BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL

domingo, 30 de junho de 2013

Minha blusinha adorada - Hirtis Lazarin


Minha blusinha adorada
      
          Você nem pode imaginar a felicidade que senti quando a recebi de presente da vovó.
          Até hoje, olho para aquela cadeira de balanço e vejo a vovó Emília tricotando-a.  Meu peito queima de saudade.
          Você me acompanhou nos melhores momentos de minha vida: no casamento da Luíza, na formatura do meu irmão, no dia em que conheci o Gabriel, grande amor da minha vida.
          Certa vez você quebrou aquele galho: fazia calor, eu vestia roupa vaporosa e decotada... O tempo mudou de uma hora pra outra.  O vento chegou frio e lá estava você pra me abrigar.
          O tempo passou, minhas medidas aumentaram e tenho que aposentá-la.
          Estou triste e sei que você também.  Fomos inseparáveis durante anos e anos.
          Eu a guardarei numa caixa num cantinho especial do meu armário.
          Você faz parte de mim.  Sempre que sentir saudade, lá estarei pronta pra afagá-la e sentir o cheirinho da vovó.
          Beijinhos


Hirtis Lazarin

domingo, 23 de junho de 2013

Nossa turma está mais do que coesa!

É uma delícia dividir com vocês minhas tardes de Oficina!










AINDA HÁ TEMPO PARA AMAR - CONTO COLETIVO DO ICAL 2011

Ainda há tempo para amar
Autores:
Suzana da Cunha Lima - Dinah Ribeiro Amorim e outros alunos da Oficina de Textos do ICAL.



Uma brisa fresca e ligeira tocou os cabelos castanhos da menina enquanto compenetrada lia uma história de amor – Que gostoso! – pensou ela.

Era Julho e as férias a levaram para a distante cidade de Lapinha no estado de Minas. Sua tia a convidara para ajudá-la com o complicado computador que adquirira há quase seis meses e até então jazia empoeirado no quartinho de coisas daquela antiga casa de fazenda – Esse negócio é muito complicado de lidar com ele! – dizia Dona Hermínia para Angela quando a levou para sua cidade.

A garota tinha habilidade com a web e com a manutenção de seu próprio computador, portanto foi muito fácil a montagem do equipamento. Aproveitou sua estada e pode dar algumas dicas para a tia solteira que sonhava com um namorado – Sabe a filha da Dona Augusta, aquela meio vesguinha que veio aqui ontem à tarde? Pois então ela está casada com um marido ótimo, menina. E eles se conheceram sabe onde? Na INTERNET. Isso mesmo, eles se conheceram numa sala de bate-papo, eu até anotei na minha cadernetinha de assuntos importantes. Eles namoraram quase um ano, trocaram fotos e correspondências, e somente depois ele veio conhecer a família dela, nem ela conhecia o noivo. E se casaram aqui, precisava ver a festa, uma coisa de louco, acho que a cidade inteira estava nela. Eu mesma fui convidada. Ela estava tão linda, parecia até que o pequeno defeito na vista tinha sido reparado. O amor faz coisas incríveis! - contava radiante para a sobrinha.

Angela aproveitou para dar alguns conselhos sobre namorar pessoas que não se vê, sobre o perigo em fornecer dados pessoais para estranhos, e marcar encontros em lugares ermos. A tia ouviu atenta mas balancou a cabeca negativamente, dizendo que era solteira de tanta cautela que teve na vida - Agora chega! – disse sorrindo.

Era uma quinta feira preguiçosa já com o sol se pondo atrás da mangueira e a menina no caramanchão com os olhos enfiados nas últimas páginas de seu livro, quando Dona Herminia gritou lá de dentro: Angela vem aqui um pouquiiinho!.


Ah não, não agora que a história está no fim – pensou respondendo: Espera um pouco. Vou já já.


Ângela mesmo contrariada por ter sido interrompida em sua leitura, correu ao encontro de sua tia para ver o que estava causando aquela gritaria toda!

Ficou aliviada ao constatar que se tratava de uma resposta de um internauta português, convidando-a para se corresponderem . Mandava-lhe algumas informações sobre ele, morava numa cidade histórica: Évora, tombada como patrimônio cultural; era um escritor muito interessado em conhecer o Brasil, país que ainda não visitara mas que já amava muito, através de tudo que lia à respeito. Ele dizia que achava os brasileiros muito alegres, musicais, simpáticos, e brincalhões! Trabalhava mesmo como funcionário público, mas nas horas de folga, escrevia histórias num computador.

Sua Tia não cabia em si de tão entusiasmada e queria responder logo, por isso, precisava de sua orientação. 


