BLOG NOVO: CONTOS DO ICAL


segunda-feira, 21 de junho de 2010

Nossa galeria de fotos - OFICINA DE TEXTOS JUNHO 2010

Galeria de fotos da Oficina de Criação de Textos Idéias e Ideais - Junho 2010

Dinah Choichit - Presidente do ICAL


Pausa para a foto

A turma em plena atividade

Silêncio! Escritores criando.



Ana Maria - Moderadora

Dinah Choichit - Andrea - Adão Junior e Noemi Carvalho

Andrea - Nossa Anfitriã

Isabel Sousa

Anna Blen

Adão Junior

Lilia  Carvalho 

Hirtes

Maria de Lourdes Wolff

Sanae Guenka Palma



Maria José P. Sousa

Eliane

Noemi Carvalho

Ivonéte Miranda


Tanto dizem as palavras quanto dizem estas imagens!

domingo, 20 de junho de 2010

Letra sobre o ICAL - Carmen Apóstolo - HOMENAGEM AO ICAL

Vasculhando a internet encontrei essa doce homenagem ao ICAL no blog da nossa querida amiga Carmen Apóstolo. E resolvi publicar aqui no blog do ICAL para mostrar o carinho que esta poesia contém, e para fazer aflorar o orgulho de ser ICAL.

 
Letra sobre o ICAL

Sol
Alegrias
Luzes
Poesias
Cantos
Recantos
Deste sem fim
Saudemos flores
Cantos
Encantos
Cultura em mantos
Do esplendor
Campos decoram
Rosas formosas
No verso e prosa
Do teu louvor
Cantos vibrantes
Rasgam poemas
Abrem verdades
Do teu amor
Aves gorjeiam
Verdes retocam
Um leve canto
Grau de louvor
A brisa leve
Traz o seu canto
Apaga o pranto
E escreve amor
Livros conduzem
Trazem saber
Mostram verdades
Ensinam a ser

E escreve Amor
Traz o seu canto
 
 
 
 
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Carmen Apóstolo
 
O ICAL AGRADECE ESSA HOMENAGEM!
 
A Carmen é um doce de pessoa!
Tem uma veia literária voltada para o causo, mas como podem ver ela brilha em qualquer constelação.
Vejam essa poesia abaixo:
 
 
Lágrimas de Palhaço
Carmen Apóstolo



Palhaço, palhaçadas

na corrida das quebradas,

das cadeiras. espalhadas

entre os sonhos das rodadas

Vidas, pandeiros,

Cores, alegrias

encenando nossos dias

entre cantos e poesias...

E no fim,

resta uma lágrima...

Os lábios traçam sorrisos

E a dor dá cambalhotas

pra esconder as agonias

nas gargalhadas sombrias.

sábado, 19 de junho de 2010

Big Boom - Franco Alves


Big Boom
Franco Alves

Era mesmo um dia “daqueles”, teria sido melhor eu ter ficado na cama, cuidando de uma pretensa gripe ou algo assim, pensava Vladivor o detetive incumbido do caso do homem que teria sido encontrado estirado ao lado do corpo sem vida da perigosa ricaça Vitória Fernandes às margens do Tâmisa. Há muito tempo, esta mulher tem causado dor de cabeça para a policia de Londres. Ela dominava os negócios de prostituição e tinha ligações com o tráfico de drogas, mas ao que tudo indica, estaria flertando com elementos da Al-Qaeda, pois desejava ganhar dinheiro se envolvendo com os fundamentalistas.

E agora Vladivor se perguntava: - Por que justamente eu?

