BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Ao cair dos sonhos - Patricia Iasz


Ao cair dos sonhos
Patricia Iasz

Era noite, o verão esbocejava calor. Todos riam  da mais nova e criativa aventura de férias. Os mais velhos descidiram arrasteiar pelas águas, motivando o grupo a participar de uma divertida pescaria. A criançada, com lanternas e baldinhos, se encarregavam da alegria, enquanto aguardavam o retorno das redes. Corriam feito siri fantasma, de um lado a outro, deixando pegadas por onde saltitavam, inventando razões para passar o tempo.

Um, sendando na areia fofosa, construía castelos e fortes. Outro, vendo ondas rasas nas margens da praia, cavocava acocorado os minúsculos chafarizes que alí formavam e, com mãos vuptiágeis, capturava corruptos. Bicho estranhoso, comprido, ligeireiro, sendo preciso a astúcia para alcançar o danado.

Porém, nada se comparava com a poetinha da turma. Sonhadora como sempre, percebeu por um instante, que o céu caíra por terra. Sob seus pés, estrelas florescentes raiavam feito estrelas cadentes a um simples passar dos dedos. Quanto mais explorava a areia molhada, mais brilho luminesciam o anoitecer aversado. Sentiu-se a princesa de um universo escondido onde só os seus passos sabiam onde encontrá-lo.  Atenta aos arredores, observiu que circunstrelas e conchostras varientes pertenciam a sua constelação. O mesmo acontecia com os caranguejeiros fugitivos dos terráqueos, que se escondiam por detrás das barricadas de ondas, num imenso buraco mardentro. A poetenta não se continha e por hora foi portadora de um sonhado reinado. A Terra Celestina. 

De repente, fora interrompida por uma voz conhecida que, ao longe ecoava. Era sua mãe chamando para ver os animais enroscados na rede de pesca. Nova generosa alegria. Peixes, caranguejos e camarões, embrulhados entre conchas e algas verdes, fanfarravam por liberdade. Esta que, por sua vez, permanecera como gesto concreto...

É que o adulto, numa honesta atitude, separou poucos para o preparo do almoço e, empolgando a gurizada, fez  soltar os  animais restantes afirmando:


Amanhã teremos mais!  


Areiódromo - Patricia Iasz


Areiódromo
Patricia Iasz

A cidade comemorava a nova obra monumental. O areiódromo. Milheiros de cidadões marginavam a orla da praia. Deschinelados, carregando suas toalhas de palha, se acomodavam na areia para curtir a marmansa que vinha suave, trazendo o cheiro de maresia e o frescor de balanço flutuável. O sol matineiro já aquecia os rostos felizes das criançadelas e, mamitas preocupadas com as descascas de Ozônio, lambuzavam as faces faceiras destas infâncias, com brancas pasteladas de bronzeadeiros.

O soneiro na praia era de ondas quebrantes que espumavam bolinhas de sabão que explosiavam ao tocar as margens da areia úmida. Gritos e gargalhadas se misturavam aos alto-falante animativos do festeiro. Uma banda juvenal tocava agitos no palqueiro montado  no calçadaço da avenida.

A natureza comumente silenciosa e tranquila da praia estava agora repleta de uma natureza gentante. Eram estrangeiros, locais e viageiros de todo país, que vieram desfrutar na novidade anunciada durante 10  meseiros. O areiódromo estava entrando na moda e veio cheio de credibilitário. Todos amaram a novidade.
Durante todo o dia, o espaço novaço ficou ocupativo. Televisionários e radiolocutórios anunciavam a novideira em rede nacional, atraíndo todo tipo de curiosos ao eventido. Uma loucura “tot tal”...

Girado os ponteiros do tempo, o sol desnasceu. A noite caínte veio repleta de estrelidos e clareada por uma gigantina Lua Cheia. O céu permanecia lindo só que agora transvestido do véu de anoitecência.

Enamorados desviam o dia com olhares paixonativos e adentravam em sonhos noturneiros ao convite dos refletidos prateeiros que se estendiam como passarela na surpefência do mar adentro. Lindório e memoritável momento.

Assim foi a inaugurança do areiódromo. Um marco historil.