Mesmo gostando do perfil do candidato, Ângela desconfiava, lá por dentro, que aquilo não tinha muito futuro. Imagine... a tia sonhadora, morando no Brasil, numa cidadezinha perdida de Minas e o outro, já experiente na Internet, um oceano a separá-los. Mas não queria estragar o prazer dela.. Era bom vê-la animada, olhos brilhantes, como se um príncipe encantado estivesse ali mesmo, batendo à sua porta.


- Bom, vamos lá, tia Hermínia. Ele contou um pouco como é a vida dele lá. Agora é sua vez. Que tal escrever um pouco como é sua vidinha aqui? Garanto que ele não sabe nada do Brasil, a não ser o que lê, vê e escuta pela mídia. E isso quer dizer Carnaval, samba, alegria, talvez mulheres lindas na praia, de biquini. Vamos fazer ele cair em sua realidade, para ver se o interesse dele é genuíno.


- Mas minha vida aqui é muito sem graça, querida. Ele vai me achar uma roceira boba, afinal, ele vive numa cidade que é patrimônio cultural, é escritor...


-Tia, não vale a pena iniciar uma correspondência com mentiras. Sua vida aqui pode lhe parecer tola, mas para quem mora noutro país, com outra cultura, é muito mais interessante do que pensa.


Lembra aquele livro Minha vida de menina, de Helena Morley, uma escritora mineira, um sucesso enorme no mundo? Até um filme fizeram baseado no livro. Então, era uma espécie de diário de uma meninota, narrando seu quotidiano muito simples, seus sonhos, em Diamantina, final do século 19. Que grandes coisas poderiam estar acontecendo por lá? Imagine... .Então, tia, conte para ele como são as festas juninas aqui, por exemplo, da delícia que é um pão de queijo, dos doces de dona Evinha, da procissão  do Santíssimo... Garanto que ele vai se encantar. 
 
 
 
 
Herminia pôs se a pensar na grandeza da vida, e sua mente a levava para todos os mais belos lugares do mundo, que ficavam ali mesmo na vizinhança de sua casa, na redondeza de Lapinha. Tanta beleza havia na cidade, nas calçadas de pedras desencontradas, nas paredes caiadas, nas telhas francêsas, nas festas, nas pessoas amistosas, nos sorrisos, na plantação que se via desde a rua de terra batida. Nas tábuas amontoadas que formavam a ponte. Tantas delícias para saborear, comidas típicas, galinhada caipira, peixe fresco empanado, doces inventados, frutas guardadas em compotas, pães redondos com ervas finas. Beijos roubados, camuflados, escondidos, disfarçados, todos apaixonados. Tantos sonhos já amornaram a cabeça de Hermínia nas noites solitárias em sua cama de lençóis alvos. Tanto tinha para contar para aquele admirador distante que desejava conhecê-la. Herminia pensou em dizer que já se casou muitas vêzes, pelo uma vez por ano, nas festas juninas, mas temia que ele não entendesse a brincadeira. temia que ele não brincasse.
 
Angela interrompeu seus pensamentos lembrando-a de contar sobre seu jardim tão bonito que ela mesma fez desde a primeira pá de terra. Hermínia assentiu com a cabeça, e começou a digitar:
 
"Como vai meu amigo? Eu aqui moro numa cidade pacata cheia de beleza e frescor, que bem merecia também ser Patrimônio de toda a Humanidade" - e continuou - " Aqui sobra terra, e comida, sorriso e saúde. O tempo não passa embora estejamos sempre ocupados. Tenho quintal que virou jardim de flores perfumadas, todas plantadas por minhas mãos. Minha casa tem dezenas de redes espalhadas para qualquer um descansar. Aqui faz muito calor, mas não incomoda, pois a cidade está num vale de águas e mata.  Gosto da vida quando ela é boa, e da minha gosto muito. Minha sobrinha Angela veio passar ferias aqui em casa e  me ensina usar esta novidade tecnológica, porém vejo que você é expert no uso do equipamento.".
 
Nesse instante um luz piscante avisava de arquivo enviado pelo MSN. Herminia gritou:
 
 - Vem cá Angelita, o que é isso aqui que pisca sem parar? Será que já quebrei o negócio? Vem logo minha filha.
 
