BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Jorge Paixão - Áries - Maria Luiza Malina


JORGE PAIXÃO – ÁRIES
Maria luiza de Camargo Malina

De um pulo pela ponte de Marte, lá chegou o Jorge de carona na casa de Áries. Trouxe em sua bagagem a sensibilidade do signo de Peixes, se misturando à razão e à vontade de Áries.

Áries, alegre e discreto, certeiro e ponderado traz de Marte a guerra pela escrita.

Convence a cada soneto, o dia a dia de sua vida entre os labirintos da paixão, de uma alma em solidão, que refloresce a cada página virada da vida.


A previsão para hoje é de muita chuva. Serão chuvas, trovoadas de trovas, com relâmpagos de sabedoria, embevecidas nas nuvens de amor eterno, regadas de sucesso no seu próximo livro.

O QUE O DINHEIRO FAZ! - Dinah Ribeiro de Amorim


O QUE O DINHEIRO FAZ!
Dinah Ribeiro de Amorim

  Seu Horácio era um velho arrogante e irritadiço. Tendo várias desavenças e inimigos, desde intrigas entre mulheres, problemas com filhos, rixas sérias com administradores do lugarejo em que vivia, não gozava de boa reputação nem de bons amigos.

  Com a idade, sofreu um derrame que o deixou em cadeira de rodas, muito só, possuindo um cuidador que aguentava seu mau gênio e o levava a passear de vez em quando.

  Só um hábito ainda conservava nesta vida triste e sufocante: jogar na loteria, fazer uma fezinha, de vez em quando.

  Achava que somente o dinheiro ainda mudaria sua condição.

  Num desses domingos em que foi levado a dar uma volta, ao passar pela casa lotérica, deu um grito rouco e alucinante: “Ganhei, minha gente, dessa vez ganhei na loteria!”

  Todos o olharam e pensaram: “Acho que o velho endoidou de vez”

  Mas, na segunda-feira, quando a loja abriu, todos estavam lá para verificar se, de fato, havia ganhado!

  Foi conferido o bilhete e ele ganhara mesmo! Tornara-se um velho, doente, milionário!

  Realmente, sua vida mudou. Todos queriam ajudá-lo, pegar um pouco em sua cadeira, captar a sua sorte.

  Mudou de casa, de enfermeiros, de médico, novos tratamentos tornaram-no mais forte, mais saudável, trocando cadeira de rodas por elegantes bengalas.

  Sua casa era um ponto de encontro na cidade, onde fluíam as ideias modificadoras e o progresso.

  De velho solitário, passou a ser um gentil idoso, cativante, cercado de amigos.

  Sua mulher, antiga traição sofrida, voltou arrependida, querendo cuidar dele e, seus filhos, afastados, procuravam-no agora, pedindo empréstimos.

  A vida de Horácio foi transformada com o dinheiro no Banco.

  Tratavam-no com respeito e admiração e até o cargo de prefeito foi cogitado pelo partido.

  Não é que ele aceitou! Acabou sendo eleito pelo povo e, como havia mudado interiormente também, foi um bom prefeito!

  Trouxe grandes melhorias ao lugar.

  Quando morreu, a cidade enlutada o reverenciou por três dias!

  Esse foi um caso em que o dinheiro em excesso deu certo, modificou para melhor os sentimentos, embora, como sempre, vivesse rodeado de aproveitadores, coisa que não se consegue impedir e afastar!
                                                                  


ICONOCIASTA - Andréa Iasz



  ICONOCIASTA
Andréa Iasz


Parada em frente ao espelho de seu quarto fixa seu olhar em seus próprios olhos buscando ver a própria alma.  Está exausta, perturbada, precisa se rever e até se organizar. Aperta um botão mental “deletando” tudo e todos que estão ao seu redor: a música, as vozes, o tumulto. Desliga tudo. Ela sabe que existe, que se ama e se rejeita. Agora, neste momento, seu único desejo é ficar consigo mesma.

O nó na garganta é reflexo do choro que não sai, do ódio que sente não sabe de quem e nem porque. Um filme passa em sua mente. Nele ela vê a história de sua vida em família. Os encontros e festas, os desencontros e tormentos vividos pelas coisas que fora obrigada a passar sem desejar ter vivido e da forma como viveu.

