BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Situação difícil - Dinah Ribeiro Amorim


SITUAÇÃO DIFÍCIL!

Dinah Ribeiro de Amorim


  Professor Horácio, todo atrapalhado e sempre cheio de papéis, está saindo da escola quando é abordado por um jovem.
_ Olá, professor, não se lembra de mim?
  Meio assustado, responde:
_ Não, são tantos alunos! Confesso que é difícil guardar o rosto de todos.
  Quem será este rapaz? Pensa. Sujeito esquisito! Nem parece que foi da nossa escola!
_ Ah! O senhor não se lembra mas, eu guardei bem o seu rosto, as suas aulas, a sua matéria. Ciências, não é?
_ Não, geografia. Em que ano foi? Faz tempo que foi meu aluno?
_ Sim, já faz um tempinho. Saí da escola por sua causa! Porisso, lembro-me bem.
_ Por minha causa? Aconteceu alguma coisa?
_ Fui expulso da sua sala duas vezes. Briguei com outro colega. Na terceira, o diretor me expulsou.
_ Lamento muito mas, não estou lembrado. E agora, que faz?
  Moço estranho! Com esse palavreado! Será que foi mesmo meu aluno? Acho que está mentindo.
  _ No momento, estou parado. Vivo de bicos. Arrumo um serviço aqui, outro ali, faço o que aparece! A gente precisa estudar, né professor? Sem estudo, fica difícil. Não se arruma trabalho legal!
Sabe, a escola fez falta! Pena ter sido expulso...
  Coitado, pensa Horácio, vai ver que é verdade. Está com cara de sofrido. Deve passar uns maus bocados.
_ Por falar nisso, professor. Fico meio sem jeito de tocar no assunto mas, não daria para me arranjar uns trocados? Preciso levar um dinheirinho pra casa. Sustento mãe doente e velha. Ih!, dá um trabalho! Remédio, roupa, comida, é coisa que o senhor nem imagina!
  E essa agora! Que faço! Pensa o professor. Caio na conversa dele ou não? Quer fazer-me sentir culpa pelo ocorrido, se é verdade que foi expulso de minha aula.Dou-lhe uns trocados e ele se manda.
  Enfiou a mão no bolso, achou vinte reais e estendeu para ele.
_ Tome, espero que isto o ajude. Sou também um simples professor. Ganho pouco...
_ Muito obrigado, valeu... Foi um prazer encontrar o senhor aqui na saída da escola.Acho que se depender de mim, nenhum aluno irá brigar mais em aula. Tô indo!
  E sumiu logo de vista.
  Professor Horácio ficou com cara de bobo, sentindo-se meio enganado, não sabendo direito por que?