Angela chegou às pressas mas com o livro ainda aberto na frente dos olhos. "Calma aí Tia, é só um arquivo que ele mandou. Clica no arquivo que vai abrir"
 
E estampou-se diante dos olhos de Hermínia um rosto másculo de pele morena brilhosa, cabelos levemente grisalhos molhados que ainda escorriam, olhos serenos quase convidativos, sorriso pequeno, corpo úmido de quem acabara de sair de um mergulho na piscina que aparecia ao fundo. A sunga estreita moldava o corpo do homem que parecia querer demonstrar prazer de viver. Ele não era bonito, mas parecia fluir sentimentos. Herminia ficou estática admirando o amigo, até que a voz de Angela a trouxe de volta "O que achou dele Tia?". A Tia não sabia se tinha que "achar" alguma coisa, mas permaneceu de olhos vincados na fotografia que ocupava toda sua tela. "Volta lá o MSN Tia, ele deve estar perguntando alguma coisa sobre a foto". E havia muitas perguntas, algumas pareciam vir de alguém confiante de que a conquistaria, outras de um homem carente. Herminia então respondeu que recebera o arquivo, e que o lugar onde foi tirada a foto era muito bonito, que havia uma piscina de águas bem azuis com o sol refletindo nelas e que dava uma boa sensação de paz, e ao fundo dela uma mangueira espalhava a copa quase que atrapalhando o banho de sol. Sobre o homem, ela disse que parecia saudável, tinha olhar sereno e sorriso triste. É voce? - perguntou ela?
 
A expectativa de resposta é quebrada pelo curto circuito ocorrido na central de energia elétrica, deixando a cidade num blecaute total.


Aquela noite foi terrível para Herminia que delirava à luz de vela numa incontrolável ansiedade.


Era preciso saber mais sobre aquele homem que tocara tão profundamente seus sentimentos.


Noite de insônia...Perguntas sem respostas...Restavam apenas as hipóteses.


Enquanto o coração se enchia de sonhos, os pensamentos ferviam em sua cabeça como chaleira em ebulição, numa mistura de preocupação entre as observações de Ângela quanto ao perigo da internet e o semblante da foto tão expressivo, acompanhada é claro, pela sensualidade da pequena sunga.


Pesava-lhe o fardo em viver numa cidade desprovida de homens da sua idade. Ser bela não era atributo para ser feliz. Era preciso ser amada - pensava ela. A exemplo de sua amiga, estava disposta a correr risco, buscando na internet a sonhada felicidade.


A energia elétrica foi restaurada com os primeiros raios de sol. Ansiosa, andava de um lado para outro, esperando a sobrinha acordar, já que ela pouco sabia manusear o computador. Ângela acabou sendo o cupido da tia, embora tão criança...


O bate papo com o internauta português, tomou uma dimensão tão grande, que o rapaz já fazia planos para conhece-la pessoalmente. Externava o desejo de deitar numa rede dentre as tantas que haviam em sua casa, e poder escrever seus contos visualizando o vale beirando a mata. O romântico cenário descrito por Herminia, também o levou a sonhar no outro lado do Oceano. 






Mas os emails iam chegando às dezenas, sem parar eles lotavam a caixa postal de Herminia. Nem todos vinham  de Évora. Aliás, a maioria não era de lá. E foi assim que a tia de Angela percebeu a grandiosidade daquele cenário virtual. Havia homens do mundo inteiro tentando falar com ela,  queriam saber da "sonhadora" habitante da brasileira Lapinha. Ela chegou a pensar " como podia haver solitário no mundo, se existia a internet?" . Aventurou a abrir cada mensagem, e deliciar-se com tantos candidatos. Não queria esquecer o português, não. Mas precisa saber até onde a levava aquele horizonte tão fantástico.

Uma nova e excitante brisa soprou os ouvidos de Hermínia quando abriu a mensagem de Lupercio, um fazendeiro brasileiro do Mato Grosso. Ele registrou que era solteiro, embora já tivesse passado dos cinquenta anos, mas que tinha muita vitalidade e a cabeça encharcada de bons sonhos. Disse não ter hábito de usar a internet, e pediu antecipadas desculpas por qualquer erro até na digitação.

Tinha um formato sério e respeitoso de falar, usava letras maiúsculas e minúsculas, pontuava e acentuava com correção, não fazia uso de gírias ou linguagem internáutica, como a que Angela a havia ensinado usar. Os textos de Lupercio pareciam estar em uma carta manuscrita que chegava pelas mãos do carteiro Juca. Todas as frases pareciam vir de uma boca sorridente. Herminia tentou imaginá-lo e então ela  pediu que ele  lhe mandasse uma foto. Ele respondeu, demonstrando contrariedade,  que isso não seria possível, pois ainda não aprendera a fazê-lo. Mas assegurou-lhe que era um homem bonito, de poucos namoros, de cabelos grisalhos, e riu ao dizer que todos os dentes eram naturais. Herminia riu disso também. Ele continuou dizendo que nasceu na fazenda que era de seu avô, depois de seu pai, e agora dele. Que viajava às vezes,  mas o trabalho o obrigava a permanecer em suas terras. Que o lugar era um recanto especial do Mato Grasso, bem perto de Bonito, e quis saber se ela conhecia  a região...