Hoje seu ódio tinha chegado ao estremo. Todas as coisas relacionadas a fé cristã a incomodavam profundamente. Elas eram tão repugnantes que se via uma pessoa obcecada e determinada a acabar com tudo relacionado aos ícones religiosos. Se fosse corajosa e poderosa exterminaria também todos os cristãos da face da terra. Perdera a conta da quantidade de imagens, de terços e santinhos de papel já havia destruído e queimado. Sem contar da forma cruel com que tratou todas as pessoas identificadas como cristãos. Não suportava a ideia  nem mesmo a possibilidade, de usufruir da amizade de uma única pessoa sequer que se intitulasse como cristão.

De onde vem tamanho ódio? Da austeridade do pai? Da ausência da mãe ou da rotina religiosa e radical da avó que rezava o dia inteiro e que a obrigava ser sempre sua companhia na rezação. Perdera a conta de quantas vezes ajoelhada, rezou apenas por obrigação; de quantos pensamentos, desejos e intenções estavam distantes de todo aquele universo vivido em família.

Milenna era agora uma iconociasta que num ataque de fúria ateara fogo em uma iconoteca destruindo todas as obras que lá existiam. A coragem para tal fato veio da voz da colega Micaela, agora presa por ter matado o vigia, e que repetidas vezes insistiu: “Eles destruíram sua vida, sua identidade... Agora é hora da sua vingança”. Ainda diante do espelho e refém de seus pensamentos ouve, como um eco, a frase que incentivou tal fato.

Diante de si mesma, voltando à consciência, mira-se no espelho e de alto a baixo. Analisa sua imagem refletida. O presente agora era o seu passado as avessas. Negara a história de vida, suas frustrações e na ânsia de ser melhor e mais feliz transformou-se em outro alguém sem transformar seu interior. Vivia as mesmas raivas, os mesmos sentimentos de antes. Tornara-se um altar vivo. Em mente se vê com o prêmio de miss que ganhara no mês passado e percebe que como um cordão preso ao pescoço carregava a si mesma como um próprio ícone.

Uma mão amiga toca seu ombro com leveza, o calor da aproximação arrepia até os ossos. O bafo quente do sussurro ao pé do ouvido toca a alma espremendo toda dor que bruscamente sai como um vomitório pranto.  Nunca tinha ouvido tais palavras com tanto amor Coragem, o amor vencerá! Agora estas palavras latentes residiam em sua mente.

Ainda em frente ao espelho, em meio aos soluços, desfaz o penteado arrancando a longa e loira peruca. As lágrimas ajudam na retirada do par de lentes azuis e também facilita o deslize do creme demaquilante que a elas se mistura.


Cabisbaixa, observada pelas pessoas que estão no quarto, volta-se para a porta e segue em direção ao banheiro. Despe-se para um banho quente e demorado. É tudo o que precisa no momento. Completamente nua analisa a pele enrugada pelo tempo, com o sabonete nas mãos banha-se enquanto desnuda mentalmente todo disfarce interior. Agora se vê como jamais havia se visto antes e anuncia sua decisão gritando em alta voz: afeminado sim, mas acima de tudo José, o filho de Deus!

O pinheiro infeliz - Maria Luiza Malina



O PINHEIRO INFELIZ                                                                                     
(Releitura de Conto)
Maria Luiza de Camargo Malina

Conta-se, que após a criação do mundo Deus havia se esquecido do pinheiro – começou e não terminou... Assim, o pinheiro pensava.

Certo dia o pinheiro cansado de ouvir seu próprio som de lamento, queixou-se com o Deus, dizendo:

- Como assim!  Vou ficar com estas folhas duras e arrepiadas que espetam as pessoas e que, quando o vento chega para balançar os meus galhos, eles se mexem sem parar com um barulho esquisito!

Deus foi ouvindo, e o pinheiro resmungando:

- O vento se transforma em dedos duros e as folhas nas cordas de uma harpa, só que ninguém gosta da música, parece que estou chorando. Todas as outras árvores me olham em silêncio.

Deus para consolá-lo explicou-lhe:

- Você já percebeu que, quando chega o inverno, as árvores perdem as folhas e quando a neve cai, só você fica verde!

