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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Entrei numa fria! - Hirtis Lazarin



Entrei numa fria!
Hirtis Lazarin

Minha sobrinha Marina de quinze anos veio de uma cidadezinha de Minas pra morar comigo.

          Seus pais, preocupados com os estudos da filha, acharam por bem trazê-la à São Paulo para cursar o Ensino Médio e posteriormente a Faculdade.

          Eu a conhecia pouco. A última vez que estive com ela, tinha apenas cinco anos e depois disso, nunca mais... Meu irmão fora transferido  para Minas.  Ele dirigiria a filial de multinacional.  E por lá criou raízes.

          Não hesitei em convidá-la pra morar comigo.  Meu apartamento é grande, moro sozinha.  Poderíamos ser grandes companheiras.

          Organizei o quarto para receber Marina com o carinho e capricho de uma mãe.  Instalei computador, t.v. de tela fina, cortinas finas e esvoaçantes criando um ambiente leve e juvenil.  Sabia que a menina era apaixonada por ursos.  Então, sobre a sua cama, coberta com colcha de tecido igual ao da cortina, uma família de ursinhos a receberia  com largo sorriso de boas vindas.

          Marina se mostrou  carinhosa e obediente.  Rapidinho se adaptou à rotina da casa.  Levantávamos cedinho.  Eu pro trabalho e ela pro colégio.  Matriculei-a numa boa escola,  próxima para  que ela não precisasse  de condução.  Ao término das aulas, chegando em casa, tinha a Marlene a sua disposição até às dezoito horas.  Lembrando, Marlene  me presta serviço há mais de vinte anos.

           Meio ano já havia passado.  Meu Deus, o tempo corre.  Os ponteiros do relógio até parecem estar numa competição de velocidade.  Num repente, as mudas viram árvores gigantes, as sementes viram flores que viram frutos;, os ovinhos pássaros,  o bebê indefeso  criança sapeca,  e Marina virou uma adolescente rebelde.

          Agora, seu quarto estava sempre em desordem: roupas usadas e sapatos espalhados pelo chão, lixeira abarrotada de papéis, frascos vazios de iogurte empilhados, atraindo insetos  e o som sempre ligado em volume assustador.

          O  humor da garota mudava da água pro vinho em instantes: do irritável pra pulos de alegria.  Eu tentava, mas não conseguia entender.

          Sei que a adolescência é uma fase conturbada.  Li livros e pesquisei  na internet  buscando orientação.

          Quantas vezes sentei-me ao seu lado pra uma conversa de amigas.  Cheguei a contar-lhe segredos pra que ela me contasse os seus, sem querer que se aprofundasse nos detalhes  Sei que o adolescente precisa de privacidade pra que se torne um adulto responsável e independente.

          Muitas vezes eu triste, cansada mostrei-me serena e feliz.  A felicidade é contagiante.

          Nos finais de semana, levei-a pra ambientes de lazer e cultura, sempre abrindo espaço pras suas sugestões.

          Entrei em contato com seus pais diversas vezes.  Eu precisava de ajuda.  Eles nunca apareceram.

          A coisa desandou mesmo quando Marina conheceu Pedro Henrique e recebeu do Cupido flechada no ponto "G" do coração.  Paixão  alucinante.  Faltava às aulas e seu rendimento escolar desmoronou, trancava-se no quarto por horas e ignorava-me, não desgrudava do celular. Saía sem dar satisfações, não cumpria mais os limites de horário.

          Até que numa tarde, ao chegar do trabalho, encontrei acesas todas as lâmpadas da casa,  o quarto de Marina aberto, o chão coberto de páginas desfolhadas de todos os seus livros,  folhas de caderno rasgadas.  Marina inerte caída sobre a cama, uma garrafa de bebida alcoólica quase vazia entre seus dedos.

          Entrei em pânico.  Não tive coragem de tocar aquele corpo.  Chamei a ambulância.  No hospital, constatou-se coma alcoólica.

          Pra mim bastava.  Liguei aos pais e exigi que viessem imediatamente direto ao hospital.  Assim que chegaram no dia seguinte, sem dizer uma palavra sequer, encaminhei-os aos médicos responsáveis.

          Eu só queria sumir dali.  Corri pra casa.  Arrumei malas,  Escrevi recado pra Marlene.  Sabe pernas, pra quê as quero?


          Eu quero é viajar pro Vietnã...

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