Esta investigação o levaria com certeza a um campo minado, e ele teria que ter muito cuidado, caso contrário poderia ir literalmente para os ares. Enquanto aguardava os paramédicos cuidarem do homem vitimado passou a anotar em sua surrada agenda de bolso qualquer detalhe que pudesse ser de importância para elucidação do caso. Mas algo parecia estar errado, ele sentiu um frio na espinha, quando avistou uma Van que se aproximava lentamente da cena do crime e mal teve tempo de olhar nos ponteiros do Big Bem, quando aconteceu a explosão, e os seus piores pesadelos se tornaram realidade.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

17 de junho - Hoje na Oficina o tema será Construção - Obra de Chico Buarque de Holanda


Construção



Chico Buarque de Holanda













Amou daquela vez como se fosse a última
Amou daquela vez como se fosse o último
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a única
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Sentou pra descansar como se fosse príncipe
Sentou pra descansar como se fosse pássaro
E flutuou no ar como se fosse pássaro
E flutuou no ar como se fosse sábado
E flutuou no ar como se fosse príncipe
E acabou no chão feito um pacote flácido
E acabou no chão feito um pacote tímido
E acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Morreu na contramão atrapalhando o público
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Amou daquela vez como se fosse máquina
E acabou no chão feito um pacote flácido
E acabou no chão feito um pacote tímido
E acabou no chão feito um pacote bêbado
Amou daquela vez como se fosse a última
Amou daquela vez como se fosse o último
Amou daquela vez como se fosse máquina
Morreu/Morreu/Morreu



Video Clip Chico Buarque


A Princesa e o Sapo - Cida Bianchini


A PRINCESA E O SONHO
Cida Bianchini


Era uma vez uma menina que gostava de sonhar, talvez fosse a maneira que ela encontrava para fugir da realidade em que vivia.

Seus sonhos ultrapassavam os limites do raciocínio lógico, à uma criança na sua idade.

Velejava pelos mares, atravessando oceanos, aprendendo novas línguas, convivendo com pessoas diferentes, ao ancorar em países que nunca ouvira falar.

Um dia, como de praxe, sentada à sombra de uma árvore, lugar preferido para decolar rumo ao sonho, deliciava-se com as aventuras aceleradas pela fértil imaginação.

Descalça, cabelos despenteados, shorts um pouco sujo, amparando a blusa colorida, um tanto longa, numa aparência desengonçada.

Olhar perdido nos carneirinhos que pastavam ao seu redor, sem percebe-los.

O sol despejava seus raios sem piedade, tingindo os vários tons de verde num cenário perfeito ao se contrastar com os olhos azuis, destaque daquele rosto bonito da criança que não sabia exatamente o tamanho da sua beleza, assim como da sua pobreza.

Bela, nome de batismo, fazia jus ao seu encantamento.

O cenário era perfeito para uma longa viagem. Já acomodada no avião, esperando em instantes atravessar as nuvens e poder olhar do alto a paisagem que a fascinava, teve uma surpresa. A viagem foi interrompida. Desceu do sonho e se deparou com uma realidade de sabor infinitamente melhor que todos os sonhos já sonhados.

Uam, garoto de mais ou menos sua idade, estava parado diante dela, feito uma estátua. Permaneceu por longo tempo, sem dizer nada, apenas a fita-la.

Bela sentiu pela primeira vez o sabor da vida. Era tão verdadeiro aquele momento que até podia toca-lo, senti-lo, beija-lo... Meu Deus, que loucura, pensou ela,

E para Uam, também a recíproca era verdadeira.

O menino buscou forças e conseguiu comunicar-se através de gestos e de algumas palavras que aprendera, mas se confundiam com seu idioma europeu.

A comunicação maior foi através de olhares...Estes sim, falaram forte, tão forte que ficou imprimido em cada coração, o propósito do verdadeiro amor.

O tempo passou...

Bela já adolescente, conservava a beleza angelical da criança que de tanto encantamento, conquistou o coração de um príncipe.

E numa tarde qualquer voltou a sombra da árvore, testemunha única de uma promessa de amor.

Foi recebida com sorriso das flores que se abriam para anunciar a chegada da primavera.

A saudade bateu forte.

Sentou-se no mesmo lugar, que há mais de uma década vivera a verdadeira felicidade.