- Não! Não percebi, porque elas ficam muito quietas, devem dormir no frio embaixo da coberta da neve, e eu fico quieto segurando a neve.

Deus riu e lhe disse:

- Está bem! Vou fazer uma coisa que você vai gostar. Só você continuará a ter as folhas verdes nas nevascas do inverno e, uma vez por ano terá o brilho das luzes e do ouro nas pontas dos galhos.

Orgulhoso, o pinheiro tornou-se a árvore símbolo do Natal, da imortalidade e da vida.

Aprendeu a gostar do seu som e da ajuda do vento ao derrubar as pinhas, que servem para aquecer as lareiras e se diverte com o alarido das crianças colhendo-as no chão, para serem transformadas em enfeites de Natal. Vive o ano todo de mão em mão, e de casa em casa.


Assim, passou a ser um “PINHEIRO FELIZ’.

NOITE DE NATAL - UM TOQUE NA PORTA - Maria Luiza Malina



 



NOITE DE NATAL - UM TOQUE NA PORTA
Maria Luiza Malina


O bafo da respiração acelerada esbarrava com a neve no ar derretendo-a. Ainda faltavam alguns quarteirões para chegar até a casa. O acúmulo da neve no telhado quase o soterrava. Tudo estava completamente igual há 26 anos.

Na rua vazia e ao mesmo tempo cheia das lembranças, escutava o som de meus próprios passos se aproximando, acompanhando cada pulsar do meu coração. Percebia que havia mais alguém na rua, olhava para trás e nada via, imaginava ser o eco das botas cansadas da longa viagem. A entrada pela fronteira havia sido desgastante, muitas perguntas e a confirmação do endereço ao qual me dirigia. Questionava-me, na incerteza de que se algo grave lhes houvesse ocorrido, para qual endereço poderia recorrer. Afugentava os pensamentos relembrando que a cidade é pequena demais para que os soldados da fronteira não os conhecessem. Segui adiante.

Entre as casa, quase todas parecidas, lá estava eu, frente a frete àquela a quem tanto queria chegar e agora minha mão pairava no ar, sem coragem de tocar na porta. Ouvi conversas baixas, não havia a alegre música de bandolim. Nada, apenas conversas baixas. Confirmei o número 76 da Rua Sázava, da amarelada correspondência recebida parabenizando-me pelo dia do meu nome, do calendário onomástico. Todos os anos eles se lembravam de nós e nós deles. É agora, não tem campainha. Vou bater.

Toc...toc...toc...

Tudo se silenciou. Pela demora, percebi que estavam assustados. Bati novamente. Senti que alguém estava por detrás, com a orelha aguçada para saber quem poderia ser. Nada. Tornei a bater à porta. Alguém com voz trêmula, pergunta: 

- Quem é?

- Sou eu. Villy, do Brasil! O silêncio tornou-se gélido, usei meu apelido para que me reconhecessem de imediato, uma vez que o regime político era muito severo e, as batidas à porta durante a noite, não eram bons sinais.

- Quem?

- Blanka!  Sou eu Vilmund Vaumund do Brasil, disse com o som firme e melodiosamente feliz.  Sem medo de me indentificar.

A porta se escancarou num repente, que me fez arregalar os olhos, e os abraços familiares tão esquecidos eram quentes, tão quentes como o fogão à lenha que esquentava o jantar. A surpresa do amor familiar derreteu a emoção do gelado medo dos toques na porta. Voltamos juntos no tempo com um gole do forte aguardente de ameixa e já me senti em casa.

Blanka percebe ao fechar a porta, o espiar dos vizinhos atrás das cortinas, uma vez que ninguém recebe visitas. Acena. Ahoj!

terça-feira, 5 de novembro de 2013

OFICINA DO ICAL - Uma turma muito criativa!

São nossas escritoras e escritores:

Andréa Iasz
Cida Bianchini
Dinah Choichit
Dinah Ribeiro Amorim
Carmen Lucia Raso
Hirtis Lazarin
Eliana Dau Pelloni
Ilka Andrade
Jany Patricio
Jorge da Paixão
Maria Luiza C. Malina
Noêmia Iasz
Patricia Iasz de Miranda
Suzana da Cunha Lima