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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

UMA NOITE DE TERROR - Carmen Lúcia Raso



UMA NOITE DE TERROR
Carmen Lúcia Raso



Depois do jantar, na fazenda, onde toda a família se reúne aos finais de semana, alguns brincam, outros jogam bilhar ou baralho, assistem televisão ou ficam a toa numa rede pela varanda.

Era o momento que mais gostavamos, meus primos mais velhos e alguns tios reuníamos em volta do fogão à lenha, puxávamos os bancos e cadeiras para esperar o chá de erva cidreira que vovó preparava aos montes enquanto ouvíamos as histórias de terror que ela, tio Romano e tia Isa, a mais velha da família contavam para nós.

Morríamos de medo, mas ouvíamos todos juntos, sentados pertinho um do outro, como se aquele calor humano mais o do próprio fogão aliviassem nossa “paura” e nossos arrepios.

Tio Romano contava que por aquelas bandas, quando mocinho, ia namorar ou ia à uma festa, de carroça ou montado ao seu cavalo, mas que numa madrugada vinha sossegado pensando no seu amor (que era a tia a qual se casou), quando um homem de terno, uma roupa meio antiga, um chapelão engraçado dizendo que estava à procura da moça que ia se casar com ele e que nunca apareceu, fugiu com outro. Tio Romano disse que ele parecia assombração pois quando foi responder , viu que o homem tinha sumido, do nada desapareceu. E nós nos olhávamos com os olhos bem arregalados, mas esperando mais algumas histórias.

Tia Isa, então continuou; - Pois é, quando eu era ainda uma criança, meus pais e eu voltavamos de um casamento, o nosso cavalo que puxava a charrete empinou as orelhas, diminuiu o seu trote e não obedecia mais ao comando de meu pai. Minha mãe me abraçou para me proteger. Era uma noite fria, de lua cheia como hoje, o mato era fechado, só havia a passagem mesmo para as carroças e animais. Ninguém se atrevia passar naquelas estradinhas sem estar no lombo de um animal. Quando de repente, passou na nossa frente uma “Mula sem cabeça”. O nosso cavalo relinchou, empinou, se debatendo pra não seguir em frente, até que aquela visão desapareceu em instantes. Aí pudemos, depois de se acalmar, voltarmos para nossa casa, sãos e salvos. Me lembro, que dormi muitas noites entre os meus pais, de tanto medo que sentia - disse tia Isa.

E muitas histórias foram ainda sendo contadas.

Ninguém se mexia do lugar e vovó percebendo o quanto estávamos paralisados e apavorados, serviu logo uma xícara de chá a cada um de nós e pediu avisássemos aos demais que o chá estava pronto.

Quando saíamos da cozinha, ouvimos um barulho de correntes se arrastando pelo chão e vovó falou para que não tivéssemos medo, isto não era normal acontecer , mas às vezes acontecia, pois ali viveram muitos escravos que foram açoitados e mortos, quem sabe alguns ainda não tivessem encontrado a luz.

Até hoje, passados alguns anos, nos perguntamos se aquele barulho de correntes aterrorizante aconteceu mesmo ou alguém que simulou pra nos assustar ainda mais.

Este é um segredo que ficou naquele dia e que nunca saberemos dizer!

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