Enquanto desfolhava o galho do bem me quer, percebeu a chegada de alguém caminhando por entre os campos em sua direção.

A princípio ficou surpresa, quem visitaria aquele lugar bucólico, que nada tinha a oferecer a não ser a ela o divã de seus sonhos...

Uam também não havia mudado. Conservava a beleza de criança e aprimorara o estilo de monarca.

Abraçaram-se, beijaram-se longamente. Uam tomou Bela em seus braços levou-a para o seu castelo.

Bela atravessou os mares para morar num palácio, casando-se com o lindo príncipe, herdeiro do trono real.

Já não era mais sonho, era realidade...

Bela e Uam foram felizes para sempre.

Senzala - Cida Bianchini


SENZALA
Cida Bianchini



Negros que passam pela estrada


Seguindo o rumo da senzala,
Na encruzilhada à Cruz abandonada
Inspira o amor de Deus, que exala.

Pés descalços, descamisados...
Corações silenciados...
Abertos apenas ao canto que consola
Encanto único, amor infinito dos passarinhos,
Que se aninham nos ramos entrelaçados!

A lágrima extravasa a dor das marcas
Deixadas pelas fortes chibatadas
Estreitando o horizonte da alma
Que se perde entre as nuvens empanadas!

No campo florido de girassóis
Negrinho e Negrinha tão crianças...
Brincam contra o vento primaveril
Trocam flores numa alegria destemida,
Sem saber que toda aquela gente,
Também é gente, mas quase sem vida...

Encontro - Cida Bianchini



ENCONTRO
Cida Bianchini




Olhares pensantes... Concentração...
Mesmo foco, mesmo quadro, mesmo silencio,
A circundar a noite escura da Rua Oscar Freire.
Relógio que lembra antiguidade...
E aguça uma pitada de saudade
Indiscreto, no seu tic-tac sem parar,
Talvez para lembrar as mentes vagarosas
Que o tempo vai expirar...
Mas elas não param de pensar
Qual locomotivas, umas deslancham,
Outras, quase param, sem saber que rumo tomar...
São caminhos traçados que não se cruzam
Andam como paralelas, nunca irão se encontrar.
Quanta riqueza ali existe!
Quanta imaginação!
Criação!
Eu! Quero um caminho feito de garoa que cai lá fora
Quero passar pela floricultura e apenas olhar as flores
Correr pelas ruas, face nua, sem maquiagem
Deixar que me vejam como sou...
Quero fazer mágica, evaporar as drogas,
Renascer a juventude perdida,
Eu quero vida!
Quero abraçar este circulo de amigos
E transforma-los em borboletas
Voos rasantes, beijar todas as flores,
Lançar em bando a mesma profecia,
Eu quero amar o amor...
Como amo a poesia!

O menino que não brincava - Noemi de Carvalho


O menino que não brincava
Noemi de Carvalho




Um prédio classe média alta se destacava na orla marítima.

Ali morava Adriano de dez anos filho do zelador e que se isolava num apartamento dos fundos, onde sala cozinha e quarto se misturavam tirando a privacidade, sufocando desejos e vontades.

Seu passatempo era ver televisão, um aparelho velho onde as imagens se cortavam interrompendo a seqüencia das historias.

Às vezes o pai o chamava para molhar o jardim, carregar as ferramentas ou fazer outros serviços.A mãe ele acompanhava quando ela era contratada para limpar os apartamentos.

Os dias eram enfadonhos para Adriano.

O mar ele via de longe quando ia prá escola.

Quando era época de temporada ele se debruçava à janela vendo as crianças que iam chegando já provocando um tumulto natural no prédio.Elas jogavam pebolim,dominó, xadrez e brincavam de se esconder.

Muito raro o momento em que o convidavam para participar da brincadeira.

Este menino não brincava. Se embutia e se isolava tornando-se mais um ser que vivia por viver, sem sentir o cheiro do bolo da vovó, sem o carinho espontâneo do semelhante tendo um presente circunspecto com interrogações para o futuro.