Hermínia achou estranho Lupercio não saber enviar foto, já que parecia bem despachado pela conversa no e-mail. Ora, ela também pouco entendia de computador, porém, com as lições de Ângela, já estava se saindo muito bem naquela correspondência pela Internet. Por que ele não fazia o mesmo, já que praticamente todos os correspondentes gostavam de mandar foto e também de receber? E também não entendeu a razão da contrariedade dele, já que lhe assegurava ser um homem bonito e com bastante vitalidade. Em todo caso resolveu responder.

- Caro Lupercio. Não conheço Mato Grosso, mas já ouvi falar bastante de Bonito, do Pantanal e das belezas aí existentes. É o maior ecossistema do planeta, a terra das águas cristalinas, uma natureza soberba. Onde moro é bastante diferente, mas igualmente belo. Aqui é bem montanhoso, estamos no sopé da Serra do Cipó. Temos dois rios separados por duas montanhas e uma grande represa e nossa região é rica em cachoeiras, fadada ao turismo. Mas ainda não temo infraestrutura para isso, estamos começando. Nosso atual prefeito é muito voltado para o ecoturismo e está focado em planejar o turismo de tal modo que não agrida a natureza.


Enquanto isso vamos levando nossa vidinha, que é muito boa e saudável. Sou professora aposentada, como lhe disse, mas trabalho na escola local como coordenadora pedagógica. Não gosto de ficar parada e é uma ocupação muito prazerosa, conheço quase todo mundo e muitas das crianças são filhas de ex-alunos meus.


Ah, antes que me esqueça, minha sobrinha que entende muito de computador, diz que é muito fácil enviar imagens, fotos, desenhos, o que se quiser, pelo computador. Eu estou aprendendo com ela. Quem sabe até lá eu aprendo direitinho e você também e poderemos trocar fotos?


Bem Lupércio, fale um pouquinho de seu trabalho. Qual é a atividade principal de sua fazenda? É perto de alguma cidade conhecida? Você costuma viajar para os grandes centros? Tem algum objetivo maior na vida que ainda não conquistou? Escreva um pouquinho sobre si, seus planos e sonhos, OK?


Aguardo notícias, um grande abraço, Hermínia.

 Depois deste e.mail tão longo, Hermínia foi preparar um chá e chamou Ângela que ainda estava às voltas com seu livro.



- Venha tomar um chá, menina. Hoje eu fiz um bolo de laranja que está um desacato de tão bom. Está esfriando, é bom você sair desta rede e entrar em casa.


Ângela veio correndo, estava com fome e começando a ficar com frio. Quando estava entrando no alpendre da casa, notou um senhor bem apessoado tocando a campainha lá no portão.


- Tia, gritou para a cozinha. Tem uma pessoa lá na frente!


- Mande entrar, Ângela. – disse Hermínia, e esticou o pescoço para a janela para ver quem era.


E quando olhou, seu coração começou a bater muito depressa, tirou rápido o avental, ajeitou os cabelos quando passou no espelho da entrada e foi abrir a porta para o visitante.


Ângela se espantou ao olhar a tia ruborizada e ao mesmo tempo faceira, enquanto fazia aquele senhor alto e grisalho, de botas e chapéu, entrar na sala.



Ângela olhava boquiaberta para aquela cena inusitada. Nunca soubera de caso algum de sua tia, nem namorado, nem candidato, nem nenhum apaixonado ou admirador antigo. E agora, lá estava Hermínia conduzindo aquele senhor bem apanhado para a sala de visitas, visivelmente encantada.

- Ângela, pediu Hermínia – traga uma bandeja com o café e o bolo para o senhor Carlos. Ele é velho conhecido, sabe, e há mais de 25 anos que não nos víamos, veja só. Nem sei como ele me encontrou aqui, nesta lonjura.  Nós nos conhecemos quando eu ainda morava em Belo Horizonte.

- Muito prazer - disse Ângela, cumprimentando o Carlos - Eu sou  sobrinha que está passando as férias aqui.

- Muito bonita sua sobrinha, Herminia. – disse o senhor sorrindo bem à vontade. -  Por que não vamos tomar este café lá na copa? Assim não precisa ninguém arrumar bandeja.  A gente  senta lá na mesa da cozinha, como sempre fazíamos, lembra-se? E com certeza o bolo deve ser aquela receita maravilhosa da mãe de Hermínia, não tem outro  mais gostoso em toda  Minas Gerais.

- Vamos então, concordou Hermínia.  E aí você vai me explicar de que modo me achou aqui.

Sentaram-se à mesa e a prosa foi fluindo, regada a café quentinho e bolo de fubá.

