BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL

quarta-feira, 29 de junho de 2011

PARA SEMPRE - Daisy Daghlian


PARA SEMPRE
Daisy Daghlian





O amor me atingiu como uma avalanche, naquela tarde fria. Caminhava apressada em direção ao trabalho, trombei com aquele homem, a princípio assustador, que me acolheu delicadamente em seus braços. Nossos olhares se encontraram. Estremeci de emoção, o coração descontrolado, nossas mãos como num passe de mágica se entrelaçaram e, sem nem ao menos trocarmos uma palavra, nos dirigimos para o banco que ficava do outro lado da praça.


As palavras brotaram de nossos lábios, como uma poesia. Desfrutei daquele momento, demonstrando meu contentamento. Esperei, sonhei, idealizei o amor e, agora o encontrei - pensava a moça.


Naquele dia Ana estava encantada, André deslumbrado.


Esqueceram os compromissos, se amaram.

Estavam na meia idade. Ele escritor, ela arquiteta.
Os encontros e desencontros se sucederam durante a vida.


O encontro daquele momento, apesar de mais maduros e experientes, os tornou adolescentes.


Aquele amor tardio, fez romper toda paixão, que antes aprisionada, agora explodia como estrelas coloridas.

O tempo, não importava quanto durasse, este momento era para sempre.


A herança - Daisy Daghlian



A herança

Daisy Saghlian


Sílvia, Paula e Regina ficaram estarrecidas ao se depararem com aquela casa em ruínas, no meio do nada, que coubera a elas como herança de tio Bartolomeu.

Sabiam das excentricidades do velho solteirão, sempre pregando peças nos parentes e amigos. Parecia bem próprio dele, morar naqueles destroços, sala de terra batida, único móvel o sofá, rodeado de pedras, mais parecia um sítio arqueológico. Um lustre muito antigo pendia desconcertado no que parecia ser o teto. O restante da casa não estava em melhores condições. Quartos destruídos, cozinha e banheiro inexistentes.

Moças da cidade haviam viajado horas para chegar e encontrar aquele sítio.

Quando souberam do legado, arrumaram as malas como se fossem passar férias num hotel fazenda. Percebiam agora como destoavam do ambiente.

Exaustas, jogaram a bagagem no chão e, sentaram naquele sofá empoeirado. Sílvia dormiu imediatamente, Paula acendeu um cigarro, Regina parecia a única preocupada com aquela situação. Olhou desanimada as ervas daninhas que cresciam sem pudor.

No testamento, o tio exigia que elas passassem um mês naquele local, para tomar posse de todos os bens, que não eram poucos.

Não sabia como sobreviveriam a tanto desconforto. Uma coisa a intrigava. No terreiro havia um poço artesiano, uma horta bem cuidada, galinhas ciscando livremente, mais ao longe uma construção que parecia ser um curral, destoando completamente da casa.

Passos soaram, levantou-se temerosa, no que restava da porta surgiu a figura daquele homem jovem e forte, carregando cestos cheios de mantimentos, frutas e verduras. Não disse uma palavra, deixou tudo ali mesmo e, se foi. Regina correu para alcançá-lo, gritou para que parasse, o jovem desapareceu.

Silvia acordou, Paula saiu do torpor que a dominara, Regina contou o acontecido, as três resolveram se ajeitar da melhor forma, para passar aquele mês.

Deram uma busca no único armário, encontraram umas redes velhas, ajeitaram um canto da sala para servir de dormitório. Felizmente era verão, não precisavam de cobertores. Não tinha eletricidade, encontraram velas. O problema maior era o banheiro. Banho só com balde, água gelada. As necessidades, teriam que usar o mato mesmo.

A noite encontrou-as mais confiantes. Conseguiriam.

Jantaram. Fizeram planos para o dias seguintes. Adormeceram.

No meio da noite Paula começou a gritar, fotos de homens eram projetadas na parede como flashes atormentando as moças que nada entendiam, queriam fugir dali, não podiam. Queriam a herança.

Os dias foram passando, tudo se repetia, durante o dia esforçavam-se para sobreviver a aquele desconforto, à noite era um horror, fotos projetadas, ruídos tenebrosos soavam o tempo inteiro. Dormiam sentadas juntas no sofá, acordando sobressaltadas. Apesar do temor, continuavam firmes. Queriam desvendar aquele mistério.

