surgiu então a LOBOMANIA, confeccionando camisetas, adesivos e eventos, nascendo aí a A.C.L. - Associação dos Criadores de Lobisomens, com o intuito de difundir este precioso mito.

turistaEste lobisomem nunca percorreu tantas cidades como agora, mas ao invés de terror, traz a proposta de um turismo sui-generis, ou seja, o turismo do imaginário.

Hoje em dia, o lobisomem pode ser considerado o carro chefe na divulgação do turismo da cidade, aproveitando o folclore e mostrando as belezas naturais que o município encerra. No mês de agosto acontecia a Trilha do Lobisomem, ocasião em que dezenas de jeepeiros percorriam a madrugada joanopolense na esperança de ver o bicho. Além disso as pessoas estão descobrindo os mistérios da lua cheia, ou seja, estão reatando com seu imaginário, buscando ouvir e relembrar as histórias de assombração e outros contos, pacientemente contados pelas pessoas mais antigas da família ou da comunidade.

A proposta do lobisomem é esta, divulgar o turismo, valorizar o folclore, relembrar os bons tempos da infância, contar um bom "causo" e se envolver nos mistérios e clarões da lua cheia.

Quanto ao lobisomem, muitos viram outros afirmam que é pura imaginação, mas na verdade seu rastro está por ai, com seus encantos, seus mistérios e sua atração irresistível ao desconhecido. Bem, enquanto a dúvida persiste o bicho corre solto...

O TURISMO DO IMAGINÁRIO

Graças ao trabalho da Associação dos Criadores de Lobisomens Joanópolis conta com o chamado "Turismo do Imaginário", alicerçado no estudo, reaproveitamento e na projeção do folclore.

Consistindo na busca do lúdico, das sensações da infância, na reconciliação com o sobrenatural, com o imaginário!

Mas o que é este TURISMO DO IMAGINÁRIO?

Costumo partir do pressuposto que os mitos sempre povoaram as mentes dos homens, desde os mais remotos tempos o homem viaja em busca de seu imaginário, em busca do encontro com o sobrenatural, com o sagrado, com as possíveis aventuras com o inesperado. Tornou-se um aventureiro, visitando locais que acreditava possuir energias diferentes, monstros, deuses e até mesmo passar por um portal mágico que o levasse a outros mundos.

Foram criados lugares sagrados de peregrinação em todos os períodos da história, decorrido milênios, o homem continua em sua viagem em busca dos seus mitos, de seus medos, de sentimentos subjetivos.

Só para se ter uma idéia, o governo da Romênia, onde situa-se a Transilvânia, pretende gastar trinta e dois milhões de dólares num dos projetos que visa intensificar a visita a cidade de Sighisoara, onde está o castelo que viveu o Conde Vlad Dracul, popularizado e distorcido como Conde Drácula. O Lago Ness na Escócia continua sendo visitado até hoje e todos sonham com uma foto do tal monstro, no Brasil Varginha no Estado de Minas Gerais, virou ponto referencial na possibilidade de se ver um extraterrestre, que podemos afirmar ser um mito moderno, São Tomé das Letras, também no mesmo Estado é amplamente visitada e pessoas juram que além dos Ets vêem gnomos e toda sorte de seres fantásticos. Alguns municípios estão apostando nos sacis, outros em seres encantados dos rios e cachoeiras, assim sendo, por que não investiríamos no lobisomem? Um mito forte, dinâmico, antigo, presente em todas as culturas e preservado no sopé da Mantiqueira.

Este é o turismo do imaginário, uma desculpa para viajar e relembrar a infância, reviver antigas fantasias, mas também buscar a aventura de estar numa cidade e poder contar depois que esteve lá, na terra assombrada por um determinado ser, mas também, em conhecer e desfrutar das belezas naturais que estes locais encerram. É o novo, o inusitado, o diferente, talvez seja isso que procuram aqueles que se aventuram por estas trilhas.

