BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Cronica: O Travesseiro de Macela - Dinah Ribeiro Amorim




O TRAVESSEIRO DE MACELA – CRÔNICA.
 Dinah Ribeiro de Amorim

 Acabei de ler o livro de Contos “O Amigo Imaginário” de Suzana Cunha Lima. Gostei de todos, ela escreve e descreve muito bem e, o que mais me tocou foram suas palavras em “O Sonho”, quando diz que as mães, quando envelhecem, continuam com o mesmo colo e o mesmo abraço e sempre com a mesma vontade de protegê-los de toda dor, medo e tristeza desse mundo.

Talvez porque eu sinta o mesmo, esteja também nesse momento: mais velha, mais só, mais preocupada com filhos e netos, com o futuro, com o mundo atual.

Lembrei-me logo de uma crônica que escrevi quando minha filha se foi, para estudar no interior. O filho já havia ido morar com o pai, na adolescência. O apartamento ficou vazio. Embora lecionasse fora, senti sua falta e a movimentação de jovens, em casa, quando ela estava presente. Voltei a escrever e surgiu: “O Travesseiro de Macela”, publicado em Antologia de Santos e usado como dramatização em aula da F.A.A.P. (1992).

“Cinco horas, seis horas e nada...Rolo na cama, levanto, espio no quarto, vazio total. Que será agora, meu Deus?

Mais tarde, você chega e diz calma:
  _Bom Dia!

 Pelo meu jeito, percebe logo que não é um bom dia e tem vontade de voltar.

_Precisa se acostumar mãe, não consigo pensar como filha. Nosso relacionamento mudou de mulher para mulher. Se não durmo aqui, durmo fora com ele.

 Tento entender uma situação nova e sinto não estar preparada.

 Ela simplesmente deixava concreta uma idéia definida, sem controvérsias.
  _ Agora, penso em você como amiga.Alguém para conversar.

 _ Filha, nem um aviso? Um telefonema? Simplesmente não vem? E eu, como fico? Não pensa em mim?

 _ Já fiz vinte e um anos. Não sou mais criança. Sei o que faço.
  De repente, um imprevisto!

 Tentativas de vestibular. Lista de Odonto, em Araras, em Santos,...
 Começa a correria. Prefere Araras, onde o pai é Diretor. Aluga casa, não dá certo. Aluga então apartamento com dois primos.

 Entra em cena uma “amiga” do pai, numa tentativa de ficar mais perto.

Roupas brancas compradas às pressas. São meias bonitinhas, blusinhas de seda branca, até lingerie nova. Enxoval completo!
  Só sei que pouco participo.

 Retiro um avental da gaveta com um certo orgulho. Fora do pai e depois meu, para dar aulas. Não serviria! Não fora pedido pela Escola e, o pior, era feio.
  Ainda tento ajudar.

 Levaria todo o seu quarto, seus cartazes, louças, lembranças de viagens, livros, móveis, enfim, tudo o que acumulara na adolescência.
  Teria sua casa afinal!

 Coloco em caixotes, embalo com jornais, guardo para mim uma foto luminosa, tirada por uma amiga fotógrafa.

 Mudança às pressas, destino novo.

 Ansiosa por começá-lo, dá um abraço rápido e, quando fraquejo, diz logo:

 _Nada de emoção, mãe.Domingo estarei aqui ou você irá me ver.

  Desce rápido o elevador ajudada pelo irmão que pergunta, intrigado, por que fico triste se é o melhor para ela?

  Penso nisso, dou razão. Sinto o começo de um fim.

 Adeus à minha filha pequena, nervosa, que me queria e necessitava. Não consigo sentir saudade dela moça, independente e adulta.

 Olho o quarto nu e, o que vejo? Jogado no chão, um amigo inseparável, remédio para insônia, que sempre carregou consigo: seu travesseiro de macela.

 Corro ao terraço, grito em voz alta: Ângela!

  _O que é agora, mãe?

  _Seu travesseiro de macelinha.

  Sorri e entra no carro.

  Penso comigo “as coisas mudaram de fato”. Etapa nova para ela e para mim também!
  


VAGNER, O ZELADOR E SEUS “ CASOS" - Carmen Lucia raso





VAGNER, O ZELADOR E SEUS “ CASOS"
Carmen Lucia raso

Movimento era normal para um final de semana, visitas que chegavam e iam embora,  entregadores de pizza e fast food. Era sábado por volta das dez da noite, e na portaria estava o substituto.