Certa manhã encontraram um bilhete.

Dizia: Venham ao curral assim que acordarem.

Ao chegarem encontraram aquele mesmo rapaz que lhes trazia os mantimentos.

Apresentou-se: sou o caseiro do sítio, disse.

Meu nome é Carlos Siqueira. Fui encarregado pelo tio de vocês de alimentá-las e ao mesmo tempo assustá-las. Se fugissem não seriam dignas da herança. Venham conhecer a verdadeira casa do tio Bartolomeu.

O curral era na verdade uma casa encantadora, confortável, limpa e repleta de objetos de arte e livros, muitos livros.

Começaram a rir. Tio Bartolomeu até depois de morto lhes pregara mais uma peça. O que era bem próprio dele

quarta-feira, 22 de junho de 2011

COISAS QUE ACONTECEM ENTRE CASAIS - Hirtis Lazarin



COISAS QUE ACONTECEM ENTRE CASAIS
Hirtis Lazarin


Honório e Amélia formavam um casal bonito.

Ele, um advogado criminalista, muito respeitado nos meios jurídicos pela lisura e competência.

Amélia, uma mulher bonita e elegante, vinha de uma família tradicional paulista, os tais "Barões do café", criada com muito luxo e mimo. Felizmente casara com o homem perfeito, capaz de dar continuidade àquela vida de riqueza e conforto.

Não tiveram filhos. E, apesar da intensa vida social que a posição lhes proporcionava, jantares com ilustres, festas, reuniões... a vida caíra na rotina.

Honório trabalhava além da conta e Amélia compensava a solidão nas compras; tornara-se uma consumidora voraz e compulsiva.

Estava no "shopping", numa loja de grife masculina; comprava um presente a Honório; estava chegando o dia de seu aniversário. Encontrou-se ali, por acaso, com Gustavo, amigo da família. Ele estivera fora do Brasil nos últimos cinco anos, presidindo na Inglaterra uma multinacional.

Cavalheiro, de gosto refinado e expert em moda, foi solicitado pra ajudá-la nas compras. Claro, ele não recusou o convite e o bate-papo continuou num café expresso.

Entre um café e um "cupcake" não só os assuntos foram colocados em dia... Surgiu o convite para um novo encontro... Mais outro... E foi assim que Amélia e Gustavo tornaram-se amantes.

Amélia parecia outra mulher; até as ajudantes do dia-a-dia recebiam um novo tratamento. Rejuvenesceu por dentro e por fora. Vivia cantando. Era uma amante de primeira, dentro e fora de casa. Não podia levantar suspeitas.

Honório que não era bobo nem nada, claro, percebeu a transformação. Mas Amélia era cautelosa, sabia manobrar a situação.

Era quinta-feira, uma tarde mais que especial. Gustava voltava de uma viagem de negócios que durou um mês. Trouxera à amante um belíssimo casaco de vison.

O tal casaco, sonho de consumo de muitas mulheres, tornou-se um pesadelo à Amélia. Como levá-lo pra casa? De jeito nenhum. Mentir ao marido que havia comprado, nem pensar. O coitado estava com dívidas atrasadas; os limites dos cartões de crédito foram estourados por ela.

Pintou-lhe uma idéia brilhante: passou na Caixa Econômica Federal e penhorou o casaco. Conseguiu uma boa quantia em dinheiro. Perfeito!

Em casa, convenceu Honório da sua boa intenção: com dor no coração, penhorara aquele conjunto de esmeraldas, relíquia de família; queria colaborar com o pagamento das contas; não era justo ele estar passando por tais sufocos por conta dos gastos excessivos, que ela, inconsequentemente, provocara com compras desnecessárias.

Até que Honório ficou comovido com o despreendimento de Amélia, num primeiro momento. Sabia o valor efetivo daquela jóia, que pertencera a sua bisavó.

Mas...uma pulguinha instalou-se atrás da sua orelha e ali fixou morada. Milhóes de pensamentos e suposições. Ficou mais atento às saídas da esposa, voltava pra casa em horários diferentes, alterou sua rotina de trabalho...