Nossa associação provou que é possível colocar os ventos do folclore a favor do turismo, mesmo que seja um mito apavorante e que não tenha uma cara tão boa ou amiga, seus traços podem ser melhorados, reinterpretados, sem perder a essência, criando uma nova força e uma nova dinâmica no local onde está inserido. Boa prova de como podemos mudar isso, são os ursos de pelúcia, os detestáveis e horríveis ratos que de repente graças a Waltt Disney viraram seres amáveis, amigos e idolatrados por jovens e adultos.

O lobisomem saído dos antigos feiticeiros, das maldições dos deuses gregos, excomungados pela intolerância cristã da Idade Média, satanizados por radicais religiosos, transformado num pobre amaldiçoado com a sina de correr a noite inteira, vira em poucos anos, o bom cãozinho. Antes todos corriam do lobisomem, hoje as pessoas correm atrás dele, acho que se ele pudesse opinar sobre tudo isso, talvez viesse a afirmar: "Eu era feliz e não sabia!" Espero que para o lobisomem não venha a valer o ensinamento de Maquiavel, onde é melhor ser temido do que amado.

Atualmente a CASA DO ARTESÃO (ao lado da Matriz) abriga a ASSOCIAÇÃO DOS CRIADORES DE LOBISOMENS bem como a CASA DO LOBISOMEM, com muitos souvenires como vinhos, pingas, biscoitos, bolos, doces, camisetas, chaveiros, bonecos do Lobisomem. Na entrada tem um boneco tamanho natural da artista plástica Regina Rodrigues a mesma que criou no ano passado as CUECAS DO LOBISOMEM (Crie o bicho solto!) e outro em pé do André Collins. Há ainda lobisomens pequenos em bisqui, resina, camisetas etc feitos por André Collins.

A novidade desde ano de 2010 foi o NENÉM LOBISOMEM ou seja, um lobisomem (boneco) bebê que tem sido o xodó da casa do Artesão.

Os lobisomens e bonecos de vários artistas espalham-se por todo o município em cachaçarias, bares, lojas de artesanato.


Professor Valter Cassalho - da Associação Brasileira de Folclore
Presidente da Associação dos Criadores de Lobisomens
( contur.joanopolis@gmail.com )
 


CHAPEUZINHO VERMELHO E O LOBO MAU EM NOVA VERSÃO! - Dinah Ribeiro Amorim


CHAPEUZINHO VERMELHO E O LOBO MAU EM NOVA VERSÃO!
Dinah Ribeiro de Amorim

Chapeuzinho Vermelho, curiosa como sempre, resolve visitar sua vovó que está doente. Para isso, recebe recomendações de seus pais: evitar os lados da floresta, porque um lobo mau, astuto, manhoso, anda à espreita e adora comer menininhas e vovozinhas.

Como tinha um espírito muito aventureiro e corajoso, vai cantando pelo caminho, balançando uma cestinha com frutas e flores, certa de que nenhum animal terrível a pegaria!

Cantando e dançando, ouve ao longe uma voz macia, melodiosa, chamando: “Chapeuzinho”..., “Chapeuzinho”..., volta-se e depara com um lindo animal, de pêlo sedoso, olhos brilhantes, querendo chamar sua atenção!

Atraída pelo seu olhar, aproxima-se dele e lhe oferece uma fruta.

O lobo, que na realidade era um rapaz enfeitiçado por uma bruxa malvada, espanta-se com a ausência de medo na menina. Aceita a fruta e a acompanha, com passos lentos...

Chapeuzinho conta-lhe que ia visitar a avó, por motivo de doença mas, que não tinha medo de andar pela floresta sozinha. Tinha um anjo bom que era seu amigo e que prometera sempre aparecer nas horas de perigo.

O lobo, já bastante interessado, resolve assustá-la para constatar se é verdade.

Abre bem seus olhos e fixa forte a menina, que exclama: “Nossa, que olhos grandes você tem!”

O lobo, abre então seus braços, como se fosse agarrá-la e ela responde:”Nossa, que braços compridos você tem!”