Era folga do zelador Vagner, ele e Madalena estavam assistindo a um filme, que conseguiram alugar depois de semanas programadas,  deitados no sofá da sala, embaixo de um cobertor,  enquanto comiam uma tigelada de pipocas acompanhados de quentão, daqueles que se compram em supermercados. Mas no momento da cena mais intrigante, no desfecho da história, ouviu-se o barulhento interfone.  Entreolharam-se antevendo problemas:- Lá vem bomba! - disse Vagner à esposa. Pausaram o aparelho e lá foi ele atender com preguiça ao chamado.

-Oi Vagner.  Wilson!

-Fala Wilson, o que manda?

-Rapaz, sabe o garoto do 81 filho da dona Dirce? Pois então,  está todo machucado, com roupa rasgada e carregado por dois marmanjos com cara esquisita. Não tem ninguém no apartamento, o garoto nem fala, são os dois que querem entrar com ele. O que eu faço?

-Hum, acho melhor eu descer prá verificar, sabe-se lá se não querem invadir o prédio. Faz tempo que ele saiu, desde cedo, e não o vi  chegar de volta! Vai ver aprontou alguma!

-Ô Vagner, desce logo então, “ os caras tão “ ficando impacientes, dizendo que vão quebrar o portão.

-Tô indo!

Rapidamente o zelador vestiu-se, pediu ‘a mulher que esperasse por ele para acabarem de assistir ao filme. Desceu ligeiro, tanto quanto pode, pois seu apartamento ficava no último andar.

Foi até o portão sem abri-lo, ficou por instantes observando a expressão do garoto e dos outros dois indivíduos. Pensou consigo: -“ É, esses dois não tem cara boa mesmo.” E falou em voz alta: -Oh, Pedrinho, cadê sua chave? Seus pais e seus irmãos não estão em casa. O que foi que aconteceu?

Pedrinho mal podia abrir os olhos, muito menos a cabeça e o corpo se moviam,  estava todo ensanguentado, como se tivesse se ralado.

Pedrinho só queria chegar em casa e descansar, disse sussurrando.

- Tá bom, eu vou junto com vocês. Ô Wilson, fica alerta no teu rádio, que eu to com o meu, qualquer emergência, eu te aviso.

Subiram em silêncio, até que Vagner perguntou: -Cadê sua chave garoto? E o jovem respondeu:- Aqui no bolso da bermuda.

Entraram pela porta dos fundos, Vagner acendeu a luz da lavanderia, e seguiu andando atrás deles, até chegarem à sala. Pedrinho pediu aos rapazes que o pusessem no sofá em frente ‘a TV, foi  quando seus pais entraram pela porta da frente, acompanhados de seus dois irmãos mais novos. Sua mãe, num lampejo falou:- Menino, o que aconteceu? Você está machucado?

Ao mesmo tempo seu pai bradava:- O que você aprontou desta vez? Um rapaz de 17 anos, não tem juízo? Quem são estes dois ai?

O jovem sentado na beirada do sofá riu e depois gargalhou, seguido por seus amigos.

Vagner  via aquela cena sem entender o que se passava, até que foi despertado pelos gritos do homen :- Vagner, o que está acontecendo aqui?
Enquanto o zelador relatava o ocorrido, a mãe   sentada ao lado do filho, queria ligar ao seu irmão que era médico, e em seguida ligaria para a policia.

Pedrinho então levantou-se num pulo e tomando fôlego entre os próprios risos, explicou meio que com vergonha e meio que com astúcia: - Foi apenas uma brincadeira, mamãe, só queria dar um susto em vocês. Está vendo? Isto aqui não é sangue é katchup - e lambia as pontas dos dedos, depois de passa-los pelos supostos machucados. Ria muito, ele e seus amigos. Todos os outros estavam boquiabertos, surpresos com aquela brincadeira de mal gosto, e continuou: - Estes dois são meus manos da pista de skate e um de nossos camaradas que treina com a gente se machucou de verdade e eu tive a idéia de fazer esta “ pegadinha” pra ver qual ia ser a reação de vocês.

Foi ai que o pai mostrou-se nervoso e gritou:- Você sabe qual vai ser a minha reação agora, Sr. Espertinho? O senhor vai ficar de castigo durante um mês. Enquanto isso, nada de skate, nada de computador, televisão e nada celular. Seus “ manos” podem ir embora e não apareçam nunca mais,  e Sr. Vagner pode voltar para o descanso. Obrigado. E acompanhe os  “ colegas “ até a porta da rua, por favor. Pegou o filho pela orelha, levou-o até o banheiro, de onde se escutava:- Não pai, não me bate, por favor, foi só uma brincadeira”!

Vagner saiu pela porta dos fundos com os dois garotos, pedindo desculpas até pelo que não tinha feito, e lembrou-se de que Madalena estava esperando com o filme, a pipoca e o quentão que já deviam estar gelados.