Numa tarde qualquer, chuvosa e muito fria, Honório telefonou a Amélia. Intimou-a carinhosamente a dar um pulo até o escritório. Convenceu-a. Tinha uma boa novidade. Curiosa como toda mulher, deixou a má vontade de lado e não demorou quase nada pra chegar lá.

Estava ansiosa. Nunca havia acontecido qualquer situação semelhante àquela.

__ Tenho um presente pra você, meu amor. Hoje é um dia especial!

__ Presente, Honório? Será que me esqueci de alguma data importante? Você me deixou encabulada!

Ele entegou-lhe uma caixa grande.

Amélia balançava a caixa, virava, revirava, tentando adivinhar o conteúdo. Nenhum ruído. A excitação aumentou; arrancou bruscamente a fita e rasgou o papel que tão delicadamente ornava a caixa. Dentro da caixa grande havia uma outra menor e uma cartinha; mas era estranho, o papel estava amassado e amarelado. Coisa antiga.

Desprezou o papel dobrado e abriu a caixa menor. Não podia ser! Pálida, sem cor, caiu numa poltrona que, por sorte, estva bem atrás dela, tendo nas mãos... aquele famoso conjunto de esmeraldas.

Honório grita a sua secretária solicitando, com urgência um copo com água.

A funcionária obedece e num instante, assustada, entra na sala vestindo um lindo casaco de vison.

Amélia infarta.




NOTA: O bilhete que Amélia não conseguiu ler, escrito num papel velho e amassado, dizia assim:


A você, Gustavo

meu único amor

Estava sozinha

Mais do que precisava

Mais do que podia dar conta.



Chegou VOCÊ de surpresa

Pegou-me de jeito

Não hesitei, me entreguei

E de pronto te amei.



Um brinde de vinho tinto

Só nós dois nos escombros da lua

Ao sentimento que tanto sinto

À minha vida que é só sua!

(para sempre,

sua Amélia)

terça-feira, 21 de junho de 2011

FESTA JUNINA - Dinah Ribeiro Amorim


FESTA JUNINA
Dinah Ribeiro Amorim
(prosa poética)



Rosinha tinha feito promessa

Queria arranjar casamento

Recorreu a Santo Antonio

E escolheu o Honório.

Enfeitou-se toda, pôs brincos,

Para dançar a quadrilha

Organizada pelo pároco Dito

Durante a festa junina.

Alegrou-se muito sonhando

Queria dançar só com ele

Agarradinha, abraçando

Ficando pertinho dele!

Chegou a noite da festa,

Todo o povo cantando

Cada um se preparando

Com animada seresta.

Honório foi se colocando

De Rosinha se aproximando

Também andava sonhando

Com a mocinha esperta!

Começou a tão falada quadrilha

Com os pares rodopiando

Rosinha e Honório juntos

Novos passos ensaiando.

Bailaram a noite inteira

Essa gente festeira,

Deixando a Igreja cheia

Somente perdendo pras feiras.

Rosinha já estava certa

Do amor ter conseguido

Promessa pra santo Antonio

É certeza do pedido!

De repente, cadê Honório?

Caiu a noite, deu sumiço!

Fugiu, pobre Rosinha,

Com a mulher do Tenório,

Usando a triste mocinha

Pra imitar compromisso

Disfarçando, assim, seu pecado,

Anulando a fé em santo Antonio

Com esse comportamento abusado.

Passou um ano, dois,

Rosinha emagreceu...

Mas não perdeu a fé

No santo ao qual recorreu.

Eis que Honório, um dia,

Aparece, de surpresa. E,

Também triste, abatido, pedia

Perdão ao santo da igreja

Que um dia lhe havia dado

Um amor de bandeja.

Rosinha o perdoou...

Casaram-se e foram felizes

Santo Antonio garantiu

Aceitando aquele noivo

Que um dia lhe mentiu!

Tiveram muitos filhos,

Todos fiéis ao Senhor!

Não deixando Rosinha de ir

Às festas, com muito ardor,

Dançando, agarradinha,

Com Honório, seu único amor!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ode ao tempo que passa - Suzana Lima



Ode ao tempo que passa
Suzana Lima

A vida escorre entre meus frágeis dedos
Deixando apenas meus fracassos e medos.
Ah, já se foi o tempo em que eu a tinha
Cativa de minhas vontades e desejos.
Dominava-a por inteira, ela era minha,
Para viver paixões, coragem ou desatino,
Porque era eu quem escrevia o meu destino.
Despedacei corações, também fui despedaçada.
Mas naquele tempo, jovem e tresloucada,
Eu ria de tudo, tudo podia, era onipotente.