O bicho, contrariado, resolve então abrir bem a boca, ameaçando mordê-la.

Chapeuzinho responde: “Nossa, lobinho, que boca grande que você tem!”

_É para te comer! Responde ele.

A menina, assustada, dá um passo para trás e ameaça correr quando, através de uma nuvem branca, desce um anjo de luz, tocando no lobo com um cajado e fechando Chapeuzinho em suas asas.

É o anjo protetor do bosque! Quebra num instante o feitiço do lobo, transformando-o num belo rapaz! Sua natureza inicial...

Chapeuzinho fica encantada com a transformação e, de mãos dadas, seguem juntos para visitar a avó.

O anjo bom sobe aos céus, Chapeuzinho fica feliz com seu novo amigo e a vovó, feliz com a visita, recupera-se mais rápido!

quinta-feira, 12 de maio de 2011

NATAL ILUMINADO DO ICAL RECEBEU HOMENAGEM



Parabéns aos participantes e organizadores do Natal Iluminado que foi apresentado no Teatro Recriarte em dezembro/2010.

A Associação Comercial de São Paulo - Unidade Pinheiros - rendeu homenagem ao ICAL por esta participação, em evento realizado na própria sede no último dia 10.

O ICAL agradece a Associação Comercial, e principalmente aos colaboradores, músicos, poetas e dançarinos que se apresentaram.

Parabéns ICAL!

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Homenagem às Mães - Ana Maria Maruggi



Ser Mãe

Ana Maria Maruggi


Não faz outra coisa a mãe senão amar.
Amar pelo prazer de fazer bem a outro.
Dar sem receber, nada tendo sido imposto
Vigiar sem cansaço para outro descansar.


Não há graduação de maternidade
A mãe já aprende desde o ventre
Que ser mãe é carregar o filho sempre
Não importando condição, nem idade


Se não sabe como agradar, aprende.
Ficar perto mesmo estando distante
Para a mãe, o filho é sempre aspirante
Marujo do oceano à que ascende


Mãe não é cargo, tarefa, ou profissão
Mãe é evolução do espírito feminino
É pura exaltação à criação, um hino
Um processo de amor, agregação.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Apenas uma lembrança - Suzana Lima



APENAS UMA LEMBRANÇA
Suzana Lima
 
Eliane tinha feito 18 anos dois dias atrás, mas a comemoração se dera naquele sábado. Com tudo a que tinha direito: buffet caprichado, DJ e flores, família em peso, muitos amigos, risos e brincadeiras e muita, muita alegria. A música se derramava pelo salão e jardins e até a natureza resolveu brindá-la com uma noite excepcionalmente bela, ainda mais que o clube ficava na Lagoa Rodrigues de Freitas, que dispensa qualquer adjetivo, principalmente banhada pelo luar.

Eliane estava no céu. O namorado a pedira em casamento e selado o compromisso com o beijo mais cinematográfico que ela já tivera. E isso tudo ao som da música deles: Minha Namorada, de Vinicius e Carlinhos Lyra.

De manhã, os pais já a haviam surpreendido com um Corsa novinho em folha e ela tinha acabado de se matricular na Faculdade que queria cursar. Tudo mais que perfeito.

Pediu para voltar sozinha no seu carro novo, para curti-lo e desfrutar daquele momento só seu. Morava a duas quadras dali, guiava bem, os pais concordaram.

Ela nem viu quando o motorista bêbado que vinha na contra-mão, a atropelou violentamente. Ficou viva por milagre, porque foi socorrida com rapidez e era jovem.

Os pais, namorado e amigos purgaram os quinze dias que ela passou entre a vida e a morte, entre a dor e a revolta, pelo acidente tão estúpido num dia de tanta festa.