- Olhe Hermínia, disse Carlos – depois que nos separamos, logo depois de nossa formatura, fiquei tão triste que resolvi sair de Belo Horizonte.  Sempre gostei do campo e fui trabalhar para um tio numa fazenda enorme que ele tinha no Mato Grosso de agricultura e pecuária. Fiquei como braço direito dele, coordenando tudo, o trabalho dos peões, os suprimentos, enfim, a rotina da fazenda. Até ele morrer e me deixar como herdeiro, já que era já viúvo e não tinha filhos.  Acabei casando por lá, e tenho um rapaz de 20 anos que está se formando em agronomia em Viçosa, louco para trabalhar comigo na fazenda.

- Você é casado, então? – perguntou Hermínia meio desconsolada.

- Sou viúvo, minha mulher morreu de parto e nem a criança se salvou. Foi uma época muito difícil em minha vida, nem gosto de pensar nisso - Carlos engasgou um pouco, entristecido com a lembrança, mas logo retomou a conversa.

- Não casou depois? - perguntou Ângela, já interessada na vida amorosa daquele senhor que bem podia ser um pretendente para a tia.

- Não – respondeu Carlos, com um sorriso matreiro – Casar é coisa séria e por lá só tem umas bugrinhas que não servem para ser esposa da gente.  Tive umas namoradas em Belo Horizonte, mas nenhuma se dispôs a viver comigo na fazenda.  Aí, alguém me falou de Hermínia, um colega de colégio, que me encontrei, casualmente, numa feira de gado em Barretos.

- Quem era, Carlos? – perguntou Hermínia curiosa.

- O Robertão, aquele cara gordo e engraçado que só vivia fazendo piada.

- O Robertão? Espantou-se Hermínia – Ele sempre disse que queria ser dentista. O que estava fazendo numa feira de gado?

- Trabalhando para o sogro, que é grande criador de gado. Sabe como é a vida.

- Ah - lembrou-se Hermínia – Eu o encontrei  uma vez que fui a Belo Horizonte, tem dois anos, para o casamento de Martinha, minha sobrinha mais velha.  Ele é aparentado com o noivo dela. Que coisa, hein? Foi o Robertão que te deu notícias minhas, então?

- Foi e fiquei muito animado.  Ele me deu seu  endereço mas só pude vir agora, tinha muitas coisas para ajeitar antes: a morte de meu tio, o inventário, meu filho na Faculdade, enfim, tantas providências que um dia eu larguei tudo e resolvi chegar assim, de improviso.  A gente fica preso a estas coisinhas da vida e esquece de viver. 

  Quando Carlos, seu antigo amigo, fazendeiro em Mato Grosso, foi-se embora, Tia Hermínia, contente, pôs-se a pensar no rumo novo que sua vida estava tomando. Graças à vinda de sua sobrinha Ângela e a Internet.

  Em Lapinha, vivia calmamente, em paz, mas sem novidades. Uma vida muito insípida.

  De repente, quanta coisa boa estava acontecendo: novos amigos interessados em conversar com ela, a amizade com o português simpático que já queria até conhecê-la e, agora, o antigo colega que veio visitá-la de tão longe, viúvo, parecendo muito interessado em reatar seu relacionamento.

  Realmente, as coisas estavam mudando, acontecendo...

  Todos os dias, recebia notícias de Antonio, contando sobre seu trabalho, sua vida de escritor em Évora, querendo saber também sobre suas atividades, sobre Minas Gerais, as características do tipo mineiro. Já ouvira falar sobre Ouro Preto, cidade histórica, também tombada e tinha grande curiosidade sobre ela.

  O rumo das conversas diárias de Tia Hermínia a estavam obrigando a estudar, pesquisar, o que a agradava muito e tomava bastante seu tempo. Esquecia-se até das tarefas diárias, que realizava às pressas, correndo para o computador.

  Carlos, o fazendeiro, voltava de vez em quando, visitando-a e convidando-a para ir à sua fazenda.

  Achava-o agradável, educado e simpático, não fazendo comparações entre seus novos amigos.

  Estava deixando de ter confusões emocionais. Suas conversas com o português eram mais intelectuais, sobre história, muito interessantes!

  Com Carlos, era uma amizade  real, verdadeira, possível de se concretizar em algo sério.

Deixaria as coisas acontecerem... 

Estava na hora de Ângela voltar para a casa. Férias compridas, inesquecíveis. Em três meses tinha ensinado a tia a mexer no computador, entrar num site de relacionamentos e garimpar possíveis candidatos ao coração dela, e ainda  por cima, apareceu um pretendente em carne e osso...