Fugindo sa seca - Dinah Ribeiro Amorim


FUGINDO DA SECA!
Dinah Ribeiro de Amorim

  Em pleno sertão nordestino, no polígono das secas, ainda algumas pessoas insistiam em viver. Plantar alguma coisa.
  Muitos já tinham ido, fugindo desse lugar em que nada mais brotava, nem água nos riachos havia.
  A seca já durava oito meses.
  Mulheres rezavam para chover, faziam peregrinações, cantorias e, nada, nenhuma nuvem naquele céu quente e vermelho, de solo rachado e endurecido.
  Os animais que ainda viviam, rumavam para outras regiões, procurando novas pastagens. Tinham ainda instinto de sobrevivência.
  Seu Honório, dono de terras, decide finalmente. Iria embora. Avisa a família, mulher e três filhos para arrumarem pequenas trouxas com poucos pertences. Seguiriam caminho logo cedo, em busca da capital, de serviço, de vida melhor do que aquela.
  O Senhor havia abandonado mesmo aquele lugar. Não havia mais jeito. A época das chuvas se fora para não mais voltar.
  Partiram de madrugada, com lágrimas nos olhos, deixando casa, terrenos, móveis, alguns utensílios de cozinha.
  A água escorrendo pelo rosto era o único líquido que ainda tinham.
  Caminham devagar, para quê a pressa se a jornada era longa e haveriam muitas paradas.
  Numa delas, encontram um homem velho, barbudo, de olhos negros e penetrantes. Conversa vai, conversa vem, o ancião, Herculano, pergunta-lhes para onde vão?
_ Sabemos ainda não, sinhô! Aonde tiver vida melhor que esta. Boa terra para plantá, comê, água para os homens e animais, plantação... Aqui, neste lado de Deus, não brota mais nada.
  Herculano pensa um pouco, parece falar com ele mesmo, orar talvez, compadecido da sorte de Honório e de tanta gente como ele, na mesma situação. De repente, fala:
_ Por que o amigo não planta abóboras?
_ Como, responde Honório, plantá abóboras neste terreno seco? O sinhô deve de estar louco!
_ Pois eu acho que deveria tentá de novo. O Senhor manda dizê pra plantá abóboras! Esta terra ainda vai dá alguma coisa.
  Outros retirantes se aproximam.Estavam curiosos com aquela prosa e no que iria dar.
  A mulher de Honório, Suzana, ainda crente que a sorte deles poderia mudar, convence-o a voltar. E plantar abóboras!
  Fariam uma última tentativa, teve fé nas palavras do velho, uma alma boa no meio daquela gente descrente.
  Honório voltou com a família e, ajudado pelos filhos, jogou na terra seca, sementes de abóbora.
  No fundo, era descrente mas, não custava nada fazer o gosto da mulher. Já tinham perdido tudo, mesmo.
  Os outros retirantes também voltaram e, plantaram, em suas terras, sementes de abóboras.
  Passado um tempo, olham o céu e, nada, nem sombra de chuva, nenhuma gota no sertão.
  A fome e a sede já começa a tomar conta deles. Que bobageira fora aquela? Seguir um velho desconhecido, com a cabeça já delirando devido ao calor e à idade. Que imprudência e ilusão a deles. Era a voz do coração que tinha mandado, não a voz da razão. Preparam-se novamente para partir.
  Quando olham, de manhãzinha, parece que uma nuvem, ao longe, está se aproximando.
  Seria a vista de Honório? O sol quente lhe cozinhara os miolos? Resolvem ficar mais um dia.
  De manhãzinha, novamente, aquela nuvem escura se aproximando. Todos a vêem.
  E assim, todos os dias, a nuvem escura se achegava, cada vez mais perto da plantação, até que parou em cima dela e, à noite, orvalhava a terra dura e seca.
  Ficou assim por três meses, até brotarem algumas folhas, regando, à noite, aquelas sementes de abóbora, com orvalho da madrugada.
  Depois, surgiram as flores! Lindas as flores da abóbora! Grandes, brancas, rasteiras, transformando a triste paisagem numa alegre primavera.
  Primavera no sertão árido, esquecido de Deus!
  Até que a nuvem resolveu fazer chover e molhar completamente a região.
  Muitos vieram para vê-la, não acreditando que fosse verdade.
  Pois foi,deu abóboras no sertão!
  Quando chegou a colheita, abóboras maduras, enormes, carnudas, fizeram a alegria geral, livrando-os da fome, da miséria, da  fuga daquele lugar.
  Houve festa grande! Venderam muito. Distribuíram para outros povoados aquelas abóboras deliciosas, suculentas, que nunca tinham visto igual.
  Procuraram o velho Herculano para agradecer. Ele já tinha ido. Sumira para outras paragens, levando sua fé com ele.
  Deixara saudade e a sabedoria que sempre resta uma esperança nessas regiões em que Deus parece ausente.
  A nuvem também se foi. Não voltou mais, deixando a terra úmida e o riacho cheio.
  Com o dinheiro da colheita, Honório e sua família passaram a viver melhor, conseguiram canalizar a água de grandes rios para seu riacho, não pensaram mais em mudar para a capital e abandonar as terras de origem.
  Pois é, deu abóboras no sertão! Muita gente não acredita:ah! estórias que o povo conta...

                                    
                                           

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Você me conhece? - Suzana da Cunha Lima



Você me conhece?
Suzana da Cunha Lima

 
Estava eu atravessando a rua com pressa, para ainda pegar o banco aberto. Eis que, quando consigo entrar lá, sou quase atropelada por uma senhora gordinha e sorridente que estava lá dentro e veio em minha direção me fazendo muita festa.

- Ah, quanto tempo a gente não se vê, heim? Acho que perdi seu telefone e queria tanto te encontrar...

- É mesmo? – respondi quase automaticamente, abraçando-a também, de olho no único caixa eletrônico vazio, sem me recordar absolutamente com quem eu estava falando. Mas como sou muito distraída, achei que acabaria me lembrando.