         

A PRESENÇA DE UM ANJO! - Dinah Ribeiro de Amorim


A PRESENÇA DE UM ANJO!
Dinah Ribeiro de Amorim

  Clara era uma menininha de cinco anos, que, nas férias, passava uns dias no sítio, com a avó.

  Sentia-se muito feliz, então, pois a avó parecia uma fada-madrinha. Dava-lhe doces, passeios, contava histórias alegres e, toda noite,  ensinava-a a orar ao “anjo da guarda”: “Santo anjo, do Senhor, meu fiel guardador, livra-me do mal, do pecado do mundo. Amém!”

  Clara decorava direitinho, mas não entendia muito bem. Não sabia direito o que era guardador do mal.  E a palavra “pecado”, o que seria?

  Passados alguns anos, a menina tornou-se uma mocinha linda, foi estudar fora do país, morar sozinha, viver sua vida. Lembrava-se sempre da avó com saudade e carinho e, desde o seu falecimento, nunca mais voltara ao sítio.

  Nuns feriados em que esteve em casa, resolveu dar um pulo no sítio da avó, ver como estava, pois seus pais, queriam vendê-lo.

  Ao chegar, a saudade da infância, da sua fada, bateu forte e. à noite, ao deitar-se, lembrou-se de orar ao anjo da guarda para livrá-la dos males e dos pecados do mundo, embora ainda não soubesse direito o que era isso.

  Adormeceu, acordando repentinamente com barulhos estranhos, como se quisessem arrombar a porta da casa. Assustada,  ajoelhou-se e invocou seu anjo da guarda, para que a protegesse, a livrasse de todo o mal! Ali, sozinha, era muito deserto para conseguir ajuda.

  O barulho parou! Ou algum ladrão não conseguiu entrar ou algum bicho se afastara.
  Mais tranquila  examinou a casa inteira e, tudo em ordem! Adormeceu novamente, aparecendo em sonhos a figura de um anjo, todo de branco, cabelos dourados, asas luminosas, sorrindo para ela.

  Clara lhe pergunta quem era e ele lhe responde:

  _ Sou seu anjo da guarda. Durma tranquila, pois livrei-a de um grande mal! Um homem perigoso tentou entrar no sítio, mas, a sua oração me chamou e eu a atendi. Agora você sabe o que é livrar do mal e dos pecados do mundo. Fique em paz! Sempre que me invocar, estarei consigo.

  A moça sorri também para ele, sentindo uma felicidade muito grande no coração. A figura de sua avó aparece ao longe, envolta em nuvens azuis.

  No dia seguinte, Clara acorda e toma uma decisão. Não deixaria vender aquele sítio.
 Fora muito importante para sua vida e seria também para seus  futuros filhos.

  A oração do anjo da guarda nunca mais a abandonou!

O desenho - Patricia Iasz


O desenho
Patricia Iasz


Teresinha, Murilo e Tânia estavam desenhando na mesinha da sala. Na poltrona, lendo um livro, estava o vovô que acabara de se distrair com a conversa dos pequenos.

- Mu, me empresta a canetinha laranja? – disse Teresinha.

- Espera um pouco, Tete. Estou terminando de pintar o barco. Pega outra cor na caixa de cores ou pede pra Tâm lhe emprestar a dela.

- Tá bem Muri, eu espero um pouco.  Mas só um pouquinho, viu!

Olhando o relógio, o avô resolveu prestar atenção na paciência da pequena. Dez segundos depois novamente a pequena exclama:

- Mu, você terminou de pintar o barco?

- Ainda não Tê. Ele é grande. Tem mastro e este deve ser da mesma cor de laranja. Também tem o leme e  vai ser igualzinho.

Já com uma cara emburrada e batendo os dedinhos na mesa, Teresa desabafa:
- Ah, Murilo porque você tem que fazer um barco tão grande se a folha de desenho é tão pequena?

Nesta hora, Tâm não aguentou e caiu na gargalhada. O avô, tentando disfarçar o momento, ria baixinho escondendo a boca. E Murilo, surpreso  com amiga, espantou-se :

- O meu barco não é grande, Tê. Ele cabe direitinho no papel. Você que é afobada e não consegue esperar nem um tiquinho. Pergunta pra Tâm pra ver se não é verdade?


