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domingo, 7 de setembro de 2014

O casamento - Hirtis Lazarin


O casamento
Hirtis Lazarin
         
        

            Estamos em Pereiras, interior paulista, na rua dos Cocais.  Plana, larga, comprida a perder de vista.  A calçada é toda arborizada: ipê amarelo, ipê roxo, flamboyant.  Dá gosto de se ver.  Bando de pássaros cheios de graça fizeram nelas sua morada  de graça.  !  É uma beleza colorida e perfumada.

             Foi bem ali, à sombra das árvores, protegidos pelas ramas dos galhos mais baixos, que Cristina e Salvador trocaram os primeiros olhares marotos e maliciosos, o primeiro abraço apertado, sensual, o primeiro beijo de língua.  Foi ali que experimentaram o fogo da paixão, aquele que domina a razão, atrai o masculino ao feminino e nos faz perder a cabeça.

            O tão esperado momento chegara. Término da faculdade, melhores oportunidades de emprego, economias suficientes, realização do sonho: o casamento.

             Não foi o encontro de duas almas gêmeas, nem de duas partes que se completam.  Cristina e Salvador conheceram-se por inteiro, conscientes das diferenças e do momento certo pra ceder.

             O relógio da Matriz marcava oito badaladas quando, ao mesmo tempo, em que as portas de ferro da capela de Santo Antônio foram abertas e rangeram. A igrejinha colonial, feita de barrote e taipas, estava repleta de gente e de flores.

               Cristina era a princesa saída do castelo de um conto de fadas.  O vestido de renda francesa deixava-lhe os ombros desnudos e moldando sua silhueta, realçando-lhe as formas perfeitas.  Os cabelos pretos presos ao alto da cabeça  e envolto por arranjo de cristais misturados com pérolas presenteava-nos um rosto angelical e, mais que tudo, muito...muito...feliz.

               Seu pai, com orgulho e leveza, conduzia Cristina pelo tapete vermelho, coberto de pétalas também vermelhas.

               Aos pés do altar, beijou-a carinhosamente e confiante entregou a sua cria ao noivo, convicto de que ela fizera a escolha certa.

               A cerimônia foi simples e singela.  Celebração do amor e da esperança.  O amor que criou raízes e a esperança nos frutos que virão.

               Lá pelas tantas da madrugada, o casal despede-se dos convidados e um jatinho transporta-os até São Paulo.  Passariam o domingo num hotel e à noite, seguiriam pra Paris.

               Eram 21:30 horário de Brasília, quando o Boing da Air France decolou do aeroporto de Cumbica em Guarulhos.

              O tempo estava incerto, mas nada que pudesse comprometer o voo.

              Cristina e Salvador já bem acomodados analisavam o mapa da cidade de Paris e o roteiro dos passeios programados.

              De um momento pra outro, nuvens escuras e pesadas foram se agrupando, relâmpagos aos montes iluminavam o céu, trovões perigosos detonavam como se bombas fossem, o vento que começou comportado, agora rugia como animal selvagem ferido.  A turbulência acordou os que dormiam, o medo virou pânico que virou gritos de horror e pedidos de proteção a Deus Nosso Senhor.

              Uma das aeromoças veio ao microfone acalmar os passageiros de que essas alterações climáticas eram corriqueiras na aviação e que estávamos nas mãos da melhor tripulação da Companhia.


                Um estampido ensurdecedor interrompeu sua fala. Os motores silenciaram.  A aeronave desequilibrou- no ar.  E iniciou uma descida vertiginosa em queda livre. Jamais cruzou o Atlântico.


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