Hoje a vida me escapa facilmente
E leva junto meu tempo e as memórias
Das paixões ardentes que eu vivi, eu sei.
Mas são lembranças mornas. Onde ficaram as histórias
Dos quentes amores, do amor para sempre?

Ah, apenas de ti, amor amado
Lembro com tanta intensidade, que eu queria
Estar de volta na imensa pradaria,
Onde me perdi de amor, me dei inteira
Na relva macia, nós dois deitados,
o perfume do jasmim e a brisa ligeira
roçando nossos corpos abraçados.
Eu em você, você em mim.

Ainda sinto o gosto de teu beijo,
Ainda arde a força do desejo
Ainda vejo seu olhar profundo,
brilhando de gozo sob a luz do sol,
Em nossa entrega tanto desejada,
Quão longa foi a espera, tão adiada.

Tua lembrança tocou meu ser tão fundamente
Que tudo mais pode sumir de minha mente.
Mesmo a morte chegando, afinal,
Tua imagem estará comigo para sempre
Sempre bela, inteira, imortal.

Saudade Machucadeira - Suzana Lima



SAUDADE MACHUCADEIRA
Suzana Lima


Ai saudade machucadeira
De uma dor andadeira
Que em minha alma passeia
Querendo que tu me queiras
Querendo o sonho já ido,
Ou o que podia ter sido
De tão belo e tão doído
Que passa o tempo e não olvido

Ai saudade machucadeira
Que queima igual à fogueira
Já não sei onde te achar
Quando teu rastro farejo
Meu espírito andejo
Corre louco a te buscar
Pelo tanto que desejo
Poder voltar a te amar

Ai saudade machucadeira
Tu feres como espinheira
E como e de que maneira
Posso arrancar-te de mim?
Pois meu único pecado
Do qual me sinto culpado
É de te amar sem ter fim

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O PREÇO DA TRAIÇÃO - Dinah Ribeiro Amorim



O PREÇO DA TRAIÇÃO!
Dinah Ribeiro Amorim


  Enquanto Honório, marido de Amélia, preocupado com a desmoralização de sua vida profissional, causada pela perda de um processo importante, na justiça, o que acaba com sua fama de bom advogado, resolvendo abandonar tudo e partir, Gustavo e sua mulher, continuam seu caso de amor.

  Conheceram-se numa festa, quando Amélia, sentindo-se rejeitada pelo marido e desejada por outro, resolve assumir uma situação nova, tornando-se sua amante.

  Nem percebe a preocupação do marido com situação financeira e profissional, presenteando Gustavo com presentes valiosos, ignorando os problemas da vida familiar.

  Com a saída de Honório de sua vida, sente-se mais livre e feliz para dedicar-se ao amante. Quem sabe, viverem juntos, unidos para sempre...

  Sua cabeça linda e loira, faz planos ilusórios, sem ater-se à realidade dos fatos.
  Eis que Honório não manda mais notícias! Nem dinheiro...

  As contas a pagar se avolumam...Cartões de crédito, despesas com a casa, roupas; Amélia que nunca preocupou-se com isso, se desespera e recorre a Gustavo, seu amante!

  Como iria fazer? Onde buscar dinheiro?

  Gustavo, ao ver que a mina de ouro cessa, perde o interesse por ela, afastando-se aos poucos...

  Amélia percebe  então que ele não passa de um gigolô, interessando-se por mulheres ricas ou de maridos ricos! Enquanto ganhasse presentes e fosse sustentado por elas, tudo bem! Se as coisas mudavam, saia da situação e procurava outra.

  Que arrependimento e sofrimento passou a sentir essa má esposa! Sem saber o que fazer, procura o marido e, humildemente, pede-lhe perdão. Ao vê-lo abatido, angustiado, diferente do homem que conhecera, apieda-se dele e, culpando-se intimamente pelo que também ajudara a causar, procura auxiliá-lo prometendo-lhe arrumar um emprego e, juntos, saírem desta situação.