Em silêncio, o vô olha para o relógio e vê que o ponteiro informa 1 minuto do ocorrido.


Suzana ganhou MENÇÃO HONROSA em Concurso Literário

O Conto O sétimo distrito, de autoria de Suzana da Cunha Lima, ganhou Menção Honrosa no Concurso Literário do Sindi-Clube 2013


Suzana será homenageada com Menção Honrosa pelo Concurso de Crônica, Poesias e Contos do Sindi-Clube / 2013.
Parabéns Suzana!
Cada degrau que vocês galgam é motivo de orgulho para nossa oficina.


O sonido - Patricia Iasz


O sonido
Patricia Iasz

De vez em quando, um sonido vindo por entre as montanhas, atraía a atenção de Deco, ainda em seu quarto, surpreendido pelo sol que se aventurava em atravessar o vidro de sua janela. Percebia um assobio gostoso, como o tocar de uma flauta, a chamar-lhe para um brincar de esconde-esconde.

Mas quem poderia estar ali a chamar-lhe? – Pensava ele encucado. Sim. Todas as manhãs. Bem em meio às suas férias?

Ainda sobrepido em pijama de felpo, carregando a preguiça insistente pelos ombros mirrados. Descia feliz as escadas de madeira daquele chalé montanhez. O cheiro atraente do café da matita parecia beliscar-lhe o nareco, puxando-o para um abraço apertado na mãe distraída.

Bom dia! – sorria ele. E mal escutando a resposta materna,  já ia contando sobre o sonido vindo da montanha.

Era fininho, vindo bem de longe - dizia ele. E enquanto não abrisse a cortina, a musiqueta permanecia tocando feito uma flauta doce.

Sei que alguém está lá, mamãe. E quer brincar comigo. Sei disso!

Gentilmente, a mãe comentou:

Dá próxima vez que o sonido tocar, abra também a janela e grite bem alto: “Ei, você. Quer brincar comigo?” E espere a resposta.

Na manhã seguinte, assim que Deco chegou na cozinha. Contou alegremente que ouviu o sonido responder para ele. E ofegante completou:

  Mãe! Eu ouvi. O sonido gritou bem forte: “Ei, você. Quer brincar comigo?”

Neste dia, o café da manhã foi só gargalhada. A mãe descobrira que Deco fez amizade com o eco. O sonido vindo de longe, era a voz galopante do vento que trilhava valsavante por entre as enormes árvores.

O eco não se escondia mais. Deco o achou!





Contando estrelas - Jany Patricio


Contando estrelas
Jany Patricio

Era noite de São João. Labaredas subiam e fogos de artifício riscavam o céu na pequena, mas movimentada cidade de Cícero Dantas no sertão nordestino.

Crianças corriam em torno das chamas trepidantes da fogueira  divertindo-se ao som das biribinhas  atiradas ao chão empoeirado.

Delicioso cheiro das castanhas e batatas doces, que assavam nas brasas, invadia o ambiente.

Bandeirolas tremulavam, e balões cintilavam no céu junto com as estrelas.

Ao   som da sanfona, do triângulo e do pandeiro o arrasta-pé corria solto na praça.

Debruçada no beiral da janela de sua casa, Joana admirava a festança e observava o céu chamuscado de estrelas. As três Marias e o Cruzeiro do Sul eram as suas preferidas.

Então, pegou as varetas de chuva de prata, que ganhou do seu avô, e foi brincar na festa com as outras crianças. Ela acendia as varetas e riscava o ar, de onde brotavam estrelas que brilhavam como a alegria dos seus olhos.

Mais tarde, quando só restavam  brasas, era de praxe pular as fogueiras.

Joana via encantada, as pessoas pulando e ficava com uma enorme vontade de pular também. Estava hipnotizada pelas últimas chamas que subiam alegremente, e aos poucos foi se aproximando do fogo.

Enquanto isso, seus pais e tios estavam animados dançando o forró.

Ela foi chegando mais e mais perto da fogueira, mas antes de dar o impulso para pular, olhou para o céu.

Que espetáculo! As três Marias vinham ao seu encontro, na forma de fadas! 

