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sábado, 1 de maio de 2010

A FLOR METALICA ESCANCARAVA-SE. - CIDA BIANCHINI


A FLOR METALICA ESCANCARAVA-SE.





CIDA BIANCHINI

O poeta subia no palco pela décima vez, para mostrar seus poemas, já que, seus livros apenas enfeitavam as bibliotecas. Não sabia se era certo ou errado, só tinha uma certeza: Indiscutivelmente era um inovador.

Com esperança e sem medo, atirava-se de corpo e alma numa entrega sem limites, expondo seus sentimentos verdadeiros, gritava a dor do abandono pela mulher que amava incontidamente.

A princípio, os aplausos não tinham muito peso, pois falava à platéias de estudantes adolescentes, que se deixavam levar mais pelo sentimento do que pela auto-crítica, ainda em formação.

Com o passar do tempo foi se projetando, porém, não com a velocidade que esperava.

Falava do amor, do rio da infância, falava da própria palavra. Interpretava seus poemas que pareciam sair da alma, para arrancar aplausos, e conseguia, pois era um ator nato.

Cresceu muito, tornou-se conhecido principalmente em seu estado, mas, ainda era muito pouco!

Publicou seus livros em mais de dez idiomas. Representou seu país por várias vezes, trazendo no peito a alegria de mais um título e no coração a tristeza de não ser devidamente reconhecido em sua terra.

Lembrou-se certa vez da passagem bíblica onde mostra que o próprio Cristo não fora reconhecido em sua cidade natal, a Galiléia, mas ele, simples mortal, poderia esperar tanto....Esperava sim, que suas obras fossem imortais...

Agora, fazia a Coluna literária no mais importante jornal de sua cidade, encontros com atores clássicos como: Fernanda Montenegro, escritores e poetas, já que, vivia sempre atualizado.

Gostava de falar sobre sua vida de adolescente, principalmente como aluno de Cecília Meireles, o que o envaidecia muito...

E o poeta que falava de flores perfumadas buscando projeção, resolveu transformar a flor.

Aos poucos elas foram perdendo o perfume, depois a suavidade das pétalas dando lugar a uma flor de arame farpado.Abraçou o rústico e gravou no cimento no chão da praça,o poema que mais amava, aquele que levou uma platéia de milhares de jovens e adolescentes ao delírio,

E naquela manhã de inverno sentiu-se aquecido não somente o corpo, mas também a alma. Em cima de um palco improvisado, sua voz fez eco, ao declamar o seu poema, “a menina dos seus olhos”:
“ Eu vim de geração de crianças traídas,

Eu vim de um montão de coisas destroçadas,

Eu tentei unir células e nervos,

Mas o rebanho morreu....

....Eu fui no outro lado da terra,

Buscar o girassol que morava no eixo....

...eu construí uma flor de arame farpado

Para levar na solidão....


Naquele momento, a flor metálica escancarou-se na garganta do poeta, que chorou, chorou, numa única certeza:


Estava feliz! Realizado...


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