Vende tudo que possui, até a casa, para saldar dívidas e, incentivando-o a começar de novo em outra cidade, iniciam, novamente, uma vida em comum.

  Mais fortes e unidos como nunca foram, vivenciam momentos de alegrias futuras, quando a vida começa a melhorar, valendo a pena o esforço de ambos num recomeço!



AMÉLIA - Daisy Daghlian



Amélia
Daisy Daghlian


Amélia aguardou, calmamente, que Honório tomasse seu café mimou-o com sorrisos doces, oferecendo ainda os biscoitos de nata que ela mesmo fizera e que ele tanto gostava. Ele deu-lhe um abraço caloroso, beijando-a , despediu-se a contragosto, tinha que trabalhar.

Mal fechou o portão, correu para seu quarto, colocou o vestido novo sobre a cama, fez sua toillete com esmero, vestiu-se, ao se olhar no espelho se achou linda. Ficou a espera, quando o relógio deu as 11 badaladas, a campainha soou.

Apressadamente, desceu as escadas, indo ao encontro de Gustavo, com o coração palpitante. Ele, intimo da casa, sem muitos escrúpulos e com esperteza, conquistara Amélia,totalmente, esquecendo-se até da sua amizade de anos. Foi aos poucos se fazendo intimo, mandava-lhe flores, bilhetinhos, bombons, um coração de ouro com seu retrato.

Ela, entediada com a vida de dona de casa, deixara-se levar pela conversa do malandro.

Há meses, se encontravam e se amavam com sofreguidão.

O que começou, como uma aventura , foi se tornando cada vez mais sério, ao ponto dele pedir que ela largasse o marido.

Hesitante, ela pensava na vida confortável que levava, gostava ainda do marido e via-se dividida entre a paixão e o amor calmo e sólido.

Os dois, nem esperaram entrar em casa, beijaram-se ali mesmo no portão, sem se importar com a bisbilhotice dos vizinhos. Ele não tinha nada a perder, ela estava para perder sua estabilidade e, o respeito com que era tratada por todos. Conversaram muito, naquele dia, trocaram juras de amor. Ela comprometeu-se a enviar uma resposta ao seu pedido de união por escrito.

Ouviram o ranger do portão. Recompuseram-se. Honório entrou cansado do trabalho, mas ficou feliz ao ver a esposa e o amigo a sua espera. Jantaram juntos como de hábito. Após o café, Gustavo se levantou para ir embora, trocou olhares significativos com a amante. O marido nada percebeu.

Amélia passou a noite em claro, tentando escrever para o amante. Pensando naquela paixão desenfreada escreveu:



Meu amado

Sou sua de corpo e alma. Refleti muito. Não quero perdê-lo.

Sei que não vai entender minha resolução. Decidi ficar com Honório. Preciso de estabilidade.

Não sei o que vai pensar, quero que continue meu amante, você é o ar que respiro.

Amanhã no mesmo horário aguardo ansiosamente sua visita.

Mil beijos

Amélia

O BILHETE - Dinah Ribeiro Amorim




O BILHETE”
Dinah Ribeiro de Amorim

Honório encontra uma carteira na rua, com dinheiro, justamente quando estava cheio de dívidas.

Percebe, então, que era de seu melhor amigo, Gustavo, pelo cartão que havia dentro.Também havia um bilhete mas, respeitosamente, não o lê.

Resolve devolvê-la e, quando chega em casa, encontra sua mulher Amélia, muito nervosa, conversando justamente com quem? Gustavo.

Devolve-lhe a carteira e, Amélia, apressadamente, sem que o marido perceba, apanha o bilhete e rasga-o em mil pedaços.

O bilhete continha o seguinte:

“Querido Gustavo, não agüento mais essa situação. Aceito seu pedido de fuga. Deixarei Honório assim que ele resolva fazer uma viagem e, desta vez, é para sempre!

Suas atitudes esquisitas, seu olhar preocupado e distraído, como se eu fosse mais um móvel da casa, estão me deixando louca. É impossível continuar um casamento assim... Amando você e vivendo com um homem que nem me nota. Mas, meu querido, do que viveremos? Até agora foi ele quem nos sustentou....

Aguardo, ansiosamente, sua resposta e, seja ela qual for, meu grande amor por você já diz Sim!”