- Que noite agitada! - pensou consigo mesmo - Não é fácil vida de zelador, a gente passa cada uma e o salário ,oh! É deste tamanhinho.

domingo, 21 de agosto de 2011

Suzana faz elogios aos resultados da Oficina




De: Suzana Cunha Lima
Para: ICAL - Ana Maria Maruggi

Só ontem vi que você tinha postado o lançamento de meu livro no blog. Foi muito bacana.

Minha irmã me escreveu comentando o livro e salientando que o conto que tinha gostado mais era A ÚLTIMA JOGADA.  Era um conto que eu nem ia colocar, muito particular e circunscrito o assunto, mas gosto é gosto.  Mas ela se admirou muito foi com meus contos que leu no blog. Acho que ela não sabia que eu estava tão "adiantada". Adorou o que está lá. Foi outro espanto meu. Nunca pensei que ela fosse lá "fuçar" o blog.

Eu mesma sinto que eu dei uma arrancada e tanto quando comecei a frequentar o ICAL. Foi uma bela coisa que aconteceu na minha vida. Aprendi muito com você e seu método é excelente. As companheiras são ótimas, estamos sempre agregando valor, como se diz, nas aulas.

Hoje, acho que posso reunir alguns contos e mais outros que faremos até o fim do ano e terei um bom acervo para publicar o ano que vem. A queixa de todos era de que o livro é muito pequeno, mas vou ter bastante material em 2012. Por enquanto vou me dedicar mais ao projeto do roteiro de uma peça de teatro.

Mas isto tudo era para lhe dizer que na dedicatória de meu livro AOS MEUS MESTRES, OS DO CÉU E DA TERRA, você pode se incluir aí...É e continua sendo uma grande mestra.

Abraço grande e obrigada

Suzana

Ela cita a irmã, pois sua irmã foi autora de um dos contos publicados em O Amigo Imaginário de Suzana Cunha Lima.

Sobre os elogios: Nós agradecemos pelos elogios da colega Suzana. Na verdade o maior mérito é de cada participante que se esforça e interage com a oficina. 

O resultado é bom por causa desses encontros que se tornaram verdadeiros happy hours literários entre nós.



Caminhando pelos ares - Dinah Ribeiro Amorim




CAMINHANDO PELOS ARES!
Dinah Ribeiro de Amorim

  Escutei uma conversa entre duas senhoras que me interessou muito.

  Uma delas tinha um sobrinho que caminhava à noite, dormindo, chegando até a abrir a porta de casa!

  Se o pai não o socorresse a tempo, poderia até ter sofrido algum acidente.

  Fiquei assustada. Não conseguia dormir à noite. Tentei relaxar, usar práticas de yoga, meditação, fui me acalmando, acalmando e, quando percebi, estava levantando, levitando, bem acima da cama.

  Senti vontade de sair do quarto, caminhar pelos ares, examinar a noite, voar mentalmente até onde pudesse...

  Fui saindo, atravessando o teto, e quando percebi, estava acima do telhado.
  Examinei a rua, verifiquei algumas pessoas andando, muitos bêbados caídos, casais no escuro, mas algumas residências com luz!

  Reparei que muitas pessoas não dormem bem à noite.Televisores ligados até tarde.

  Olhei para o alto e quis subir mais.

  Os lampiões da rua iluminavam a escuridão.

  As estrelas faiscando coloridas, atraiam-me para elas.

  Meu pensamento queria ir, mas o corpo fraquejou...Senti medo dos fios elétricos, atrapalhando o trajeto...

  Na hora do medo, o espírito voltou. Caí novamente na cama, numa rapidez espantosa, exausta pelo esforço.

  Nunca havia levitado antes. Já viajei em sonhos. Nada assim tão real!

  Outras pessoas já contaram que tentaram levitar, mas o que mais as impedia eram os fios elétricos. Sentiam medo de ficarem presas. Voltavam correndo...

  Não pretendo fazer isso novamente. Mesmo porque não tenho asas. Não sou como as aves do céu!

  Gostaria de conhecer melhor as estrelas, chegar mais perto da lua, quem sabe quando for só um espírito, realmente! Ficaria mais perto de Deus!


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Dia dos Pais - Dinah Ribeiro Amorim


DIA DOS PAIS
Dinah Ribeiro de Amorim



Gostaria de lembrar meu Pai escrevendo-lhe uma carta. Não sei se a receberia mas, ele gostava de receber nossas cartinhas e desenhos, em criança, guardando-os sempre, com carinho, numa carteira.

Não viveu conosco mas, guardo dele muita coisa boa: amor, preocupação, atenção, talvez por estar longe, mais que muitos pais.

Procurou sempre estar presente, cumprir seu papel, nas horas de dificuldades.

Lembro-me bem que, no momento de meu desquite, embora gostasse muito do genro que teve, não disse nada, não fez nenhuma pergunta, concordou comigo, apenas.