Vestidas cada uma de uma cor: amarelo, azul e vermelho. E traziam uma varinha parecida com as varetas que ganhou do seu avô. Desciam em caracol, traçando o desenho de uma escada no céu.

Disseram para ela esperar um pouco, pois queriam abraça-la para pularem juntas a fogueira. E ela inebriada admirava a trajetória das fadinhas.

O seu avô, que balançava na rede, percebeu a intenção da menina. 

Aproximou-se devagarinho e suavemente segurou sua mão.

Ela sorriu e contou a ele sobre as fadinhas, que agora brincavam de roda sobre a fogueira. Sorriram para ela e subiram como um foguete voltando a brilhar no firmamento.


Feliz, Joana abraçou seu avô, que lhe ofereceu uma saborosa castanha de caju e algodão doce.

Guarda - Patricia Iaz



Guarda
Patricia Iaz

Era uma tarde de sábado. O passeio no shopping com a mãe era a novidade do dia. Tudo bem confuso ainda para seus poucos meses de idade. Ao mesmo tempo que sentia ansiedade e insegurança em meio a tantos ruídos e agitações, presenciava também, a convicta confiança de quem segurava-lhe as mãos e garantia o guardar do coração. O Anjinho da Guarda estava alí, incansávelmente existente.

         Bastava o choro querer despontar no ingênuo olhar infantil e logo um aquecer lhe tomava o peito frágil. O Anjo lhe dava coragem para permanecer serena e assim poder se envolver nesta nova fase de existência. Por nada no mundo o Protetor se distanciava e ainda lhe mostrava razões engraçadas para soltar pitadas de  sorrisos discretos.

         Era um amigo. O melhor. Sempre presente em qualquer situação. A paz que Dele emanava, envolvia o carrinho de passeio, passava pela mamãe e tocava tudo aos arredores. Numa elevada harmonia, acariciava suavemente todas as coisas para que elas se entrelaçassem. A física da vida literalmente estava sob a regência de Seu Infinito Amor.

         Carregava com Ele as fragâncias do encanto, a leveza dos movimentos, a sutileza no tato. Transformava estrondos em zunidos de insetos ou cantos de pássarinhos. Um gentil poder de couraça!

         Milhares de olhares estavam atentos à pequena chegada, mas um, em especial, despertava a Divina Benção. Era a do Anjo da Guarda que, amavelmente, cuidava de sua preciosa riqueza. A infância que Deus lhe confiara como lugar de abrigo.
        
        

                   

A flor é uma criança - Jorge da Paixão



A flor é uma criança
Jorge da Paixão

A flor é uma criança,
sorriso da Natureza...
Poema de esperança,
do amor com singeleza.

Sinfonia colorida,
em forma de estandarte...
O pródigo da vida,
eterna obra de arte...

Sublime manancial
de paz e felicidade...
Verdadeiro festival
de ternura e bondade.

O meu sutil coração,
o seu perfume extasia...
Musa da minha inspiração,

Pr’eu fazer mais poesia...

Hummmm - Patricia Iasz


Hummmm
Patricia Iasz

Hummm... - pensou ele -  mergulhado numa viagem ao Caribe, sentado em uma BMW metálica, ouvindo musica alta em plena via marítima. Seu silêncio irradiante empolgaram discretamente,  o coração tão carente, da ingênua à sua frente.

Evidente - pensava ela.  Está interessado na sincera amizade. Sem sombra de dúvidas, caminharemos juntos, em plena areia da praia. Ele segurando sua mão, afirmará que a amara, e recitando poesias, lhe dirá que a desejara.

Hummm... - sonhava ela. Com uma recém familia animada. Sentada em um parque florido. Em frente a lagoa Régea. Numa tarde de domingo.

Evidente... - cogitava ele. Vou fazer-me grande amigo. E fingindo amar seu brilho, garantir o bom partido.  Com carteira recheada.


O amor tem peripécias. Escondendo o que há em cada um e revelando o que em ambos nada era. 

Revista Exper - Dinah Ribeiro de Amorim

Vejam como está cada vez melhor a revista de nossa amiga Dinah Ribeiro de Amorim!
Parabéns Dinah!