O MENINO QUE NÃO BRINCAVA
Cida Bianchini





Éramos mais ou menos doze crianças a encher a casa de bagunça, numa gritaria sem fim, certamente o tédio dos nonos que buscavam o silêncio, em seus contritos corações.

Assim eram as tardes ensolaradas da minha infância. Espaço não faltava. A casa grande da fazenda, mais parecia um hotel, não só pelo tamanho, mas pela circulação de gente!

Cercada de árvores floridas na primavera, e imenso pomar com grande variedade de saborosas frutas.

O rio, com uma praia de areia branca, era mais uma opção, depois de muito correr nas diversas brincadeiras.

Meus irmãos, meus primos e os filhos dos empregados que, apesar de morarem distante de casa, não faltava disposição para irem ao nosso encontro.

Minha prima Ofélia, era a mais “pata choca”, assim apelidada pela falta de agilidade.

Pedrinho, o filho do oleiro, era o mais ágil de todos. Quando ele se aproximava todos gritavam: “Devagar Serelepe. Qualquer dia você vai se dar mal!”

Nininha, sua irmã, era calma e a mais bela de todas. Olhos grandes, azuis, cabelos que de tão loiros, brilhavam no sol com esplendor.

Neguinho era o inverso. De tão negro também irradiava certa luz, debaixo do quente sol de verão. Rosto suado, cabelos pixaim, sempre ostentava um rasgo em seu short ou em sua camiseta. Pés descalços, pois, ninguém andava calçado.

Neguinho era apático. Nunca quis brincar... Acompanhava de longe as brincadeiras. Sorria pouco, era de uma introspecção a toda prova, levando-o a uma incontida timidez. Ninguém sabia o porquê! Todas as crianças já haviam se aproximado dele para descobrir o motivo de ser tão arredio! Era inútil questionar...

Às vezes torcia os dedos das mãos, deixando que eles falassem...E, raramente não controlava a lágrima que escorria transparente na negra pele.

Todos porem, sabiam que Neguinho era o primeiro aluno da classe. Aprendia a lição com tanta facilidade que nem mesmo os professores entendiam. Hoje vejo que tais características são próprias de uma criança super-dotada.

Havia certa disciplina para as brincadeiras. O brinquedo era escolhido por votos. Colocava-se uma dezena de opções e com o braço erguido, chegava-se ao escolhido. Quando o número de meninas era maior, com certeza elas dominavam. Imensa roda, numa cantoria afinada, deixavam os meninos com inveja, ao se manterem sentados à distancia, participavam em silêncio.

Quando o número de meninos era maior, as meninas não tinham vez! O clube do Bolinha, não permitia a presença feminina. Eram jogos mais violentos, perigosos para a fragilidade feminina.

Na corrida dentro do saco eu era imbatível! Gritava com voz de taquara rachada, irritando a todos: ” Eu sou a força! Eu ganhei... Mais uma vez!”

Na corrida do Pula-Pau, ah, Tuca era sempre o ganhador...

Na amarelinha, sem dúvida o destaque era a Deca...

Boca de Forno...., todos eram destaques

Perna de Pau, o Duda era imbatível.

Só havia uma coisa em comum; a gula. Na hora que o cheirinho do café exalava, as brincadeiras ficavam para trás. Era um corre-corre, onde atropelavam-se sem tomar conhecimento. Sabiam que junto ao café a mesa era farta. Pão-doce, goiabada, bolo, biscoitos de polvilho, enfim, era uma festa...

Nossas tardes nem sempre acabavam bem. Certa vez, a gritaria era tanta que, meu nono, como bom napolitano, não suportou o estresse. Apesar do problema nas pernas que o impedia de correr, pegou o chicote de couro e tentou em passos largos nos alcançar. Demos várias voltas em torno da casa e ao encontrá-lo eu gritava fazendo careta: “Nonno, você não me pega”...

