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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Quem diria... - Hirtis Lazarin



                                       QUEM DIRIA...
Hirtiz Lazarin

Num pedacinho do Maranhão
nasceu o menino Tenório
o oitavo da família Tristão.

          Tão mirradinho o coitado
          cabia na palma da mão.
          Foi logo avisando a parteira:
                                                               "É uma pena cumadre
                                                                 esse não vinga, não.
                                                                 Mió chama o padre
                                                                 pra lhe dá extremunção".

Mas que nada!
Tenório vingou.
O que lhe faltava no físico
na esperteza se multiplicou.

          Arisco como potro selvagem
          destemido como leão
          Tenório esbanjava coragem
          e saúde de montão!

O menino crescia que fazia gosto.
Calcanhar rachado, pé no chão.
Radinho de pilha grudado no rosto
contava-lhe tudinho do Maranhão.

     Tenório aprendeu a ler e a fazer contas antes mesmo do término do primeiro ano escolar. Perdeu interesse pela escola e Dona Judite, professorinha lá da roça, não dava conta dele, não.
     Na adolescência, contrariando toda família, foi embora pra capital.  Logo se empregou num estacionamento, guardador noturno dos carros. Foi ali que Tenório descobriu o primeiro computador. Passava as noites clicando e assim, o seu mundo ainda mais se expandiu.
          A tudo prestava muita atenção
          e  descobriu que o Maranhão tinha um rei.
          Era viaduto, estrada, ponte, construção
          tudo pertencente a um tal de Sarney.

Procurava explicação pra tudo
só lhe tormentava o reinado do Sarney.
O nome soava como veludo
mas não combinava nada com lei.


     Bem, o tempo foi embora e o nosso Tenório não o perdeu. Estudou muito, passou por vários empregos, chegou à faculdade e até doutor se tornou.

     Dominava o computador como se um brinquedo fosse. E os números...?  Ah! como ninguém. Brincava com eles com a mesma facilidade e destreza com que contava as bolinhas de gude na infância.

     O seu caminho foi árduo, mas chegou onde queria: perto da política e dos políticos também. Não demorou tanto e ultrapassou as muralhas do império Sarney.

     Tornou-se homem da mais alta confiança: o gestor, e aplicador de todas as operações financeiras da família, dentro e fora do país. Não era só mais um funcionário de alto padrão. Era o amigo, o confidente, o conselheiro.

     Esse domingo seria bem diferente.  Amanheceu cinzento. A cidadezinha de Crotone ainda dormia. Tenório embarca num trem que o levaria até Milão.  Semblante sisudo e preocupado esconde um coração explodindo de felicidade.

     Não carrega bagagem, apenas uma carteira de couro legítimo contendo uns poucos euros, o suficiente pra chegar até Milão.

     Lá segue de táxi até o aeroporto, onde Marina, sua esposa, aguarda-o bem ansiosa. Partem  para a ilha de Córsega, praia vulcânica e isolada, em território francês. Ideal pra viverem o resto da vida.  Já acomodados no avião, Tenório abre o jornal "Le France" e lê apenas a manchete estampada na primeira página: "JOSÉ SARNEY, EX-PRESIDENTE,  É ENCONTRADO MORTO EM SEU GABINETE , COM TIRO NA CABEÇA".

     Tenório lança um olhar de desdém, sorri ironicamente, fecha o jornal e acomodando a cabeça num pequeno travesseiro de bordo adormece profundamente.



    

OS ANJOS

O anjo das donzelas - Machado de Assis