Com 15 dias ela conseguiu abrir seus olhos e enxergar um mundo e pessoas como jamais tinha visto: sem se lembrar de nada nem de ninguém. Seu centro cognitivo fôra severamente afetado e nem mesmo recordava seu próprio nome. Os médicos não deram muita esperança, mas assim mesmo, todos se revezavam à sua cabeceira, tentando colocar suas memórias de volta, na sua cabeça vazia.

Aos poucos ela foi reconhecendo seus pais, amigos e algumas pessoas mais assíduas, simplesmente porque elas se autodenominavam e Eliane gravava a imagem junto ao nome.

Havia também um rapaz bonito e sorridente que sempre lhe visitava, beijava suas mãos e lhe levava flores. Ele tocava seu coração de tal maneira que ela instintivamente deduziu que devia haver alguma ligação forte entre os dois, mesmo desconhecendo por completo seu nome e o grau de relacionamento com ela. Tomou este fato como um desafio e pediu que ninguém lhe informasse nada sobre ele. Queria descobrir por si mesma, pela força e tenacidade de seu pensamento.

Eliane voltou para casa com um batalhão de profissionais atrás, todos se esforçando para devolver sua vida, tal como era. Ela se sentia como um bebê que precisa aprender tudo: a comer, beber, se sentar e andar, fazer suas necessidades sozinha, e se direcionar na casa.

Meses se passaram e Eliane fazia o progresso possível. Se uma pessoa nova aparecia, tinha que se apresentar e dar referências para que ela gravasse seu rosto e nome. Vivências antigas não lhe vinham à cabeça espontaneamente. Não poderia mais cursar a Faculdade, porque tinha perdido todo seu referencial de estudos anteriores. Isso a desanimava às vezes, porque sabia que havia um enorme caminho a percorrer. Era uma criança brincando com as letras e os números, e mesmo canhestramente, tentando apreender o sentido das coisas. Mas ela era determinada e tinha o especial desafio de descobrir sozinha, quem era o moço que nunca deixava de visitá-la.

Um dia ela estava sentada em seu terraço, de onde se avistava a estátua do Cristo Redentor, já iluminada. O sol estava se pondo e o céu parecia um turbilhão de cores incendiadas. Uma dessas tardes que a gente tem vontade de apreciar de joelhos e rezar. Ela deixou o livro que tentava ler e seu olhar passeou pelo morro do Corcovado, o verde da mata e se alongou até as palmeiras do Jardim Botânico, que farfalhavam à brisa leve. Sentiu lágrimas correndo pelo seu rosto diante de tanta beleza e alegrou-se porque tinha conservado intacto seu poder de se emocionar.

Foi quando ouviu uma música tocando ali perto, alguém colocara um cd no seu aparelho de som.
Mas se em vez de minha namorada

Você quer ser minha amada

Mas amada pra valer

Aquela amada

Pelo amor predestinada

Sem a qual a vida é nada

Sem a qual se quer morrer
Olhou para trás, quase assustada, e viu seu assíduo e bonito visitante se aproximar dela cantarolando aquela canção, e começou a sentir seu coração bater loucamente.

Ele se ajoelhou aos seus pés, deixou o ramalhete de flores no chão, beijou suas mãos e sussurrou, sorrindo para ela:

 

- Oi minha flor, ainda quer se casar comigo?

 

E não se sabe até hoje se foi o tom de sua voz ou o toque de suas mãos, ou a própria música que era tão deles que, naquele momento, pareceu a Eliane que estava simplesmente acordando de um sonho mau. Reconheceu imediatamente o homem que amava, como se ainda estivessem na noite de seu aniversário e nada daquilo tivesse acontecido.
- Mário, é você, meu amor? Quero casar contigo sim, claro que quero.

E enquanto se beijavam, rindo e chorando, Eliane sentiu suas memórias irromperem aos borbotões, tal como as lavas de um vulcão em erupção, inundando sua mente e seu coração do que se chama vida.

E o mundo começou a ter sentido outra vez.