De repente, ele não suportou. Caiu por terra semi desmaiado. Todas as crianças se evadiram e eu me desesperei. Deitei sobre seu peito, abraçando-o forte pedi perdão. Neguinho se aproximou com um copo de água fresca, levantando sua cabeça forçou-o a tomá-la, e foi o que o reanimou. Chorei muito abraçada ao meu nono e percebi o quanto o amava.

Depois deste episódio, eu passei a liderar o grupo.

Tudo foi muito diferente. Entre as brincadeiras, passamos a ter a sessão de civismo. Aos poucos, foi crescendo até transformar-se numa verdadeira aula. Semanalmente eram distribuídos os grupos, com a respectiva agenda e o assunto.

Os grupos se reuniam para a pesquisa e preparação. A exposição era feita em grupo de três crianças.

Lentamente a brincadeira foi dando espaço à pesquisa e consequentemente o interesse ao estudo cresceu, para espanto dos professores.

A paz passou a reinar naquela casa para a felicidade dos nonos. Contudo as brincadeiras não cessaram. Apenas foi mudado o jeito de brincar.


Jequitibá - Cida Bianchini


JEQUITIBÁ
Cida Bianchini





Um braço do rio avançava em direção ao caramanchão todo florido que abrigava a família nos fins de semana.

Gostosas reuniões escreveram a história, sempre com convidados novos, pois, o circulo de amizades daquela gente, era vasto, pelas inúmeras atividades cultural, social e profissional, que o casal e seus cinco filhos exerciam.

Classe média alta, sem ostentação, seguiam rigidamente as regras deixadas pelos seus ancestrais, simplicidade....

Num dia qualquer da semana, Nina, a funcionária que há anos cuidava da limpeza daquele recanto que, de tão belo, parecia um conto de fadas, surpreendeu-se,ao ver Lelo, o filho mais velho e mais amado por todos, sentado à sombra do flamboyant, com a cabeça sobre os joelhos apoiados no banco que sustentava seu corpo.

Nina, aproximou-se em silêncio, embora estivesse nervosa ao perceber o pinga-pinga das lágrimas coloridas pela dor, pois, nunca vira Lelinho chorar. Era o mais alegre de todos, parecia estar sempre de bem com a vida. Algo de muito grave deveria ter acontecido...

Abraçou-o e sussurrou ao seu ouvido: “Meu anjo, porque choras assim”.

Demorou para que as palavras fossem pronunciadas. Nina, com seu rebenque mágico, conseguiu descobrir a causa daquela dor!

Com a voz entrecortada, o jovenzinho desabafou...

Abraçados caminharam para o local do acidente que resultou na morte da ovelha branca que, talvez por excesso de amor ao vê-lo chegar, atirou-se diante do carro. Apesar da freada brusca a morte fora inevitável.

Por instantes o sol perdeu o brilho, parecia triste, o pombal esvaziou-se... As pombas foram em bando acompanhar o funeral.

Lelo e Nina, envolveram a ovelha mais linda do rebanho numa toalha branca. O cortejo seguiu em companhia das outras ovelhas, e caminharam em silêncio.

Dindinha, foi colocada em meio a uma cama de folhas verdes e flores coloridas, à sombra do Jequitibá, local em que eles passavam horas brincando numa troca mútua de carinho.

O céu chorou através da nuvem que se deslocou sobre o jazigo.

Os pássaros cantaram, o vento soprou forte...

Em passos lentos, Lelo voltou à vida. Enquanto a alegria parecia desaparecer, a certeza gritava forte:

“ A paz foi morar debaixo do Jequitibá”!


Pedido de casamento - Cida Bianchini



Pedido de casamento
Cida Bianchini



Tudo começou durante uma linha cruzada, que ao perder o foco, duas pessoas de idiomas diferentes passaram a se comunicar, em clima de paz, sem estresse como comumente acontece.

Da Itália para o Brasil, Gianino para Ana Mária. Assim nasceu o romance que durou alguns anos.