Como única filha mulher, dava-me um amor especial, chegando até um irmão a exclamar:”quando a Dinah chega, parece que entrou o sol!”

Sinto muito a sua falta! Sei que embora não lhe tenha dado, em vida, a atenção que merecia, dedico-lhe, agora, toda a minha lembrança e saudade.

Com a sua ausência, deixou-me um vazio que só os pais sabem preencher: amparo, dedicação, carinho, orientação, caráter, sentimentos bons, emoção.

Não deixou bens materiais mas os bens espirituais, os verdadeiros valores para se viver bem e ter paz!

Lembro-me de que quando morreu, exclamei chorando: “Foi-se a única pessoa que realmente me amou na vida!”

Claro que, hoje, mais amadurecida, desejo que esteja em bom lugar, descansando de toda essa luta diária, nos braços do Senhor, para onde também espero ir, logo que encerrar minha caminhada.

Gostaria que todos os pais fossem como o meu, um amigo fiel, merecedor de todo agradecimento, atenção e bondade dos seus filhos, enquanto estiverem conosco!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Ao pai que não tive - Suzana da Cunha Lima








Ao pai que não tive
Suzana da Cunha Lima




Pai, tu fostes tão cedo...
Será que ias ficar com o cabelo bem branquinho,
Andando de bengala, claudicante,
Talvez sisudo e um tantinho implicante?


Penso que não... Mesmo velhinho,
Ias continuar atento e curioso,
Eras cabeça aberta, meu pai
Penso que depressa desvendarias os segredos da Web.
e dominarias as manhas do computador,
a ponto de ainda ensinar aos teus netos.
E com eles disputar joguinhos e vídeo-games,
fazer amigos nas redes sociais e explorar
Como ninguém, o mundo virtual.


Mas o destino não quis assim e hoje apenas
imagino como seria,
um sonho vão que jamais se realizará.
Pai, fostes cedo demais: não chegastes sequer a ver tua menina ir se tornando moça
E desabrochar como mulher. Não me conhecestes grávida,
Carregando no ventre um neto teu, e um varão, como tanto desejavas...


Como serias como avô, meu pai? Pois tens treze netos
E são todos saudáveis, fortes e belos.
Mas foi-te roubada a alegria de vê-los nascer e crescer
Como a mim roubaram o direito de ter um pai,
Ainda tão criança...


Como faz falta um pai...
Me tornaram órfã muito cedo.
E muito cedo aprendi o que é saudade,
Pior ainda, o que é a falta sem remédio,
A dor sem compaixão, um vazio que nunca se preenche,
Uma risada que nunca mais se escuta.


Perdi aqueles braços fortes que me colocavam lá no alto.
Tão alto que eu me sentia um gigante. Lá naquele lugar,
Onde o mal nunca nos alcança, onde tudo é possível,
Onde as lágrimas se enxugam e só existem certezas e esperanças.
Aquele lugar onde apenas os pais conseguem colocar seus filhos.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Quando o real se confunde com o imaginário - Dinah Ribeiro Amorim



Quando o real se confunde com o imaginário
Dinah Ribeiro Amorim

Rafael era o ator principal da peça de teatro: O Rival!

  Casado com Manuela, na vida real, contracenavam juntos nessa peça, fazendo, por coincidência, o papel de marido. Seu rival era Osvaldo, apaixonado por Manuela.

  A peça estava  tendo grande repercussão , boas críticas e bastante público. Já em cartaz há mais de um ano.

  Numa noite, Rafael chega mais cedo, encontrando sua esposa nos braços do rival, sem ensaio nem horário de trabalho.

  Como contracenar nessa noite, quando em determinado momento, pega também os dois juntos, apanha um revólver e tenta matá-lo, errando o alvo e atingindo a empregada, de raspão? A platéia ri e a finalidade era esta mesma, torná-lo um bufão.

  Quando chega a hora do espetáculo, sua cabeça fervilha em pensamentos estranhos, revoltas, emoções negativas...

  Ao apanhar o revólver, coloca nele uma bala de verdade e, no momento da traição, atira em Osvaldo, dessa vez mirando-o certeiramente, não atingindo a empregada mas sua esposa, que estava perto, modificando a cena e tornando-a real, interpretando o papel, de fato. Pretendia realmente matar Osvaldo mas erra a pontaria e quem cai é Manuela, soltando um grito de dor!

  Os cenógrafos e o diretor, muito espantados, fecham imediatamente as cortinas e, o público, dessa vez, não ri mas, aplaude violentamente, achando esplêndido o trabalho dos atores!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Entrando no passado - Dinah Ribeiro Amorim




ENTRANDO NO PASSADO!
Dinah Ribeiro de Amorim

 
Sempre quis ser escritora! Principalmente em momentos de angústia. Não sei ainda se o sou, mas às vezes, a vontade de escrever é mais forte...

