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domingo, 28 de setembro de 2014

"As ondas chegam mansas e..." - Hirtis Lazarin


"As ondas chegam mansas e..."
Hirtis Lazarin

Denise acorda assustada outra vez. Sono conturbado, pesadelo.  O travesseiro, o edredom jogados ao  chão.  Acende a luz fraca do abajur.  Vê o relógio que marca dez os minutos da terceira hora do dia.  Já virou rotina acordar àquela hora.  Olha ao seu lado.  O lugar dele está vazio.  Um nó apertado sufoca-lhe a garganta, uma mão gigante e poderosa aperta-lhe o coração.

          A madrugada está fria.  Veste o roupão vermelho.  Descalça desce as escadas.  Já na cozinha abre metade da janela.  Observa a chuva fina.  Fecha os olhos, respira profundamente, o vitrô fica embaçado.  Ouve a música suave das gotas que batem na cobertura da garagem.  Lembra-se da guerra de travesseiros, do edredom vermelho de coraçõezinhos brancos que ele achava tão infantil.  Lembra-se dele dormindo, olhos apertados, sobrancelhas cerradas, lábios carnudos oferecendo-se pra serem beijados.  Lembra-se do cheiro do seu corpo aquecido e suado.  Denise respira vagarosamente buscando esse cheiro no ar.

          Uma buzina inconveniente na rua livra-a desse torpor.  Caminha até o fogão e aquece uma caneca de leite.  Volta-se para a mesa redonda da sala, bem iluminada por lustre pendente com cinco lâmpadas.  Fotos esparramadas, algumas amassadas e outras rasgadas.  Na hora da angústia, do desespero.  Lembra-se de cada momento vivido e eternizado  no papel, hoje tão frios quanto a máquina que os registrou.

          O cheiro do leite queimado, escorrendo pelas bordas da caneca acorda Denise.  Larga a caneca vazia na pia e resmunga.  Antes de apagar a luz, olha pra cadeira vazia.  A saudade a sufoca.  É tanta que sente chover dentro dela e a chuva transborda pelos seus olhos.  A saudade revira-a por dentro e tira tudo do lugar.  Com saudade não existe nada, não há presença, cheiro, olhar, sorriso, voz.  Apenas o vazio...

          Os pés descalços sentem o gelado do piso.  Tão gelado quanto aquele espaço feito a dois, para dois.


          Denise volta à cama, beija a foto dele na tela do celular, reza baixinho.  Fecha os olhos e como já é esperado não dorme.  Amanhece.  Toma alguns medicamentos.  Apaga.  Denise só acorda quando o sol se põe.  Sai da cama sonâmbula, vestindo camisola, anda até a praia.  A lua é cheia, lumia seu caminhar.  As ondas chegam mansas e frias aos pés de Denise.  O corpo teso ergue-se como esfinge morena tendo a lua a sua frente.  Seus pensamentos estão do outro lado do oceano.  Há seis meses Paolo partiu pra Itália.  Partiu pra nunca mais voltar.

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