Separados por um continente, escreveram a história que ficou guardada em dois baús. A comunicação através de cartas, foi o recurso mais prático que encontraram dada a dificuldade entre os idiomas.

Foi assim que nasceu o amor e caprichosamente se instalou em corações tão semelhantes.

Giane, assim conhecido, era um homem deslumbrante. Belo como diziam as italianas.

Empresário bem sucedido, orgulho da mamma que incansávelmente o admirava.

Ana Mária, jovem bonita, corpo esbelto, seios avantajados, bem ao gosto dos italianos, vivia uma vida simples no sofrido agreste pernambucano.

Filha de agricultores conhecia como ninguém a monotonia... A cada cair de tarde se preparava para não sofrer tanto, o que intensificava o desejo de escrever e transmitir ao seu amado a paixão edificada nas bucólicas tardes naquele canto escondido do agreste.

Estudante universitária cursava o último ano da Faculdade de Agronomia.

Seus pais, apesar de analfabetos, tinham planos para o seu futuro profissional, cujo maior sonho era ampliar os negócios do pequeno sítio, para o mercado de exportação.

As cartas pareciam falar... Tinham força estranha, ao ponto de transformar seus comportamentos em risos e lágrimas, saudade e espera... Esperar até quando...

Esperança....

Tão verde quanto as folhas da bananeira para Ana Mária.

Tão vermelho, tão ardente, cor de sangue, cor do semáforo que o faz esperar em sua máquina potente, enquanto visita o cliente, para Giane...

E o tempo passou sem que ambos perdessem o sabor daquele amor!

Enfim, a chegada do grande dia estava próxima. Saborearam passo a passo o sonho do primeiro encontro.

Brescia parecia pequena para conter a euforia de Giane.

O agreste também era pequeno para acomodar a ansiedade de Ana Mária.

O avião partiu e o belo ragazzo tentava decorar as frases que escrevera num italiano abrasileirado, o pedido de casamento à principessa piu bela del mondo!

Entre as nuvens, o sonho se intensificava. Era mais forte que a morte. Era mais saboroso e doce que o próprio mel.

O ônibus também partiu da pequena cidade para o longínquo aeroporto internacional... E com ele, a bagagem do sonho de alguns anos. Coração apreensivo, esperançoso, batendo forte no peito.

A medida que a paisagem ia ficando para trás e o caminho se encurtava, o sonho crescia. Ana Mária, mais parecia uma menina indefesa. A criança que nunca saíra daquele cantinho perto do fim do mundo. Era preciso se fortalecer! Afinal seu destino estava às portas de uma grande mudança!

Diante do aeroporto, segura firme a maleta e segue meio perdida...

O burburinho do Aeroporto, entremeado ao constante barulho das aeronaves que não param de chegar, deixam Ana Mária cada vez mais ansiosa! Sem desviar o olhar do painel que atualiza a cada instante a situação dos vôos, de repente sente um calafrio...

Chegou!... Meu Deus, meu coração parece que vai explodir...

Ana Mária, Ana Mária, daqui a poucos minutos tudo será diferente... Tão diferente... Não fique insegura, afinal você esperou tanto tempo por este momento! Diz ela consigo mesma.

Com passos lentos ela segue em direção à sala de desembarque. Segura firme o bastão que sustenta a placa, escrito com letras grandes: GIANI.

A porta se abre e entre toda aquela gente, identifica a figura do seu amado, não sei se pelo porte altivo bem característico dos italianos, ou pela expressão de felicidade que, como ela, não conseguia ocultar. Certifica-se, porém, quando ele vai ao seu encontro e com sotaque puramente italiano.

“Dio que bella”...

Abraçam-se, beijam-se, não se importam com o tempo e muito menos com as pessoas que não deixam de olhar aquele encontro tão caloroso...

Giane e Ana Mária seguem vagarosamente à Capela Ecumênica.