Como a maioria, comecei com uma autobiografia, saudades do que passou, ou fuga do presente, talvez.

O primeiro romance foi “As luzes do meu passado”, dedicado à infância e adolescência, aos queridos avós que já se foram, aos tios e tias e, ao sobrado, o nosso sobrado!

Retiro dele algumas passagens:

“Parada aqui em frente, num sábado, 23,30 h., dentro do carro, ouvindo chuva lá fora, contemplo você, meu sobrado.

Contemplo você, ainda não demolido, desgastado pelo tempo, fechado, coberto de plantas e mato, à espera do que irá ser feito e lembro-me do que já foi, do que fui com você, me emociono e choro.

Junto minhas lágrimas às gotas de chuva que batem no vidro e viram pingos de luz pelo reflexo dos lampiões da rua.

Sinto falta de você, ou melhor, de todos que o fizeram viver!

De repente, quando o olho, você se clareia e eu volto ao passado.

Infância, sete anos, 1º. Ano de escola, no Grupo Escolar próximo.

De avental branco, laço de fita no cabelo escorrido e amarelo, lancheira debaixo do braço, preparada pela minha avó com bolinhos ou sobras do almoço, lá vou eu, com colegas da vizinhança, sem saber o nome das letras ou o desenho delas.

Não sei se por ser sobrinha da diretora ou por capacidade própria, passei em primeiro lugar para o 2º. ano, apesar de ter entrado no final do semestre.

Deixando a escola de lado, forço um pouco mais a memória e volto para você, meu sobrado, e a vida que aí tinha.

Éramos muitos; meus avós, mamãe, três tias e tios solteiros, meus irmãos e eu.

Imagens gostosas me vêm à mente! É domingo e vovô, de pijama, passa a manhã inteira no quintal, de enxada e ancinho na mão, removendo a grama, plantando sementes, renovando a horta que mantinha com carinho, cheia de legumes e temperos.

Minha avó, na cozinha, com avental limpinho e as eternas trancinhas no cabelo, abre e estica com seu velho rolo de pau, a massa de pastel, de todos os domingos, chamando-me para ajudá-la a cortá-los com o copo e desenhá-los com o garfo.

De vez em quando, pára e, com a bengala, bate no teto para acordar as tias, que dormem até tarde no domingo. Acho muito engraçado tudo isso.

Na sala, um tio, jovem, bonito, o cobiçado pelas moças da rua, dança ao som do jazz e sapateia como ninguém, chamando-me para acompanhá-lo.

Até hoje somos grandes amigos, ele com quatro netos e eu também. Nossa diferença de idade é pouca.

Guardo com muito carinho estas lembranças e, mais crescida, mamãe arrumando um emprego melhor, fomos morar em Campos Elíseos,deixando, infelizmente, a casa dos avós.

Quando meu avô soube disso, não falou nada. Pegou seu baralho com o qual fazia “paciência” todas as tardes e, triste e silencioso, jogava e pensava. Olhei para ele e vi que uma lágrima escorria de seu rosto. Nunca o tinha visto chorar até então, fato que se repetiu quando morreu meu irmão caçula, criado totalmente por eles. Aí sim, soluçou fortemente...

Muita coisa aconteceu... Algumas boas, outras não...Tudo se foi... Paciência!

Olho pela última vez o sobrado. Há uma grande distância entre o sonho e a realidade...

Despeço-me dele porque sei que em breve irá sumir... Vou sumir um pouco também em cada martelada que levar ou em cada tijolo que cair!

De repente, ouço um leve estalar de folhas e viro-me assustada!

No topo da escada, três vultos transparentes e cheios de luz: vovô, vovó e Joãozinho, meu irmão, agora, já um homem feito! Estão sorrindo e me acenam com a mão.

Emocionada, aceno também para eles e vou embora antes que desapareçam! Não agüentaria vê-los partir novamente...Foram as minhas luzes. Fizeram parte de mim. “As luzes do meu passado”!

Lançamento da obra O Amigo Imaginário de Suzana da Cunha Lima




Foi no último sábado, dia 6 de agosto, no Clube Alto de Pinheiros onde ocupa o cargo de Diretora do Departamento Cultural, que Suzana autografou uns cem exemplares. O evento contou com encenação de um de seus contos, o que lhe rendeu caloros aplausos.
O ICAL parabeniza nossa associada Suzana da Cunha Lima por essa publicação e pelo belo evento de lançamento.


