
"As
ondas chegam mansas e..."
Hirtis Lazarin
Denise acorda assustada
outra vez. Sono conturbado, pesadelo. O travesseiro,
o edredom jogados ao chão. Acende a luz fraca do abajur. Vê o relógio que marca dez os minutos da
terceira hora do dia. Já virou rotina
acordar àquela hora. Olha ao seu lado. O lugar dele está vazio. Um nó apertado sufoca-lhe a garganta, uma mão
gigante e poderosa aperta-lhe o coração.
A madrugada está fria. Veste o roupão vermelho. Descalça desce as escadas. Já na cozinha abre metade da janela. Observa a chuva fina. Fecha os olhos, respira profundamente, o
vitrô fica embaçado. Ouve a música suave
das gotas que batem na cobertura da garagem.
Lembra-se da guerra de travesseiros, do edredom vermelho de
coraçõezinhos brancos que ele achava tão infantil. Lembra-se dele dormindo, olhos apertados,
sobrancelhas cerradas, lábios carnudos oferecendo-se pra serem beijados. Lembra-se do cheiro do seu corpo aquecido e
suado. Denise respira vagarosamente
buscando esse cheiro no ar.
Uma buzina inconveniente na rua
livra-a desse torpor. Caminha até o
fogão e aquece uma caneca de leite.
Volta-se para a mesa redonda da sala, bem iluminada por lustre pendente
com cinco lâmpadas. Fotos esparramadas,
algumas amassadas e outras rasgadas. Na
hora da angústia, do desespero.
Lembra-se de cada momento vivido e eternizado no papel, hoje tão frios quanto a máquina que
os registrou.
O cheiro do leite queimado,
escorrendo pelas bordas da caneca acorda Denise. Larga a caneca vazia na pia e resmunga. Antes de apagar a luz, olha pra cadeira
vazia. A saudade a sufoca. É tanta que sente chover dentro dela e a
chuva transborda pelos seus olhos. A
saudade revira-a por dentro e tira tudo do lugar. Com saudade não existe nada, não há presença,
cheiro, olhar, sorriso, voz. Apenas o
vazio...
Os pés descalços sentem o gelado do
piso. Tão gelado quanto aquele espaço
feito a dois, para dois.
Denise volta à cama, beija a foto
dele na tela do celular, reza baixinho.
Fecha os olhos e como já é esperado não dorme. Amanhece.
Toma alguns medicamentos.
Apaga. Denise só acorda quando o
sol se põe. Sai da cama sonâmbula,
vestindo camisola, anda até a praia. A
lua é cheia, lumia seu caminhar. As
ondas chegam mansas e frias aos pés de Denise.
O corpo teso ergue-se como esfinge morena tendo a lua a sua frente. Seus pensamentos estão do outro lado do
oceano. Há seis meses Paolo partiu pra
Itália. Partiu pra nunca mais voltar.
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