Mas seu regresso deixou a tia muito triste, sem pai nem mãe, como dizem. Ajudou a sobrinha a fazer as malas, empacotou os potes de geleia que tinha feito para sua irmã, e pediu ao seu vizinho para levá-las à rodoviária. Na volta, Hermínia veio chorosa, contando para João Alberto como tinham sido maravilhosos os meses passados com a sobrinha.
Para consolá-la um pouco, ele parou numa lanchonete recém-aberta e ofereceu-lhe um café com pamonha fresquinha, especialidade da casa.
- Nem sabia desta casa aqui e que pamonha gostosa, comentou ela, olhando mais atentamente para seu vizinho, como se apenas naquele momento o tivesse visto: um senhor forte, pele tisnada pelo sol, cabelos já grisalhando, um sorriso bonito beirando à ironia.
-  Tem um mês mais ou menos, Hermínia, mas você não parecia interessada em mais nada, a não ser nas conversas virtuais. Os amigos reais foram ignorados.  – provocou ele enquanto sorvia o café quentinho, deliciado.
- Não, não, não ignoro meus amigos – respondeu ela meio intrigada -. Mas como você sabe das conversas virtuais, João Alberto?
- Eu lhe via grudada no computador quando ia para o centro e nem uma vez você levantou os olhos para olhar quem passava em frente na rua.
João Alberto estava a provocá-la com seu jeito direto e franco. Mas era uma provocação de sedução, pelo menos Hermínia sentiu assim. Olhou-o pensativo, avaliando se sua percepção estava correta:
- Tem razão, amigo.  Mas é raro vê-lo dirigir esta pick-up, é sempre Tinhão quem usa este carro.  Você não estava fazendo um curso qualquer em B.Horizonte?
Ele sorriu:
- Ah, lembrou-se, não é? Não é um curso qualquer. Fui defender minha tese de mestrado.
- Mestrado? Tese? Qual o assunto? – perguntou Hermínia meio espantada pela sua ignorância e já subitamente interessada. No seu entender, João Alberto era um dos muitos fazendeiros rústicos do lugar, sem nenhuma tinta cultural.
Um outro olhar para os substitutos viáveis dos agro-tóxicos – respondeu ele soltando as palavras devagar. -  Sou agrônomo, caso não saiba.
- Agrônomo? Nossa, João Alberto, me desculpe.  A gente tem se visto tão pouco, não é?
- Quase nada, cara amiga. Mas pretendo reparar esta falha logo. Vamos esquecer por algum tempo estas conversinhas  de computador que não levam a nada? Estou lhe convidando para ir comigo, agora, no sábado, na Casa de Dorotéia: vai ter um conjunto muito bom tocando lá. Você gostava de dançar, pelo que me lembro.


 - Hermínia olhou-o meio surpresa, seus olhos azuis brilhando como duas contas.  Não sabia como estava encantadora diante de seu vizinho;
- Como você se lembrou disso, João Alberto? Tem mais de três anos que não saio para dançar.
- Três anos! O tempo corre mesmo...admirou-se ele. - Naquela época você ia muito a Belo Horizonte, sua mãe estava doente. Quantas vezes eu lhe levei à rodoviária? Você ficou muito abalada com a doença dela e depois, com o falecimento.
- Foram tempos duros mesmo. Acho que não fui boa vizinha e você sempre  tão prestativo... Recorda a última vez que vim chorando o tempo todo, quando cheguei aqui depois do enterro?  Ah, João Alberto, você me deu um apoio enorme, mas eu parecia alheia a tudo, morri um pouco por dentro também. – suspirou Hermínia.
- Foi mesmo, menina.  Você não queria saber de nada, trancou-se em si mesma e depois de umas semanas resolveu fazer um jardim, assim do nada! Foi como uma compulsão, uma maneira de jogar no trabalho pesado todo seu sofrimento. – ele falava pensativo, como a consolar, sua mão pousando na dela, distraído, enquanto lembrava daquela época difícil.
- Tem razão – concordou Hermínia, estremecendo ao toque leve da mão dele - Joguei toda minha energia nas flores, esqueci meus planos, projetos, tudo enfim. Eu estava fora de mim, mas hoje, após quase quatro anos, posso recordar de tudo com tranqüilidade. A dor se esgotou, ficou a saudade, uma boa saudade. – sorriu para ele, faceira. -  E você sempre ao meu lado, insistindo que eu saísse de minha concha, me convidando para sair, rever os amigos... e eu não queria nada, acho que fiquei muito chata naqueles tempos.
- Com certeza, d.Hermínia, ficou mesmo – retrucou  João Alberto, feliz por vê-la animada outra vez. Quantos rapazes queriam sair com você naquele tempo e você dispensava todos... A mim também. Apesar do tempo que passamos juntos na fazenda de meu tio, lembra? Chegamos até a engatar um namoro, mas logo sua mãe adoeceu e você perdeu o contato com seu mundo aqui. Mas eu não desisti de você não, apesar de todos os foras que me deu... – ele tomou um gole de café, rindo  -  Eu queria tanto fazer reviver sua risada gostosa, ver seus olhos brilharem outra vez...
- Que bom que não desistiu,  João Alberto. – respondeu ela, faceira. Eu me refugiei primeiro no meu jardim e depois no computador, nestes últimos tempos.  Visitei o mundo nesta ilha da Fantasia que se chama Internet. Não percebi como aqui mesmo, nesta pequena terra onde moramos, a gente pode encontrar a felicidade.