Beijos, da sua Amelia.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

TERROR NOTURNO - Dinah Ribeiro Amorim



TERROR NOTURNO
Dinah Ribeiro de Amorim

  Deixou a estrada e se embrenhou no mato. Não conhecia direito aqueles lados da fazenda, nem sabia se eram terras do dono. 

  Folhas batem-lhe no rosto e galhos cortam sua pele como chicotadas.

  Seus pés afundam em barro mole e faz um esforço enorme para puxá-los. Se for um pântano?

  Caminha às tontas, às vezes em círculo, retornando ao lugar de partida.

  Não sabe mais aonde vai! Perdeu-se!

  Voltar agora fica difícil! Melhor seguir em  frente.

  Os barulhos da noite continuam. Sapos coaxando; aqui e ali uns uivos, alguns latidos ao longe.

  Vaga - lumes acendem e apagam, piscando suas luzes como pequenas lâmpadas que iluminam um pouco o caminho. Parecem estrelas no chão escuro da noite!

  O pobre homem afunda-se cada vez mais na mata cerrada e hostil, topando com pequenos arbustos e grossos troncos.

  Já cansado e assustado, ferido por alguns espinhos que encontrou na sua fuga, pensa em sentar-se. Esperaria amanhecer. Voltaria, então, à estrada.

  De repente, ouve ao longe um barulho, parecem batidas de martelo. Seria verdade aquela história? O tal José Amaro ainda não se fora? Por que meteu-se nessa?

  O pânico aumenta mas a curiosidade é maior!

  Continua caminhando, agora em direção ao som...

  Quanto mais se aproxima, mais ele aumenta. Começa a ouvir vozes falando. Muitas vozes...

  Não dá para distinguir direito o que falam... José Amaro tem companhia!

  Com os nervos à  flor da pele, sua cabeça gira. Nos ouvidos, um zumbido incomodativo aparece deixando-o tonto, em desequilíbrio. Um peso estranho na nuca e um suor frio lhe escorre pela testa. Tremores pelo corpo todo! Nunca sentira antes. Logo ele, sempre tão forte!

  As vozes aumentam. Se aproximam.

  Ele para numa clareira iluminada pela Lua. É noite de Lua Cheia, mau presságio que o favorece.

  Olha demoradamente ao redor e fica estarrecido.

  O vento rápido da noite balança os galhos de uma cajazeira que batem-se, produzindo ruídos como se fossem vozes... ou seriam seus nervos?

  Uma cabana escondida, em plena floresta, com a porta batendo em meio à ventania, produz o som das marteladas assustadoras...

  O pobre homem, confuso, aproxima-se da janela e avista, lá dentro, uma ninhada de pintinhos.

  Uma galinha vermelha, velha e gorda, agasalha-os debaixo das asas, parecendo adormecida.

  Assustam-se todos quando ele entra para passar a noite. Um esvoaçar de penas e asas por todo lado e um cacarejar bravo da mãe sonolenta o faz parar momentaneamente.

  “Se há uma criação, deve haver algum dono perto”, pensa.

  Acomoda-se num canto e, cansado, muito cansado, adormece...

  Com o silêncio, faz-se a calma! A paz volta a reinar colocando ordem no galinheiro e na sua cabeça também...

  Quando surgisse um novo dia, retomaria seu caminho novamente!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

O PREÇO DA HONRA - Suzana Lima



O PREÇO DA HONRA
Suzana Lima


Depois que achou a carteira com tanto dinheiro e viu os cartões que provavam que ela pertencia ao seu amigo Gustavo, Honório ficou como preso a um pêndulo: ora tendia para o lado de seus escrúpulos, que o levavam a devolver a carteira com todo seu conteúdo, ora pendia para o lado da esperteza: afinal tinha achado e não roubado e aquela dinheirama toda viria bem a calhar para liquidar o montante de suas dívidas.

Tentava enganar a si mesmo raciocinando que Gustavo era muito rico, não tinha família, e o dinheiro não ia lhe fazer falta enquanto que para ele, era a salvação de sua vida.

Andou um pouco até a praia do Flamengo e lá se sentou, observando o vaivém do mar, assemelhado a si próprio naquela hora. Devolvo? Não devolvo? No fim, seu bom caráter prevaleceu, tanto quanto o senso de amizade e resolveu que ia devolver. Pensaria depois num jeito para pagar o que devia.