Ela se desprendeu de mim, alegre e me olhando de alto a baixo:

- O tempo não passa para você, não é? Está ótima, mulherona mesmo... Ficou parecida com Lady Gaga.- Deu uma risada e me propôs - .Escuta, não dá para a gente ir tomar um cafezinho aí no lado, no Franz Café? Tenho uma proposta para lhe fazer.

Olhei-a atentamente e nada me veio à cabeça. Ela me confundiu com alguém, coitada, mas resolvi responder com polidez.

- Hoje não é um bom dia, sabe? Tenho que pagar estas contas, e daqui vou correndo para o médico... Fui tirando os documentos da bolsa e me achegando ao caixa livre, enquanto dava um pouco de atenção à ela: - Proposta é? Acho que não vai me interessar. Estou aposentada e feliz da vida sem horários e patrão.

- Olhe, estou muito feliz por ter-lhe encontrado. Não é nada de trabalho, pelo menos não o convencional...Eu ia lá lhe propor algo careta? - ela riu e se encostou no caixa comigo, cortando totalmente minha rota de fuga..

Enquanto eu resolvia minhas contas e sacava algum dinheiro, ela parecia uma matraca no meu ouvido, falando sem parar.

- Eu me encontrei com a Baixinha outro dia, mas ela também não sabia onde você morava agora. Ela me disse que depois da separação você vendeu a casa e foi morar num flat. Ela não está nada bem, acredita que foi presa por porte? Vacilou, dá nisso... Era um tico de nada, mas não era mais primária, sabe como é... E o pior é que os filhos nem estão aí. Essa vida é madrasta mesmo – suspirou – E a Barbie, lembra dela? Sempre arrumadíssima, sempre se achando, mas totalmente brega, coitada, e agora....

- Por que coitada? Perguntei enquanto colocava os pagamentos na bolsa, tentando achar alguma saída para aquela saia justa.

- Você sabe, Julinha, a gente comentava muito sobre isso em nossos encontros. – falou ela quase impaciente - O marido resolveu sair do armário e se mandou com um rapazinho. Um vexame...

Suspirei aliviada. Bom, pelo menos eu sabia que não era a tal Julinha, nem daquela turma, mas resolvi levar aquilo adiante, por curiosidade. Daqui a pouco eu ia inventar um nome para ela.

- Eu não tenho visto ninguém de nossa turma, tem tempo. – desconversei tentando sair do Banco e pedindo a Deus que o convite para o Franz Café fosse esquecido.

- Da nossa gang, você quer dizer, não é? retrucou ela – Estamos mais velhas, mas continuamos as mesmas doidas de sempre. Questão de honra, já esqueceu? Fizemos juramento de sangue, até... Nada de caretice...Ou você já está dando para trás?

Agora a fala era mais ríspida, mas senti que ela estava me conduzindo para fora do Banco enquanto eu estava tentando furiosamente revolver meu arquivo de nomes no cérebro para descobrir quem era aquela senhora de cabelo pintado cor de beterraba e parecendo tão à vontade naqueles trajes esdrúxulos: bota alta, fuseau bem justinho, coletão. Uma figura...

Aí, algo acendeu em meu cérebro... Esta mulher quer é me assaltar e veio com esta conversa que me conhecia. Resolvi não sair do Banco e voltei para trás. Pelo menos tinha um segurança lá dentro.

- Receio que não possa mais conversar contigo, Sebá. (ri comigo mesma, pensando o que iria na cabeça dela ao ser chamada de Sebá – de Sebastiana) Lembrei que preciso pegar talão de cheque, tenho que voltar para a máquina e já estou atrasada para o médico. Até outro dia! – e deixei a porta se fechando na cara dela enquanto fui rapidamente para a máquina de cheques.

Olhei-a com o rabo dos olhos e vi-a desconcertada, na porta do Banco, sem poder entrar porque já tinha passado do horário.

– Acho que me safei desta , pensei aliviada enquanto a máquina funcionava e eu ia pegando os talões. Quando me virei para a porta, eu a vi atravessar a rua rapidamente, sem olhar para trás.

O segurança veio me perguntar: - aquela senhora lhe molestou?

- Não, respondi – acho que ela me confundiu com outra pessoa, ou então queria mesmo me assaltar. Uma conversa muito esquisita, sabe? .