Ele segurou-lhe as mãos, olhou-a docemente e falou:
- Já encontrou e não vamos mais perder tempo não, Hermínia. Você conheceu outras realidades por via virtual. Mas esse mundo não é o mundo real, o nosso mundo.  E  se parar para olhar para mim, vai ver que sou de carne e osso, a conheço bem e a amo. Sempre amei.  Não vou deixar você escapar de mim outra vez, ah, não vou mesmo...
E inclinou-se para ela, tomou-lhe o rosto entre as mãos e a beijou lentamente, num beijo que parecia que não ia acabar mais.
Hermínia arrepiou-se e corou, sentindo pela primeira vez o mundo latejar dentro de seu coração, um mundo feliz onde não havia lugar mais para tristeza.  Algum tempo depois Ângela recebeu um e.mail dela:

- Minha querida menina, veja como é a vida...  Eu procurei em tantos lugares, até em Portugal, lembra? E achei o meu companheiro  aqui mesmo, em minha cidade.  Aliás, ele que me achou, pois somos vizinhos há muito tempo.  Mas foi muito bom você ter me ensinado a mexer no computador, abrindo um mundo novo e maravilhoso para mim. Sempre vou lhe ser grata e espero ansiosa as próximas férias para você voltar para cá e conhecer o novo tio que arrumei para você.

Beijos saudosos de sua tia Hermínia




sábado, 22 de junho de 2013

UM TIPO CAIPIRA MESMO! - Dinah Ribeiro de Amorim


UM TIPO CAIPIRA MESMO!
Dinah Ribeiro de Amorim

Chico Bento é um caipira da roça, genuíno. Nunca morou em outro lugar. Lerdo como uma mula, barrigudo, narigudo, olhos pequenos e curiosos. Seu cabelo desajeitado, vive coçando, principalmente quando entra em pensamento confuso. Acho que nunca usou um pente de verdade. Só água, de vez em quando.

Botas velhas e calças curtas, seguras por um suspensório, coloca um chapéu de palha na cabeça quando o sol é muito forte. De manhãzinha, percorre o sitio, herdado do pai, para ver a plantação. Não gosta muito da lida no campo, seu negócio mesmo é roncar na rede durante a tarde, quando dá um sorriso sem dentes, muito satisfeito.

É casado com Nha Zita, possuindo dois filhos, exatamente iguais a ele. Não vão à escola do povoado, brincam um pouco e dormem muito. Cabe à mãe o trabalho da casa e o plantio  de alguns legumes e verduras para o sustento da família.

Nha Zita já desistiu de se queixar ao marido o excesso de trabalho. (Neste local melhor seria um ponto em vez de vírgula. E deveria ser MAS em vez de POIS). Mas,  Chico Bento  nasceu assim, um molenga, sem iniciativa, muito feliz como é, sem pretender mudar.

Gosta da vida do campo para dormir, sonhar, olhar o sol de dia,  e as estrelas à noite quando o céu fica cheio de luzes! Barulhos de sapos coaxando, galinhas cacarejando, galos cantando quando elas botam ovos, plantas nascendo, cachorros latindo ao longe, são murmúrios relaxantes aos seus ouvidos, tão acostumados a eles.

Numa manhã chuvosa, passa um vaqueiro pelo portão do sítio e vendo muita terra para arar, pergunta a Chico Bento se não queria um auxiliar para o serviço.

Ele coça a cabeça, pensativo, achando difícil responder.  Mas, Nha Zita, mais que depressa, o convence a dizer sim.

O vaqueiro, chamado Tibúrcio, cabra macho, forte como um touro, trabalhador, além de arar a terra, começa a botar olhos cobiçosos em Nha Zita que, espantada, não se faz de rogada, sentindo-se atraída por ele.

Acabam fugindo, deixando Chico Bento e os filhos para trás.

Sozinho, quando se dá conta do acontecido, ele olha bem para os filhos, coça muito a cabeça, suspende as calças que estavam escorregando e faz cara de bravo, de quem não vai deixar barata esta história. Mas, aos poucos, vê sua rede macia, seu sítio ensolarado, os brinquedos prediletos dos filhos: gangorra e balanço na árvore; desiste de tomar qualquer iniciativa. Deita-se gostosamente na rede, puxa um cigarrinho de palha que fumava de vez em quando, manda os filhos brincarem e dorme tranquilamente.