Abriu a carteira mais uma vez, como a se despedir daquele verdadeiro bilhete premiado que ia dispensar. Couro legítimo, provavelmente importada, com o monograma do amigo, em prata: AG – Augusto Gustavo. Nem se lembrava que o primeiro nome de Gustavo era Augusto.

As cédulas dentro estavam bem organizadas, das menores para as maiores. Observou melhor os cartões de visita do amigo: elegantes, excelente papel, o nome de Gustavo escrito em relevo. Coisa fina. Também encontrou outros de amigos e clientes. Gustavo era bem relacionado e sabia manter suas amizades e contatos. Só então notou, lá no fundo, uns papéis bem dobradinhos. Desdobrou-os, curioso, porque se lembrou que Gustavo gostava de guardar tudo: nome de médico, dentista, tabacaria que tinha um bom charuto, onde se encontrar um bom vinho, um restaurante que tinha gostado, e muitas dicas para cavalos, ele era freqüentador assíduo do Jockey Clube. Honório lia e dobrava do mesmo jeito, pretendia devolver tudo direitinho, sem que o amigo percebesse sua intromissão.

Nisso que dobrava e desdobrava os papéis notou um de textura diferente, e cor-de-rosa. Ah, deve ser de mulher, pensou, safadinho o Gustavo, nunca comentava sua vida amorosa. Tinham sido amigos de farra até Honório se casar, mas daí por diante, o amigo fechava-se em copas, nem mesmo provocado fazia alguma confidência.

Por isso mesmo, Honório deixou suas reservas de lado, afinal, o que ia fazer era uma invasão de privacidade , mas a curiosidade foi mais forte e resolveu ler o bilhete. Abriu devagar, deliciado com a travessura e mais ainda por desvendar segredos do amigo. Sentiu logo um doce perfume enquanto reparava na bela letra, de mulher, se via, pelo capricho, que na hora lhe lembrou algo (talvez as aulas de caligrafia?)

Começou a ler, e aos poucos, seu sorriso maroto foi-se transformando num esgar de fúria. Reconheceu a letra e assinatura de sua mulher e o conteúdo parecia ferro em brasa queimando seu coração. Da raiva foi à autocomiseração, daí para a amargura e sentimentos de vingança. Suava, embora o tempo estivesse frio.

Era por isso que o miserável não saía de sua casa. A mulher geralmente dispensava a empregada às tardes, com recados e tarefas fora de casa, certamente para ficarem a sós e bem à vontade. Sempre ouvia risadinhas e olhares cúmplices entre os dois, mas jamais pensaria que estivesse sendo traído em seu próprio lar.

Sua mulher sempre justificava a presença constante de Gustavo em sua casa, dizendo que ele se sentia muito só, era filho único e a mãe tinha morrido recentemente e gostava do ambiente do lar dos dois, afinal eram amigos há muito tempo!... Era o cúmulo!

Começou a pensar o que faria. Foi do homicídio à tortura, da difamação pública à indiferença, mas a vingança estava ali presente, em todas as suas formas.

E se eles pensarem que eu não li nada? E se eu chegar botando a boca no mundo e exigindo satisfação? O que faço para castigar estes dois?

Não tornou a guardar o bilhete na carteira. Guardou-o no bolso do casaco e se encaminhou para a casa andando de um jeito que parecia carregar uma tonelada nas costas. Já no portão ouviu a conversa sussurrada dos dois. Cortinas fechadas, embora o dia estivesse claro. Pequenos detalhes que sempre lhe passaram despercebidos e que agora, tinham um significado terrível para sua honra.

Entrou sem fazer barulho, mas a chave na porta denunciou sua chegada. Viu os dois se ajeitando no sofá, disfarçando a proximidade. Cumprimentou-os disfarçando a raiva e foi logo ao assunto, enquanto se sentava em sua cadeira.

- Gustavo, você não perdeu nada?

- Minha carteira, Honório. Estava agora mesmo perguntando a Amélia se eu não a tinha esquecido aqui, estávamos até procurando entre as almofadas do sofá, quando você chegou.