Pai virtual também é pai - Daisy Daghlian



Pai virtual também é pai

Daisy Daghlian

Eduardo de Camargo, físico, professor universitário, despediu-se da família, Ia para mais um congresso, no exterior onde apresentaria diversos trabalhos produto de suas pesquisas. A esposa Fabiana, acostumada com suas ausências, despediu-se com um abraço apertado e beijos, dizendo ainda a falta que todos sentiriam dele. Os filhos gêmeos Guilherme e Giovanna de cinco anos, começaram a chorar, não entendiam por que o pai tinha que se ausentar tantas vezes, abraçaram as pernas de Eduardo como se pudessem prende-lo junto a eles. Desconcertado, desprendeu-se das crianças, prometendo telefonar sempre que possível. Pegou a bagagem e se foi. O motorista da faculdade o levou ao aeroporto.

Já instalado em sua poltrona no avião, tentou ler algumas anotações, não conseguiu se concentrar, pensando na mulher e nos filhos e o quanto era dolorosa a separação. Pegou uma revista para tentar se distrair. Folheou algumas páginas e deu com um artigo que o interessou muito. Dizia: “Pai virtual também é pai”, um estudo sugere que conversas em vídeo entre pais e filhos pela internet podem compensar a distância física, sem causar ansiedade nas crianças.

Puxa, que maravilha, nunca pensei nisto antes, murmurou para si mesmo, uso tanta tecnologia no trabalho, as pesquisas me tomam o tempo inteiro, estou ficando bitolado, me preocupo tanto em deixar minha mulher e as crianças e, ao mesmo tempo fico tão envolvido com meu trabalho que ás vezes até esqueço da minha família. Vou pesquisar sobre o que é necessário para fazer este tal de vídeo conferência familiar via internet. C. Assim que chegar à Alemanha e me instalar, ligo para a Fabiana ela pode me ajudar muito.

Enquanto isto, na casa da família, as crianças chorosas, não deixavam a mãe trabalhar, ela como jornalista, escrevia seus artigos em casa e os mandava via internet.

-Temos que dar um jeito nisto, pensou. Estamos todos ansiosos.

O telefone tocou, era Eduardo, depois dos cumprimentos habituais, ele falou sobre o artigo que havia lido e pediu que comprasse dois laptops e providenciasse tudo que fosse necessário para se verem e se falarem via internet. Fabiana ainda brincou que eles iriam parecer os Jetsons, conversando por videoconferência.

Passaram-se duas semanas. Voltando da viagem, encontrou a família saudosa e na expectativa de montar aquela parafernália toda e ver se e como funcionava.

Foi uma festa quando os gêmeos se viram no laptop e viram os pais no outro.

Eduardo levou os apetrechos para seu trabalho, pos tudo em funcionamento e várias vezes ao dia falava com a família. O resultado foi surpreendente. Além dele se sentir mais pai, as crianças ficaram menos ansiosas e mais seguras, deixaram de chorar por qualquer motivo, enfim mais felizes.

Que instrumento maravilhoso contra a saudade.


Descompromisso - Daisy Daghlian



Descompromisso
Daisy Daghlian
 
A lenda de Antonio Medeiros ultrapassou fronteiras, terceiro filho do Dr. Alcebíades Medeiros, assim como o pai médico, responsável pela ala de cardiologia do Hospital Geral de Araguari, cidade do triângulo mineiro, com perfil agropecuário,. Competente e muito sério, brilhante profissionalmente, marido e pai presente, cidadão proeminente. Até o dia que não podendo salvar a esposa, largou tudo, hospital, pacientes, família, deu para beber, começou a andar com o mulherio, acabou abandonando a própria casa indo se instalar num quartinho qualquer na zona da cidade. Só queria saber de se embebedar com os novos amigos e desfrutar a vida.

Andava pela cidade mal vestido, sempre acompanhado de mulheres e outros homens tão bêbados quanto ele, iam de bar em bar.

Cantavam pelas ruas, falavam alto chamando atenção por onde passavam.

Os comentários a seu respeito, não paravam, sua atitude atual tão descompromissada e desregrada chocava a todos.