  Amanhã pensaria no que fazer. Êta Chico Bento, lerdo até para sofrer!                                                                   


Querida carteira de dinheiro - Jorge da Paixão

Querida carteira de dinheiro
Jorge da Paixão

Minha querida e inseparável carteira de dinheiro, você que a muito tempo me atura, mesmo no tempo que estou endinheirado ou não ! Sempre me foi fiel, guardando além do dinheiro, meus documentos, cartões de créditos, débitos, passes de ônibus e de metrô. Através desta missiva quero lhe dizer que lhe amo muito. Mas, temo pelo seu futuro, pois seu estado de  sobrevivência é muito calamitoso, o que me preocupa bastante vendo as suas partes plásticas rasgando as de couro descosturando e o seu zíper encrencando.

Nunca na minha vida pensei em lhe trair, mas, quando passo em frente das  vitrines  e vejo outras carteiras bem novinhas  e cheirosas , sinto muita vontade  de lhe jogar no lixo.

                              Aceite um beijo deste seu dono


Meu velho amigo - Paulo Rogério Pires de Miranda




Meu velho amigo
Paulo Rogério Pires de Miranda


Olá meu velho amigo, meu abrigo que tanto fez por mim.

Antes que não mais te veja, porque chegou a tua hora de ser descartado, escrevo esta para te agradecer. Sei agradecer àqueles aos quais muito devo.

Durante muitos anos fostes a minha grande paixão. Em dias de sol me protegias, em dias de frio me aquecias. Contigo eu ganhava destaque nas ruas, acrescentavas-me charme.

Teu jeitão de malandro muito me ajudou em minhas conquistas, porque me davas a aparência de um romântico sedutor, é desse tipo que elas gostam.

Quantas não foram as gafieiras que juntos frequentamos nas quais éramos a bola da vez!

Teu jeitão maroto e abusado deu a mim aquela segurança para investir com sucesso nas minhas conquistas amorosas. Penso e tenho como certo de que você é que fazia sucesso, não eu.

Agora lançar-te-ei fora, desfazendo-me de ti, meu velho companheiro. Mas, saiba que da minha cabeça jamais sairás, porque dela fizestes o teu trono, lá reinastes por largo tempo e reinarás para sempre.

Jamais me esquecerei de ti meu querido chapéu de carandá.



quarta-feira, 19 de junho de 2013

ELA FOI ACARICIADA PELO SABOR CROMÁTICO DE UMA FRAGRÂNCIA MUSICAL - Dinah Ribeiro de Amorim


ELA FOI ACARICIADA PELO SABOR CROMÁTICO DE UMA FRAGRÂNCIA MUSICAL.
Dinah Ribeiro de Amorim

  Entrou estremecida pela ausência de brilho do aposento em que todos dormiam, sob aconchego de seus cobertores, interrompidos, às vezes, com gemidos assustadores. Sonolentos, abriam levemente os olhos e voltavam a dormir, descansando corpos cansados em camas estreitas, fincadas no chão frio da noite chuvosa.

  Desceu vagarosamente as escadas tilintantes que gemiam com seus passos em chinelos duros.  Alcançou o térreo e olhou pela vidraça embaçada a ver se distinguia barulhos levantados na noite escura.

  Nada que pudesse lhe atiçar os nervos e a astuta curiosidade que a perseguia. Ao longe, muito longe, gemidos lacrimosos a angustiavam. Talvez um cachorro desamparado, homem machucado, alguém em sofrimento.

  Abre a porta ferrosa com força e sai ao relento sentindo o gelo seco da madrugada. Seu rosto pálido se comove.

  À medida que caminha, os gemidos angustiantes se transformam em melodia, uma doce , suave melodia, semelhante ao som de piano tocando harmoniosamente sinfonia de Chopin ou Beethoven, vinda de algum lugar obscuro. Não conseguia identificar embora aguçasse a audição e equilibrasse a atenção.

  Passa ao lado um senhor idoso, sombra escura semelhante a um  tronco de árvore, sem raízes e galhos, desfolhado pelo vento. Pergunta-lhe de onde viria aquela música, mas ele, assustado,  responde-lhe que não está ouvindo nada, melhor seria que ela fosse para casa!

  Dá-se conta, de repente, do adiantado da hora. Talvez só ela tenha ouvido e sentido o sabor cromático e acariciante dessa música que deixa no ar uma fragrância de paz e amor!

  Volta às pressas para a casa sonolenta, envolta em mistério, procura sua cama vazia, ausente do corpo jovem e deita-se sob chairel de retalhos de lã, à espera do sono chegar.

  Na sala, o relógio badala galhofeiro, zombando de sua insônia: quatro horas! Que noite estranha...