- Ela é doida, não regula bem, mas não acredito que seja perigosa. – retrucou o segurança - . De vez em quando aparece por aqui. A gente fica de olho quando ela se aproxima de alguma pessoa, mas nunca vi fazer mal a ninguém. Deve ter alguma deficiência mental, quem sabe...Ou é apenas mais uma mulher solitária, sem família ou amigos que fica vagando por aí, tentando arranjar amizade.

Eu ri meio amarelo para ele enquanto guardava o talão e pensei.

- Você fica ai com suas teorias, meu chapa, porque, pelo sim pelo não, Sebá, eu estou caindo fora de sua gang – e saí do Banco rindo muito daquela situação inusitada e mais ainda do horrível apelido que eu tinha arranjado para ela. Vá que ela encarne que é a Sebastiana mesmo, pensei.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

INFÂNCIA INFELIZ - Dinah Ribeiro Amorim



INFÂNCIA INFELIZ!
(APROVEITANDO VOCABULÁRIO DADO EM SALA DE AULA)
Dinah Ribeiro de Amorim

 
Igor era uma criança órfã, criado por sua dindinha dona Iná, que era uma mulher muito irada. Sofreu uma doença grave em criança, uma espécie de febre mal curada tornando-se muito amargurada e sofrida pelo resto da vida.

Criou Igor com rigor, sem amor nem doçura.

Quando ficou rapaz, não via a hora de se libertar, sair de casa e viver sozinho. Ficar livre da mulher irritadiça, hipocondríaca, de gênio incontrolável.

Brigava com ele por tudo. Suas roupas, educação, jeito de falar, estudos e, finalmente, trabalho.

Como Igor não encontrava um emprego que compensasse sua saída de casa, ia ficando, ficando e, esperando chegar o dia em que encontraria seu nirvana, libertando-se finalmente.

Incentivado por maus amigos, começou a jogar e reparou que a vida de jogador não era tão doce como pensava. Ainda mais jogador de cartas, em lugares secretos, nas noites que se estendiam até a madrugada. Mais perdia que ganhava!

Ficou muito endividado e, como chegava tarde, perdeu também seu emprego de garçom num restaurante do bairro.

Sua vida virou um inferno e, somente a dindinha, brava, amarga, com o dedo em riste, o controlava.

Foi nessa época que conheceu Yolanda, uma cantora da noite, atraente, que se engraçou por ele.Tiveram um caso e ela engravidou, dando à luz um menino forte e bonito.

Igor, apaixonado pelo filho, resolveu mudar de vida.

Arranjou outro emprego, chefe de cozinha de um novo restaurante; foi largando o vício do jogo, aos poucos e, pagando suas dívidas, quando podia!

Dona Iná gostou de Yolanda, sua companheira, que o trouxe ao bom caminho!

Até sua doença melhorou quando conheceu a criança.

Ninava-a com doçura e amor, quando ia visitá-los. Nem parecia mais a mesma pessoa!

Como o nascimento de uma criança pode, às vezes, mudar a vida das pessoas...

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

CONTO CONTADO PARA TRAVAR LÍNGUA DOS LINGUARUDOS - Suzana da Cunha Lima


CONTO CONTADO
PARA TRAVAR LÍNGUA DOS LINGUARUDOS
Suzana da Cunha Lima

 
- Ei velho Vitor, viu a cor do pé de Pedro pedreiro, quando sem sapato ele se senta?

- Daqui eu vejo que o peito do pé de Pedro é preto, mas a sola do solado do sapato dele é mais preta ainda.

- É porque ele só calça calçado de soldado, de solado mal soldado, enquanto carrega o saco com sapo dentro, pras pretas patroas prestimosas.

- E como entram as patroas numa história de sapo, sapato e saco?

- Porque as práticas patroas pretas do preto pedreiro compram sacos com sapos e não sapos sem sacos.

- Pra que querem sapos, se sapos não se quer nem com sacos nem sem sacos?

- Querem sapos em sacos bem suturados, não sacos descosturados, pra satisfazerem a fome dos famintos filhotes das ferozes fuinhas.

- Céus, que saco de história, de saco com sapo que come filhotes de fuinhas ferozes!

- Você ainda não viu as variantes verdadeiras de várias e vorazes feras feridas focinhando fístulas fedorentas de focas...

- Nem quero ouvir...