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quarta-feira, 4 de julho de 2012

SABEDORIA MATERNA - Dinah Ribeiro Amorim



SABEDORIA MATERNA!

Dinah Ribeiro de Amorim


  Manhã ensolarada e quente no solar dos Vieira Couto.

  A luz, penetrando em raios exprimidos pelas frestas das cortinas, refletia-se nos móveis e chão daquela sala de armários, sofás e mesas entalhadas com arabescos suaves e artísticos. Demonstravam o poderio e a abundância dos senhores do lugar. Uma grande extensão de terras, circundadas por montanhas, escondendo grande plantação de cana, riqueza econômica daquela região do nordeste  brasileiro.

  Época ainda do Brasil-colonia, quando os senhores de engenho dominavam, determinando as regras de como viver nas pequenas cidades que nasciam. Eram os donos das famílias, dos empregados, dos inúmeros escravos que possuíam, das autoridades exercidas no país em formação.

  Jogado num canto escuro da sala, em meio a um canapé estofado de veludo verde com acabamentos dourados, denunciando sua origem francesa, estava Rodolfo, o filho mais jovem do coronel Jacinto, o rico fazendeiro local, senhor daquela região, semi adormecido, aparentando cansaço e palidez de uma noite mal dormida.

  Andava ultimamente insone, distraído, vagando à noite pela casa, como se pensamentos confusos atrapalhassem sua mente sempre tão sóbria e alegre por natureza.

  Era diferente dos outros filhos, enérgicos e severos como o pai. 

Ao contrário, saíra à mãe, mais dócil, amoroso, sentimental e apaixonado, tratando com delicadeza e bondade os escravos sofridos da senzala.

  Assim, semi adormecido, todo vestido como no dia anterior, encontra-o sua mãe, a senhora Rosário, primeira a se levantar. Não esperara seu café ser servido no quarto pela mucama e levantara logo cedo, preocupada com aquele filho mais moço, pressentindo que não andava muito bem.

  Dirige-se logo a ele, chamando Rodolfo delicadamente, afastando levemente as pesadas cortinas azuis.

  Assustado, o moço abre os olhos e encontra sua mãe inclinada sobre ele, com olhar amistoso e inquiridor.

 “Que fazia na sala até aquela hora que não fora para seu quarto.

 Com certeza não andava bem de saúde,” pensa ela. Fazia dias que o observava e seu instinto materno lhe dizia que algo estranho estava acontecendo.

  Rodolfo sente na mãe compaixão e bondade. Resolve abrir-lhe o coração. Andava apaixonado por uma escrava nova que chegara à fazenda. Morena clara, bonita, de olhos pretos enormes, corpo esguio, forte para o trabalho e para a vida. Deveria ter mãe escrava e pai branco, sua pele  denunciava sua origem, não totalmente negra, o que a fazia diferente das outras. Compadecera-se dela, seu olhar triste e calmo, sua aceitação da realidade, vendida que fora por um amigo de seu pai e recomendada como ótima escrava para serviços domésticos. Sr. Jacinto também se encantara com a moça, Joana era seu nome pois fora batizada e, fazia questão de usar seus préstimos como escrava pessoal, costume normal na época, quando os donos de escravos se serviam das mulheres que quisessem, além das esposas. Isso estava acabando com a vida do filho, que não sabia como agir diante dessa situação. Amando uma escrava, coisa não muito normal dentro dos costumes da casa e, ainda amante do próprio pai, a quem temia e respeitava como todos.

  Dona Rosário, com a sabedoria e entendimento de quem já vivera muito, certa de que tudo passaria com o tempo, incentiva-o a viajar, sair daquele ambiente que o machucava tanto, conhecer Paris, cidade que tanto sonhara  e não tivera ainda oportunidade de ir. Dedicar-se à arte, desenho, pintura, conhecer pessoas famosas, seus ídolos, pois adorava pintar.

  Com certeza, em meio às alegrias oferecidas pela cidade luz, Rodolfo se apaixonaria por outra moça e esqueceria Joana, a escrava do pai e sua triste situação.