REVISTA EXPER - Dinah Ribeiro de Amorim

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A DUPLA DINÂMICA - Suzana da Cunha Lima


A DUPLA DINÂMICA
Suzana da Cunha Lima

Eram dois amiguinhos que sempre brincavam  juntas: Branco  tinha nascido da espiga do milho dourado, na primavera. Os grãos caíram e se juntaram, formando um coelhinho delicado, todo branco, que só queria pular pelos campos.  Dengosa viera logo depois, quando o lírio branco se espreguiçara no calor morno do outono e ela saíra de dentro de seu copo.  Parecia uma gatinha veludosa, cheia de manhas e vontades. Um dia se olharam, no relvado verde do jardim e se amaram.  Gostavam de estar juntos, mas acabavam sempre brigando, porque o coelhinho gostava de brincar com todo mundo e Dengosa queria exclusividade.  Era ciumenta, a danadinha.

 Um dia, a briga foi tão feia que o coelhinho e a gatinha quase perderam o pelo todo, de tanto de arranharem.  Foi preciso o dr.Tronco, que tudo via ali no jardim, chamar a atenção dos dois e dar um castigo exemplar. -  Vou transformar vocês dois em duas pererecas de rio, sem nobreza e linhagem.  Vê se param de brigar e façam alguma coisa boa para os outros, senão, não voltam mais a ser o que eram.  E assim foi.  Quando se olharam, eram duas pererecas azuis, de patas cor de rosa. Um horror!

Uma olhou para a outra e começaram a rir: Como estamos feias, amiga. Que olhão enorme, que patas sem graça! Disse Branco, que era mais bem humorado.
-E agora,  o que faremos, não quero ficar assim a vida inteira. – choramingou Dengosa.

-  Vamos ver o que podemos fazer por alguém para voltar a ser como éramos.

Olharam em volta, no jardim, pela primeira vez com atenção.  Viram um formigueiro adiante, e as formiguinhas levando as folhas de árvore com o maior esforço.  A folha era maior do que a formiguinha.  Resolveram então ajudar, recolhendo as folhas espalhadas no chão e levaram tudo para o formigueiro.  As formiguinhas cansadas, nem acreditaram que iam ter algum descanso naquele dia.  Então resolveram brincar, coisa que não faziam nunca, era só trabalhar. Até a rainha do formigueiro entrou na dança e dali por diante, começou a aliviar um pouco o trabalho de suas súditas.

As duas pererecas pularam satisfeitas e foram olhar onde mais poderiam ser úteis.  Ah, olhe o cachorro se coçando todo, deve ser pulga, disse o coelhinho.  Coitado, deve estar incomodando. E os dois juntos foram coçar a barriguinha do cachorro, que chegou a dormir de tão aliviado e satisfeito.

Branco e Dengosa ficaram o dia todo observando a vida que pululava naquele jardim e onde poderiam ser úteis. Ficaram logo conhecidos como a dupla dinâmica e gostaram do apelido.


Gostaram tanto que resolveram ficar assim como estavam: duas pererecas azuis, contentes da vida.

PREOCUPAÇÃO DE MENINA...- Dinah Ribeiro de Amorim



PREOCUPAÇÃO DE MENINA...
Dinah Ribeiro de Amorim

  Três meninas brincavam no pátio de um edifício residencial: Ivone, Cidinha e Marta.

  Era um brinquedo meio cansativo, tipo amarelinha, pulando num pé só.

  De repente, Ivone sentiu-se muito cansada e, desequilibrando-se, caiu.

  Resolveu sair da brincadeira.

_  Não quero brincar mais! Meu pé está doendo.

_  Você é uma chata, Ivone. Só por causa de um tombozinho já quer sair! Nunca mais chamamos você para brincar! Respondeu Marta.

  Acontece que a menina, muito triste, queixou-se na escola à professora, com medo de ninguém mais querer brincar com ela.

  A professora, Dª. Luisa, respondeu:

_  Não liga não, Ivone,  da próxima vez responda: “Praga de cachorro magro não pega em cavalo gordo”! Logo, vocês estarão brincando de novo.