Essa vida de farras durou uns bons anos.

Morreu, numa madrugada,sentado a uma mesa de bar. Os amigos ficaram sem saber o que fazer, chamaram a polícia, que providenciou o transporte do corpo para o Instituto Médico Legal. Depois foi levado ao necrotério.

Inconformados com a solidão do local, esses camaradas resolveram roubar o corpo de Antônio a fim de levá-lo para uma última farra. Vestiram o morto com uma roupa qualquer, puseram-lhe até um chapéu. Dois deles o seguraram pelos braços e, lá foram eles perambulando pelos botecos, bebiam cachaça e davam também pra ele, cantavam e conversavam como se ele estivesse vivo e participando daquela loucura.

Dormiram na praça, quando acordaram, mais sóbrios, perceberam a insanidade cometida e, muito envergonhados, levaram o corpo de volta ao necrotério.
Ninguém da família reclamou o corpo. Foi enterrado como indigente.
 



quinta-feira, 5 de maio de 2011

Mãe - Ana Maria Maruggi



Mãe

A mãe pode do alto de sua plenitude agir seguramente de diversas maneiras na educação dos filhos. Ela pode prometer ou desprometer, castigar ou recuar do castigo. Ela pode pedir com carinho, ordenar com severidade, ameaçar disso ou daquilo. Não importa, nada trincará sua imaculada imagem ou a removerá de sua função de mãe.

A mãe tem característica absolutamente própria que a classifica de acordo com seus métodos de atuação no momento de corrigir ou educar as crianças. Vai depender de como ela se comporta e de quais das artimanhas que Deus lhe deu, ela vai fazer uso:



Mãe do tipo frágil, de corpinho fininho e pouquinho cabelo, com voz baixinha e pausada quando precisam ganhar numa argumentação apelam pela ameaça: “Vou contar tudo para o seu pai quando ele chegar. Você vai ver só!” Note-se que ela usou o verbo “contar” em vez de conversar, além disso, acrescentou o advérbio “tudo”, dando a conotação de que há MUITA coisa errada para ser revelado ao pai. E esse “Você vai ver só!” parece uma ameaça pré-estabelecida para que a criança não teime em persistir com o que estava fazendo.

A mãe ditadora não argumenta. Ela dita as regras e exige que tudo seja seguido à risca. Num momento de impasse ela logo procura preencher cada espaço não deixando para o filho nenhuma possibilidade de argumentação: “Meu filhinho querido, não queira criar caso agora com um assunto que já foi decidido muito antes de você nascer!”. Note-se que o filho não participou da decisão citada e não há nenhuma possibilidade dessa decisão ser modificada. Pelo menos por enquanto...

A mãe chantagista não argumenta também, ela nunca se presta a exposição quando os problemas aparecem. A mãe chantagista é sempre demasiadamente carinhosa e atenciosa e não deixa ninguém à deriva Mas quando se encontra encurralada, chora. Chora e observa os filhos para que eles se compadeçam de sua dor. “Coitadinha da mamãe” Percebe-se que quando apela pelo sentimento do filho, ela normalmente consegue seus objetivos. Pelo menos por algum tempo...



A mãe protetora está sempre  onde está a prole. Atenta a tudo e a todos, ela não deixa escapar nada. Se alguém ousar afligir sua criança (não importando a idade da criança), ela desce do salto e arma o barraco. Se for preciso entra em luta corporal para defender sua cria: “Aqui não meu caro, em filho meu ninguém põe a mão! Se a criança for pequena é possível entender essa tomada de frente, mas se o filho já for adulto torna-se evidente que ela não deixou para ele nenhuma possibilidade de, ele mesmo, resolver seus problemas.