Renascendo - Daisy Daghlian




Renascendo
Daisy Daghlian

Era junho. A noite fria e estrelada, com uma lua cheia resplandecente iluminando o atelier.
  Ao redor, algumas telas inacabadas espalhados pelo piso de tábuas largas, palhetas, tubos de tinta, pincéis de vários tamanhos estavam sobre uma mesa de vidro que ficava num canto do aposento. Uma vela apagada.
 No cavalete uma tela recém iniciada, mostrava o esboço de um ser ainda não identificado. Quem observasse, poderia classificá-lo, talvez, como um fauno, um extraterrestre ou um ser humano deformado.
Maria, a pintora, envelhecida prematuramente, jazia embriagada no sofá, todo manchado de tintas. Cabelos grisalhos e desgrenhados, roupas velhas e remendadas, parecia ter desistido da vida.
Na rua, vozes de trabalhadores que retornavam para casa no fim do dia.  Ouvia-se ainda uma melodia ao longe. As janelas amplas estavam abertas.
Conforme a noite foi avançando, uma leve bruma foi tomando conta do atelier.
 Pela janela passou zumbindo uma vassoura que parecia vazia  rodopiou pelo local procurando um espaço para pousar.
Parou, subitamente, em frente à Maria, a figura de uma bruxa foi-se materializando como num quebra-cabeça, era muito velha.  Toda vestida de negro, no chapéu uma petulante pluma vermelha. Observou a mulher, penalizada. Que desperdício, pensou.
A pintora acordou como se tivesse levado um choque.
 Sóbria, recuou assustada ao ver aquela figura assustadora.
 A bruxa aproximou-se mais e mais, com sua vassoura parecia estar benzendo a mulher, esta murmurava uma prece ha muito esquecida, coisas da infância.
Em estado de graça, Maria levantou-se, pegou a palheta com as tintas, escolheu o pincel, retomou a pintura que estava no cavalete. Horas depois, terminou o quadro.
Seu auto-retrato estava na tela. Remoçada, com um sorriso radiante. Era em muitos anos, o único que tinha terminado.
Olhou agradecida para sua bem-feitora.
Amanheceu.
Na rua um forte alarido a assustou.  Bombas eram jogadas. Foi ver.
Uma greve geral tinha sido deflagrada. Policiais e grevistas se enfrentavam.
Maria pensou: A minha greve acabou.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Wagner e as mulheres - Suzana da Cunha Lima






WAGNER E AS MULHERES
Suzana da Cunha Lima

 

Wagner chegou menino em São Paulo, enganchado à saia da mãe que carregava seu irmão pequeno num braço e uma sacola no outro. Nordestina decidida, largara o marido vagabundo para trás e decidira tentar a vida na cidade grande. Só tinha um pedaço de papel com o nome e o endereço de uma prima , e o número do telefone para onde devia ligar logo que chegasse. Tudo isso era grego para uma mulher analfabeta que jamais vira um edifício na vida, quanto mais aquela floresta de cimento que se erguia ameaçadora aos seus olhos. Mas ela não era mulher de se intimidar à-toa.” Quem agüentou o Severino estes anos todos – dizia – não tem medo de mais nada”.

Achegou-se a um policial – gente de farda é autoridade, dizia - e pediu informações com o papel na mão e com a ajuda dele conseguiu falar com a prima. Gastou os últimos trocados num lanche para os meninos e se enfiou num táxi chamado pelo policial para levá-la naquele endereço.

Foi parar numa favela perto do Morumbi, onde a prima tinha um barraco e emprego numa daquelas mansões que se avistava de cima do morro e ali se ajeitaram uns tempos. Aceitou fazer serviços de faxina indicada pela prima, colocou o menino pequeno numa creche e Wagner entrou para a escola. Mas a grande mestra de dele foi a vida na favela. Viu de tudo, aprendeu o que devia e o que não devia, mas não se desviou para o tráfico de drogas como os outros meninos, porque tinha uma mãe severa e atenta e o cinto dançava em suas costas se fizesse besteira. O único desvio foi servir de pombo-correio levando e trazendo mensagens que lhe rendeu um bom dinheirinho. Mas logo que soube a mãe o tirou disso, foi morar num barraco mais distante e arranjou outro homem, que os protegeu por algum tempo.

E ela tratou de encaminhá-lo para pequenos serviços nas casas em que trabalhava. Ele regava jardins, tratava das plantas, lavava carros, engraxava sapatos e de biscates em biscates, acabou sabendo de tudo um pouco. De estudo, só conseguiu terminar a quarta série, suficiente para se virar no mundo e não passar por bobo.

Já rapaz, se enrabichou por uma mulher mais velha e bem esperta, que tirou dele o que podia e ainda o deixou à mercê de um marido truculento e vingativo que quase o matou de pancadas. Foi obrigado a fugir com a roupa do corpo, e amigos o levaram para a rodoviária, com um dinheirinho dado pela mãe e uma sacolinha com seus poucos pertences. O Ônibus ia para o Rio de Janeiro. Ele tinha indicação de serviço num edifício no bairro da Tijuca, onde ele chegou gastando os últimos trocados num táxi.