  A menina ficou pensativa, num canto, depois perguntou:

_  Tia, será que esse “cavalo gordo” não poderia ser outro bicho?
_  Claro, mas por quê?

_  É que gordura, na minha casa, é feio! Todo mundo é muito gordo e vive fazendo regime. Sou a única magra e tenho até medo dessa palavra!


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Acordes orgânicos - Jany Patricio


Acordes orgânicos
Jany Patricio
        
         Já faz algum tempo, perto de uma cachoeira, duas borboletas aproximaram-se das flores do campo e pousaram.

         - Babele, você está vendo ali próximo da queda cristalina?

         - Estou, Seli, que planta diferente nasceu ali!

         - Vamos olhar mais perto.

         - Não, tenho medo.

         - De quê?

         - Ouvi dizer que coisas estranhas estão acontecendo perto daquela cachoeira. 
Avistaram uma cigarra adentrando pelas frestas da rocha musgosa, e ninguém mais a viu sair.

         - Pode ser que ela tenha descoberto  um lugar mais bonito e tenha ficado  por lá.
         - Não sei. Tenho medo.

         - Deixa de ser medrosa, vamos descobrir coisas novas! Quem sabe tem um mundo encantado naquela rocha. Talvez existam coisas maravilhosas lá dentro.
         - Pode ser, porque aqui, as coisas não estão fáceis. Faz tempo que não chove, muitas fontes estão secando e as plantas sofrem a falta de água. – Está bem! Eu vou com você!

         Ao aproximarem-se da planta misteriosa, houve um pisca-pisca de luzes nos pistilos da flor, e como um imã, foram atraídas para traz da queda d’água e jogadas para um tubo amornado feito de cores fosforescentes.
         Caíram sobre uma relva macia, que tinha um brilho translúcido e sabor de caramelo.

         Ficaram estonteadas com a beleza e abundância da paragem.

         No céu, aves multicoloridas, com nuances douradas e prateadas.

         Mas, parecia que ia haver uma assembleia, pois todos os seres viventes se dirigiam para o mesmo local.

         - Veja Celi, a cigarra desaparecida!

         - Oi amigas corajosas! Chegaram na hora, vamos depressa, pois a natureza pede socorro!

         - Por que? O que aconteceu?

         - Não perceberam? - Disse a cigarra. Se nada for feito, o mundo de onde viemos, e este, desaparecerá.

         E seguiram para a assembleia.

         No centro, um anjo, de asas azuis e pele arroseada. Em sua volta, sete duendes, cada um tinha uma cor do arco-íris. Estavam no meio de um círculo de cristal, multifacetado.

         Acordes musicais inebriantes com aromas que iam do almíscar ao jasmim acariciaram os presentes que emboramente pareciam apreensivos.

         - Meus amigos, graças ao destemor de uma cigarra e duas borboletas, aqui presentes, vamos reverter a situação do planeta.

         As duas amigas se entreolharam surpreendidas, mas a cigarra estava cônscia e feliz, pois durante o tempo que ficou desaparecida recebeu do anjo uma varinha de condão e preceitos mágicos para preservar a natureza e iria voltar com as borboletas como escudeiras para o mundo de onde vieram.

         Despediram-se sob uma aclamação assembleia, e pela varinha de condão foram puxadas de volta para a cachoeira, sob os acordes do teclado do órgão intraterreno.

         Saíram resplandescentes, e até hoje são avistadas no céu, atrás do pirlimpimpim orgânico da varinha de condão, que faz renascer as fontes ao beijar o chão.
        

        
        


        
                  

                  
        


         

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Assassinato - Hirtis Lazarin





ASSASSINATO
Hirtis Lazarin


Já é primavera.  Despontam os primeiros raios do amanhecer.  Chegam brincalhões.  Esgueiram-se entre emaranhados de galhos e folhas das árvores mais altas.  Acordam pássaros ainda no ninho.  Logo mais, chegam os raios mais poderosos pra completar a obra de arte.  São os pincéis que colorem a natureza.  

As flores vão se mostrando cada qual com seu jeitinho, sua graciosidade, sua cor.  As pessoas começam a circular pelas ruas.

            É uma felicidade barulhenta.  

            Ela bate às portas da mansão dos "Rodrigues de Moraes".  Não consegue entrar, como faz todas as manhãs.