- Ah, sei – pensou Honório - Bem, eu a encontrei lá no Largo da Carioca, no chão, quase passo por ela sem ver. Tive que abri-la para ver de quem era. Você é tão organizado que jamais pensei que fosse perder uma carteira e tão longe de sua casa. Estava preocupado com alguma coisa?

- Imagine, Honório, está tudo bem. Deve ter sido enquanto fazia um jogo com os boomakers lá do Largo da Carioca. Ainda bem que você achou. Ganhei muito dinheiro com os cavalos.

Honório entregou a carteira ao amigo sem o bilhete do amor, mas com todo o dinheiro.

- Bom, aqui está ela, inclusive o dinheiro. Vou lavar as mãos para o jantar – falou e saiu da sala. - Por uma fresta viu os dois procurando algo dentro da carteira. Quando voltou, notou a aflição nos olhos de sua mulher e o constrangimento em seu amigo.

- Está tudo aí, não? Perguntou - Só abri para ver de quem era e notei que tinha bastante dinheiro. Sou pobre, mas tenho caráter e não sou ladrão.

- Claro, Horácio, você sempre foi muito correto. Está tudo aqui, obrigada. – Gustavo não sabia como se comportar, inquieto e inseguro com a aparente fleugma do amigo. Ele teria lido o bilhete?

Amélia, disfarçando a aflição, pediu licença para ir à cozinha ver o jantar.

Honório acendeu seu cachimbo com calma, o coração se petrificando diante de tanta desfaçatez. E olhando para o amigo falou com fingida displlicência:

- Bem caro amigo, acho que vou aceitar aquele dinheiro que me ofereceu. Estava constrangido mas vejo que não vai lhe fazer falta os 700 mil que lhe pedi. Quem anda com isso numa carteira para lá e para cá, é porque tem muito mais de onde veio.

- Verdade, Horácio, é das corridas. Assim como vem, vai. Então aceite tudo isso, por favor, sei que tem dívidas a pagar. - Deu-lhe todo o dinheiro que estava na carteira, levantou-se e pegou o casaco. – Não vou ficar para o jantar, agradeço, mas tenho um compromisso inadiável.

- Ah, espere um pouquinho Gustavo. Vou aceitar o dinheiro sim, mas precisamos conversar sobre uma quantia fixa por mês, não acha?

Gustavo estacou na porta, estarrecido:

- Uma quantia por mês, Horácio?

- Claro Gustavo. Isso não vai ficar barato. Vamos ter muita despesa daqui para a frente. Amélia é uma mulher cara, gosta de luxo. A menos que vocês dois queiram assumir isso tudo em sua própria casa. Fica a critério de vocês, mas sabe como é, o escândalo, seu trabalho ia ficar bem prejudicado, não é? E ela, então? Nossa sociedade é muito conservadora, o pessoal já gosta de falar, o que seus clientes iam dizer, não é?

.- Você estipula uma quantia, Horácio – falou Gustavo, como se estivesse engolindo veneno. - Combine com Amélia, o que resolverem está bom para mim. – e saiu com pressa, sem olhar para trás. - Horácio continuou sentado na cadeira, olhar distante.

Amélia ia chegando à mesa, com as travessas do jantar, de olhar baixo. Horácio olhou sua mulher, tão bela e tão tola, pensou. Jogou meu amor no lixo, como se joga roupa velha. Sabia que ia espezinhá-la e sabia também que ia sofrer com isso porque a amava ainda, mas não voltou atrás em seu propósito.

- Você ouviu isso, Amélia? Gustavo não vai jantar mais conosco. Nem hoje, nem nunca. - tirou o bilhete do bolso:

- Correspondência interessante esta... Quer ouvir?

E aí Horácio leu o bilhete rosa outra vez, pausadamente, como se estivesse mastigando vidro.



Meu amor querido.

Sei que ontem você ficou abalado com a notícia que lhe dei, mas não precisa se preocupar. Sou casada, nada mais natural que isso aconteça num casamento, não é? Sei que Horácio vai ficar encantado e toda minha família também.

Nada vai mudar entre nós. Meu amor por você continua imenso, cada dia maior, ainda mais que agora espero um filho seu. Eu estou especialmente feliz porque agora vou ter um pedacinho seu dentro de mim, não posso imaginar coisa melhor para coroar nosso amor.

Meu querido Gus, sua para sempre

Beijos queridos

Amélia