Conseguiu trabalho e uma vaga num quartinho de um conterrâneo. Era um rapaz de boa figura, falante e sedutor, parecendo de família fina, e acabou se metendo em diversas aventuras, nem todas com final feliz. Numa delas, mais uma vez, teve que fugir correndo, devido à fúria de um marido enganado. Outro emprego perdido. Ainda não tinha se dado conta que sua fraqueza era o fascínio que as mulheres exerciam sobre ele.

Resolveu tentar Copacabana. Logo arranjou trabalho, porque era habilidoso, educado e não rejeitava serviço. De serviços pequenos aqui e ali, como tinha facilidade de fazer amigos, foi lembrado para trabalhar num edifício de luxo, de frente para o mar, como faxineiro do prédio.

Deslumbramento total. Nunca tinha visto tanta mulher bonita, de biquíni, bronzeadas, naquele bamboleio de botar um homem doido. Era como tirar doce de criança, confessou a um amigo. Mas resolveu evitar mulher casada, que era quem mais o assediava, porque já estava cansado de correr para lá e para cá, perdendo emprego e tendo que recomeçar a vida. Resolveu maneirar; já tinha 35 anos, queria um bom emprego,, se fixar em algum lugar e planejar sua vida. Sonhava buscar sua mãe e irmão e constituir família, ter sua casa e seus filhos.

Trabalhava muito bem, sempre solícito e respeitoso, era muito habilidoso e como tinha algum estudo, rapidamente passou a zelador. Com isso, teve direito a um apartamento pequeno e jeitoso no edifício, tíquete refeição, carteira assinada, convênio médico. Um bom salário que servia também para compensar os aborrecimentos do cargo: condôminos sem educação que o chamavam na madrugada para abrir portão, bêbados que precisavam ser carregados, jovens que faziam barulho e outras reclamações nunca imaginadas por ele, partindo de pessoas com posses. “Dinheiro não é tudo, pensava. Lá na favela as pessoas tinham mais consideração umas com as outras”.

Mas é a vida – filosofava – enquanto olhava com o rabo do olho para a morena do quinto andar que sempre piscava para ele, ou para a madame cheia de jóias que lhe pedia discrição quando entrava com um homem que não era o marido. Praticamente ele conhecia todos que moravam ali, com seus segredos e pecados, suas mazelas e até alegrias. As duas mulheres solitárias que dividiam o apartamento do nono andar e viviam brigando por besteiras e lhe chamando como árbitro de suas desavenças. Uma viúva já velhinha que passeava no jardim com seu cachorrinho e sempre pedia sua opinião sobre qualquer coisa ou parava para lhe contar a última gracinha de seu bichinho. Um senhor estrangeiro que falava arrevezado e sempre querendo saber se ia chover ou não. Um casal ainda novo que só abria a boca para reclamar: o elevador que estava sujo, o som alto do vizinho, a impertinência do garoto do primeiro andar. A todos ele atendia com a tolerância e sabedoria que a vida tinha lhe ensinado, sem perder seu bom humor. Percebia bem a solidão dos que viviam sozinhos e se sentiam sós, pois lhe interfonavam toda hora ou lhe dirigiam a palavra por qualquer bobagem, mas era, sabia ele, para amenizar a solidão, saber-se escutado.

Uma noite ele estava cobrindo a folga do porteiro e observou a viuvinha do sexto andar chegar com um rapaz e lhe pedir para abrir o portão porque havia esquecido seu controle remoto. Era contra as normas do edifício. Ela era uma moça de uns 30 anos, bonita e elegante, que trabalhava fora e se mantinha sem ajuda de homem. Ele sempre a admirava muito e também a desejava, mas não tencionava fazer a besteira de a cortejar e acabar perdendo toda aquela regalia. Naquele momento, no entanto, como era observador, sentiu aflição nos seus olhos. O que estaria havendo? Quem era aquele sujeito mal encarado a seu lado?

A contragosto ele abriu o portão, mas ficou na cabine observando o comportamento do acompanhante da moça.

Achou um tipo suspeito e grosseiro e resolveu verificar. Pediu ao segurança para ficar um pouco na portaria enquanto ele seguia o casal. Sabia que ela morava no terceiro andar, subiu pelas escadas e chegou antes deles. Escondido na porta que dava para a escada, observou-os sair do elevador e percebeu que o homem tinha algo encostado na costela da moça e obrigou-a a abrir o apartamento e entraram. Neste meio tempo, Wagner resolveu chamar a polícia pelo celular. Aquele sujeito era claramente um malfeitor, um assaltante ou algo pior. Não ia esperar a polícia chegar. Não tinha nenhum plano ainda na cabeça, mas conhecia o crime e os malfeitores e já tinha escapado de muitas pela rapidez de raciocínio e capacidade de se sair bem em situações difíceis.