A supermãe é aquela que está em todos os lugares ao mesmo tempo. Prestativa e amorosa ela nunca se cansa e não demonstra contrariedade diante de situações embaraçosas. Normalmente é muito educada e consegue tudo o que quer dos filhos, e dos amigos também: “Já deixei sua calça no tintureiro, tirei as cópias que você vai precisar para seu trabalho da faculdade, fiz um jantar gostoso daqueles que você adora, e amanhã vou levar seu carro para consertar o estepe”. Ajuda tanto os filhos que nunca tem tempo para ela, mas isso não a incomoda, pois essa prestatividade é o que lhe agrada.


A mãe ameaçadora não conversa e não dá moleza, ela vai logo ameaçando caso não seja seguido o que estava combinado: “Não invente nenhuma balada para hoje à noite senão o bicho vai pegar aqui em casa, hein!” Ameaçar é o forte de uma mãe desse tipo, embora ela nunca tenha cumprido nenhuma ameaça. Pelos menos ainda não...

Mãe carinhosa, exageradamente carinhosa. È claro que já  viu uma dessas. Nas salas de espera dos consultórios pediátricos há sempre esse tipo de mãe. É fácil reconhecê-la, pois ela está sempre fazendo carinho nas mãozinhas das crianças, afagando os cabelinhos, massageando os dedinhos dos pés, etc. E quando os filhos crescem, ela continua incansável na arrumação dos cabelos deles, ajeitando o colarinho, a gravata. A mãe carinhosa precisa estar sempre em contato físico com a criança dizendo coisas boas e sinalizando positivismo. Enquanto for possível...

Em quase todos os casos a palavra foi a regência dessa relação, mesmo quando a relação é ditatorial. É por força da palavra que a argumentação supostamente protetora ou ditadora acontece. Sendo assim pode-se reconhecer o exagero do qual a maioria delas faz uso para tentar conseguir o que almeja sem muitas explicações ou conversas. Ela parte para o confronto imediato:

“Se você não estudar e vier com nota baixa eu te mato!”

“Come tudo senão eu faço você engolir esse prato”

“Desce daí senão eu amarro você e aí sim você nunca mais vai subir em lugar nenhum!”

“Pára de chorar senão eu te dou uns tabefes e aí sim você vai ter razão para chorar!”

“Desliga essa televisão e vai tomar banho senão eu jogo a TV pela janela!”

“Se você não se comportar na igreja, nunca mais sai de casa!”

“Cuida do seu tênis que custou muito caro, senão você vai andar de chinelo para o resto da sua vida!”

“Se eu vir você mascando essa porcaria de chiclete outra vez, faço você engolir o chiclete e todos os seus dentes!”

“Se fizer xixi na cama outra vez, vai passar a dormir no chão!”

“Nunca mais fale palavrões nesta casa, senão corto a sua língua!”

 “A próxima vez que você deixar essa torneira ligada eu dou seu cachorro para doação”

“Se não vai mesmo escovar esses dentes então vou mandar arrancar um por um”.

Calma! Calma! - É claro que tudo isso é força de expressão.  E que mãe que é mãe não tem coragem de cumprir nenhuma dessas ameaças exageradas.

Elas mudaram muito com o tempo. Algumas saíram da cozinha, outras de casa para ajudar o marido no orçamento doméstico.

Hoje em dia elas estão se cuidando, procurando se atualizar para acompanhar a evolução dos filhos. Muitas estão plugadas também com os amigos das crianças, e cobram participação de toda a família para que a educação seja dada em conjunto pelos pais, avós, tios e padrinhos, além dos professores.

Prontas para a vida. Prontas para a maternidade. Prontas para o lar. Prontas para o trabalho externo. Prontas para amar, sempre.

O ato de ser mãe é insuperável, inigualável! E o de ser filho então, nem se fala...

E para as mães, esta autora deixa o ombro amigo, a confiança, o agradecimento, e a insubstituível palavra AMOR, que não só define a entrega através deste sentimento tão puro e gratuito, como também é a somatória dos valores que formamos e tomamos em nossas vidas através de nossas mães. Parabéns para todas as mulheres, mesmo que as não têm filhos, pois são mães incondicionalmente. Parabéns às mães que estão conosco, e às mães que partiram.