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domingo, 28 de setembro de 2014

Revelação - Hirtis Lazarin



Revelação
Hirtis Lazarin

 Meus avós vieram da Itália fugindo da guerra.  Aqui, no Brasil, estabeleceram-se numa fazenda de café.  Ao todo nasceram oito filhos.  Eu costumava ouvir que era costume dos italianos agricultores terem muitos filhos:  "quanto mais filho, mais mão-de-obra”.

 Todos se dedicaram ao cultivo da terra e, com muita garra e determinação, se deram bem na vida.  Alguns até se enriqueceram.

 Só o filho mais novo, Tomás, "a raspa do tacho", como agricultor foi uma negação.  De aparência franzina adoecia se tomasse sol, e se tomasse friagem adoecia também.  Mas o danadinho era esperto como ele só.  Na escola "dava um baile" na professora. Era questionador.  Queria sempre saber mais coisas que os outros.  Inteligente e provocativo.  Sua ligeireza e criatividade faziam tudo virar piada.  Senso de humor invejável.  Perto dele não se ficava triste.  Até meu nono, homem enérgico e de pouca conversa, não conseguia disfarçar o riso quando o talento de Tomás vinha à tona.  Chamavam-no de palhaço Kuxixo.

 Aos quinze anos foi ao circo pela primeira vez.  Ficou seduzido pelos palhaços.  Nesse dia descobriu o que queria ser pro resto da vida.  Enquanto o circo esteve na cidade, compareceu a todos os espetáculos.  Deslumbramento... É a palavra que definia o rapaz.  Até tentou fugir de casa  pra acompanhar o circo.  Foi pego em flagrante  levando apenas uma mochila nas costas.

Desde então, lia tudo quanto é livro, revista, reportagem sobre circo, palhaço, humor.

Beatriz, uma de suas cunhadas, foi sua única incentivadora.  Era inteligente, gostava de ler, de cantar e encantar  Os dois brincavam de criar e escrever textos engraçados a partir de um tema.  A coisa foi crescendo... crescendo... Os textos surgiam cada vez mais facilmente.  Colocados no papel, o material deu embasamento para um bom projeto de humor.

Sua primeira experiência como Kuxixo aconteceu no circo "BABALU".  Assim que assistiu aos vídeos postados no Youtube, o administrador deu-lhe a chance de algumas aparições no picadeiro.  Foi a confirmação que Tomás precisava.  Seu destino estava traçado.

Kuxixo montou um blog, atualizado semanalmente.  Bombou na Internet.  Começou, então, a receber convites para entrevistas na t.v.  Gente nova trazendo ideias novas.  Daí pra frente o sucesso explodiu.  Tomás e Beatriz, uma parceria pra valer.  As ideias floresciam, ela aprimorava-as no papel.  Seu esposo até foi picado pela mosca do ciúme, abatida rapidinho quando a conta bancária começou a crescer.

Sucesso, fama para o palhaço.  Dinheiro para os dois.

Algo implicava a família.  Kuxixo tinha fama, dinheiro, boa aparência, bom papo e nada de mulher.  Admirava muitas.  A sério, nenhuma.  Se alguém tocasse no assunto, saía de fininho deixando o interlocutor falando sozinho.


Certa feita Tomás sentiu-se muito mal após apresentação: dores abdominais fortes, queda de pressão, e desmaio.  Passou por check up completo e a notícia que recebeu foi alarmante.  Tumor maligno no pâncreas, já em estado bem avançado.  Não revelou a ninguém.


Por conta de férias merecidas, inventou uma viagem longa pro exterior.  Uma parada profissional pra reciclagem  Começou em São Paulo o tratamento adequado.  O organismo rejeitou a medicação.  A doença se espalhou ...Pouco tempo de vida lhe restava.


Magro e abatido voltou à casa dos pais.  Caiu na cama e não mais se levantou.  Deixou uma carta endereçada ao pai. Deveria ser aberta com toda família reunida.


A família estava abaladíssima.  Tudo foi rápido demais.  Uma tragédia.  Tristeza sem fim.  Tomás era jovem.  Um rapaz sempre atento com a saúde.  Não bebia nem fumava. Sempre soube se cuidar. Mas, a vida nos reserva alegrias e dores.


Reunidos numa tarde, o envelope foi aberto.  Dentro dele um testamento com dois itens apenas:

1
Nono parou a leitura por conta do silêncio pesado na sala.  Apenas o som de respiração profunda e ofegante, bocas de lábios cerrados e secos, testas enrugadas de apreensão, muitos... muitos... pontos de interrogação e de exclamação flutuando e se digladiando no ar.  Olhos arregalados e fixos nas mãos de quem lia.  Que ansiedade meu Deus!

2 - os outros 50% dos meus bens eu deixo ao grande amor da minha vida.  A mulher que nunca soube nem desconfiou de nada. E foi esse amor  platônico que me fez acreditar no meu sonho, acreditar no meu talento, ir à luta sem medo, enfrentar desafios, resistir a certos fracassos,  viver feliz.  Eu a amei todos os dias da minha vida, mas o fruto era proibido.  Por ela me anulei como homem.  Meu amor ficou guardado dentro da minha alma e dentro de um frasco de perfume igual ao que ela usava.  Estava onde eu estava.  Senti-lo era senti-la pertinho de mim.

Meu único amor foi você, Conceição
Minha musa, minha luz.
Cuide bem dela, Alè, meu irmão
sua esposa é raridade que reluz.

Já entardecia.  A sala ficou na penumbra.  Em segundos ficou vazia.  Um silêncio sepulcral.  O silêncio que os mortos merecem.


                                                                  

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