Havia um interfone em cada andar, no hall das escadas. Resolveu ligar para o apartamento de moça. Precisou tocar muitas vezes até alguém responder. Respondeu uma voz de homem, impaciente e grosseiro:

- Quem é, a esta hora?

- É o porteiro, senhor. Tem uma encomenda para d.Lúcia aqui na portaria e só entregam se ela mesma vier receber. Ela pode atender?

- Encomenda? A esta hora? – respondeu o homem já irado – não estamos esperando nada. Mande o homem embora e não nos amole mais.

- Senhor, o homem insiste para d. Lúcia vir receber. Parece coisa do estrangeiro, pelo selo e carimbos. Coisa importante, de valor. Ele diz que vai armar o maior escândalo se d. Lúcia não vier logo. Será que ela sabe do que se trata?

- A moça já disse que não sabe o que é. Mande o entregador ir embora e não nos aborreça mais senão chamo a polícia.

- Já foi chamada a polícia senhor, porque ele está aos gritos aqui embaixo, completamente fora de si e os condôminos começaram a reclamar.

- Polícia, é? – Wagner sentiu o homem hesitar um pouco. - Pois diga a polícia para prender este cretino que está perturbando a ordem. Não é para isso que ela serve?

- Tem razão senhor, mas sabe como a polícia é. Vai querer falar com d.Lúcia. A encomenda é para ela. Ela não poderia vir aqui embaixo para resolvermos isso?

- Ora, vá para aquele lugar, seu incompetente. Não temos nada a ver com isso, muito menos com um maluco que resolve encher o saco dos outros a esta hora da noite. E não me interfone mais!

- Bem, a polícia está subindo, senhor. O senhor se entende com ela aí.

Wagner sentiu o interfone ser desligado com fúria e ficou esperando que o homem abrisse a porta e tentasse fugir pela escada, exatamente onde ele estava, perto do interfone. Ouviu a porta se abrindo e o ruído de pés apressados no hall. Logo a porta do hall da escada abriu-se e Wagner fechou-a sobre ele, fazendo-o despencar pela escada.

Surpreso, o homem foi rolando aos berros, e deixou a arma cair num degrau. Wagner pegou-a rapidamente e rendeu o sujeito, que estava meio inconsciente, no primeiro patamar. Ligou pelo seu celular para a portaria, avisando que tinha chamado a polícia e estava no terceiro andar com o suspeito. D. Lúcia abriu a porta do apartamento e foi até à escada para ver o que tinha ocorrido, tentando tirar uma fita crepe da boca. Começou a chorar ao ver Wagner com a arma apontada para o bandido, machucado e furioso, sentado no patamar, sem saber bem porque estava ali, rendido com seu próprio revolver, por aquele nordestino debochado.

- Ele entrou no meu carro no sinal da pracinha e me fez entrar no prédio, sr. Wagner. Ainda bem que o senhor percebeu que tinha alguma coisa errada. Este cara trabalha na quitanda e sempre está me dando cantadas grosseiras. Não sei o que ele queria, se roubar ou me estuprar. Quando o senhor interfonou eu disse para ele que se eu não atendesse, o senhor ia subir para ver o que tinha ocorrido. Graças a Deus o senhor chegou a tempo: ele me colocou esta fita na boca e me jogou no sofá. Nem sei o que podia ter ocorrido. O senhor chamou mesmo a polícia?

-Chamei sim, quando vi vocês dois saindo do elevador e ele parecia ter uma arma na sua costela.

- Era uma arma mesmo. Céus, o homem é louco mesmo... Ah, obrigada, Wagner, você salvou minha vida - e d. Lúcia, chorosa, abraçou-se com Wagner.

- Ai meu Deus – pensou ele – Que cabelo cheiroso. Que bom que não tem marido e é tão gostosa... Parece tão carente e frágil...Ai, meu Deus, vai começar tudo outra vez....



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

ICAL FATOS E FOTOS

Escritores e Artistas integram o ativo grupo ICAL

Façamos - Elza Soares



Quem viu o filme Meia Noite em Paris do Cineasta Woody Allen, pode ver a persnagem no papel de Cole Porter cantando esta canção.

Os participantes da oficina de criação de textos tiveram a ultima aula na sala de cinema, assistindo a esse fantástico filme como válvula propulsora para que pudessem criar um conto onde a personagem voltasse ao passado.

Estamos aguardando os contos.