  O filho aceitou a orientação da mãe e preparou sua partida, muito angustiado, achando que simplesmente iria mudar o cenário mas o problema persistiria.

  Eis que se passam dois anos e Rodolfo resolve voltar, saudoso da família, dos seus, daquela região. Volta casado, feliz, com Francine, uma loura chique e moderna, grávida de seis meses, encantada por conhecer o Brasil e as terras tão faladas por ele. De Joana, a escrava de seu pai, não se lembrava mais.

 “ Infelizmente, existem coisas na vida que não conseguimos resolver de pronto e uma saída estratégica se faz necessária até que o problema se solucione com o tempo”, pensa, feliz, Da. Rosário...


CARTAS PARA JULIETA - Dinah Ribeiro Amorim



CARTAS PARA JULIETA!
Dinah Ribeiro de Amorim

  Marina, uma simpática morena, jovem, amorosa, trabalhava como secretária em uma firma de cosméticos e,  namorava André, coroa bonitão, divorciado, um dos diretores da firma.

  Como esse relacionamento já durava algum tempo, nutria a esperança de um compromisso mais sério, entre eles.

  De repente, sem motivo aparente, André resolve romper com ela e passa a cortejar Mônica, sua colega de sala.

  Decepcionada, entra em grande depressão e resolve pedir demissão da firma.

  Aconselhada por amigos, desiste da idéia e pede uma licença para viajar, espairecer um pouco.

  Tira algumas economias do banco e vai para a Itália, terra de seus avós, que sonhava conhecer.

  Passando por várias cidades magníficas, chega a Verona, histórica, palco do romance entre Romeu e Julieta. Fica encantada! Descobre que na antiga casa de Julieta, imaginada por Shakespeare, havia um depósito para pedidos e cartas de amor, simbolizando uma antiga lenda que o espírito de Julieta, sofredora no amor, atendia a todos.
  Resolve escrever também para ela, entrando na magia do lugar, mais como um desabafo do que crença.

                                                       Querida Julieta:

  Escrevo-lhe esta esperando também ser atendida. Gostaria de encontrar alguém que me amasse de verdade, assim como Romeu a amou.
  Tive um relacionamento apaixonado, mas fui traída por uma amiga que o roubou ou, melhor dizendo, o meu Romeu não me amava tanto.
  Estou muito decepcionada com a vida, com o amor, com o casamento. Não tenho, como vocês dois, mais vontade de viver.
  Sou sozinha e sem objetivos, a não ser trabalho, o que é muito sem graça e cansativo.
  Gostaria tanto de encontrar minha alma gêmea! Será que isso é possível, tem fundamento, ou o amor verdadeiro não existe, só o de conveniência.
  Espero ficar mais tempo aqui na Itália e conhecer Veneza, cidade natal dos meus avós. Casaram-se lá.
  Quem sabe, depois de lhe escrever, aparecerá alguém!
  Sem mais, emocionada em ver os lugares em que viveu, deixo-lhe beijos de uma pessoa amargurada, sofrida também com os males do amor!
 
                                                                Marina.

  Dobrou o papel e depositou num dos tijolos, destinados às cartas para Julieta.

  Foi até Veneza, maravilhou-se com suas belezas, hospedou-se num pequeno hotel e saiu a conhecer a cidade.

  Reparou num belo homem claro que a seguia, com jeito de italiano.

Entrou numa das igrejas e ele também. Estava havendo uma missa em japonês, para a colônia japonesa do lugar. Achou bastante interessante. Não demorou muito a se falarem. Marcelo era o seu nome, de família italiana, morador de Roma.

  Percorreram juntos os lugares pitorescos e nasceu entre eles uma forte atração. Marina percebeu que tinham grande companheirismo e afinidade.

  Ficaram juntos até o final de sua viagem, quando veio ao Brasil somente para liquidar suas coisas e vender o apartamento. Voltaria para a Itália, moraria em Roma com Marcelo, que a pedira em casamento.

  Verdade ou não, parece que Julieta ouviu o pedido de Marina!


(Exercício de aula baseado no filme do Cartas para Julieta)