            Na cozinha um casal calado toma o café da manhã.  Nem se olham.  Ela abatida, olheiras profunda denunciam que não dormira nada naquela noite.  Ele, vez ou outra, lança-lhe um olhar enfurecido.  Sai apressado para o trabalho e não se despede.

            Maria Cristina e Fernando estão casados há quase trinta anos.  Têm dois filhos: Lucas, formado em medicina e Vitor, que está pra concluir o curso de direito.

            Formam um casal modelo e bem sucedido; ele, administrador de multinacional e ela, psicóloga, presta serviços como orientadora vocacional numa escola alemã.

            Colecionam amigos e sempre sobra um tempinho pra reuni-los em casa.
            Naquele dia, Fernando volta do trabalho mais tarde que o habitual.  Acha estranho...A casa está escura, nem as luzes do jardim foram acesas.  E Cristina sempre o espera pra jantar.

            Entra preocupado e cauteloso;  passa pela cozinha e, ao acender as luzes da sala de jantar, vê Cristina caída aos pés da escada de mármore que dá acesso ao piso superior.  Os cabelos longos e loiros embebedaram-se do sangue que escorreu da sua cabeça e revoltos cobrem-lhe a face.

            Fernando entra em pânico.  Toma-lhe o pulso.  Não há sinal vital.  Cristina está morta.

            A polícia chega logo.  Os técnicos verificam que o corpo não mostra sinais de bala nem de arma branca.  Um corte profundo na cabeça.

            Ela teve um mal súbito e rolou escada abaixo ou se desequilibrou no salto do sapato e despencou lá do alto?

            O corpo é encaminhado ao IML e o laudo diz que a morte fora causada por forte golpe no alto da cabeça.

            A casa é isolada.  Os peritos lá permanecem dias para exame minucioso do local do crime.

            Cristina fora morta na cozinha.  O "luminol" mostrou que o corpo fora arrastado até a escada, simulando um acidente.  Sobre a mesa da cozinha havia um livro de receitas aberto `a pagina 44, todo respingado de sangue.  Ao lado, ingredientes para um bolo de chocolate.  Fora abatida pelas costas, compenetrada que estava na leitura da receita.

            O mistério era grande: não havia sinais de arrombamento, nada fora levado e a casa estava em ordem.

            Vizinhos, amigos e familiares foram convocados pra depor e nenhuma pista surgia pra desenrolar o novelo.

            A casa é liberada e Fernando volta.  Autoriza a governanta Amélia a encaixotar os pertences da esposa.  Seriam doados.

            Numa bolsa antiga Amélia encontra uma agenda do ano em curso.  Abre sem restrições.  Quem sabe encontraria alguma pista.  Esconde-a entre seus pertences e, no dia seguinte, entrega-a ao delegado que investiga o caso.

            Na página correspondente ao dia 19 de setembro, dia anterior ao crime, Maria Cristina escreveu:

            "O relógio marca uma hora da manhã.  Finalmente, hoje consegui contar ao Fernando este segredo que guardo há quase vinte anos.  Dezembro está chegando e a formatura do Vitor também.  Os três envolvidos têm o direito de saber a verdade.  Não consegui olhar nos olhos de Fernando.  Contei-lhe que tive um caso amoroso com Ricardo, esposo de Isabel, nossos melhores amigos.  O primeiro momento foi durante uma viagem que fizemos à Itália.  A atração que sentíamos era muito forte e aconteceu...  Vitor é filho de Ricardo.  Nos próximos dias contarei ao Ricardo e ao Vitor toda verdade. 

            Fernando não abriu a boca o tempo todo; não pronunciou um "ai".  Olhou-me com desprezo e trancou-se no quarto de visitas.  Sei que nosso casamento acabou.  O processo de separação vai ser árduo.  Sou consciente de tudo que me aguarda, mas não podia mais continuar vivendo essa mentira."

            Após a leitura do diário, o delegado não teve mais dúvidas sobre o assassino. 

            Convocou Ricardo e contou-lhe o segredo de Cristina: você é o verdadeiro  pai de Vitor.

            E Fernando?  Foi decretada sua prisão.