Lá fora o sol se põe. Pela primeira vez, não vê o cair da tarde que sempre lhe trouxera angústia.

Agora, abraçada àquele homem maravilhoso, que aprendera a amá-lo mesmo sem vê-lo, e hoje tão seu...

Giane tira do bolso uma aliança de diamantes e coloca-a em seu dedo, selando o amor.

A penumbra da Capela, cortada por apenas um fio de luz, tão tênue, tão especial, parece apenas ter espaço para os dois, que se contemplam.... Se ofertam....Se descobrem...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Éramos seis,somos cinco! - Noemi de Carvalho


Éramos seis,somos cinco!
Noemi de Carvalho


Cinco crianças sentadas no assoalho da enorme sala do casarão.

Lá fora o tempo úmido e chuvoso forçava a mãe a reunir estas crianças meninas inquietas em polvorosa mesmo!As risadas das falantes crianças tornaram-nas personagens de tarde saudosa que não voltará.

A mãe entusiasmada deu uma corda para Tata brincar de pula pula.A fila se formou.Tudo estava em ordem,sob controle mas chegou a hora de duas meninas segurarem a corda e as outras pulariam.Foi um caos! Todas queriam pular e ninguém queria segurar.O melhor foi encurtar a brincadeira.Suadas e cansadas todas se jogaram na rede ao mesmo tempo.Foi enquanto a mãe arrebentava pipoca.Quando a rede não agüentou o peso,ouviu-se o estrondo!!Todas se machucaram ao caírem ao chão.

Cheias de dengos tiveram os cuidados da zelosa mãe que reuniu-as e distribuiu as pipocas.

Era hora de outra brincadeira.

E com duas latinhas sem uma tampa fizeram mais uma das suas:Tata contava prá Mi algo que havia visto:ou era o tio caçando rolinha,a avó dando pinga para o peru no Natal e assim muitos outros fatos.A Mi contava pra Juju que contava prá Nene que contava pra Pri.Aí a mãe consultava o fim da historia.

É preciso contar que nessa hora a rolinha virava o sabiá, a pinga virava conhaque e o peru não fazia glu-glu.

Que saudades!







quinta-feira, 10 de junho de 2010

MORALIDADE EM BRASÍLIA - Ivonéte Miranda



MORALIDADE EM BRASÍLIA
Ivonéte Miranda

Era uma quarta-feira ensolarada em Brasília, os políticos no Congresso já se preparavam ir para suas “bases”, enforcando o resto da semana.

No plenário estava um agito típico do final de tarde de sexta-feira em uma empresa privada. Poucos estavam sentados e o burburinho era geral.

De repente uma nuvem densa envolveu todo o ambiente, impedindo qualquer pessoa de enxergar um palmo adiante do nariz. Após o alvoroço com a inusitada cerração em ambiente fechado, os presentes perceberam com estranheza que só era possível ver claramente a bandeira do país.

A flâmula se despregou do mastro e começou a subir e tremular muito, sendo acompanhada por um sinistro foco de luz.

Todos ficaram mudos, estáticos, sem emitir sequer um piu.

A bandeira parou no alto, centralizada, surgindo por detrás dela um vulto, que pelos contornos parecia ser de uma mulher.

Alguns jornalistas de plantão apertaram os botões de suas máquinas fotográficas, mas eles não funcionaram.

Agora era possível enxergar perfeitamente a bela mulher, de terninho verde e amarelo, cabelos presos junto à nuca, flutuando no ar.

O silencio absoluto foi rompido pela voz doce e firme da jovem mulher.

Ela se apresentou como Moraliz e disse :

-“Daqui para frente qualquer político que apresente comportamento desonesto ou deslealdade com qualquer brasileiro imediatamente será levado para a favela da Grota, Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, famosa pelas quadrilhas sanguinárias que exterminam qualquer um num buraco que chamam de microondas.”

A notícia correu no “boca a boca” e partir daquela tarde, para perplexidade do planeta, todos os políticos brasileiros se tornaram honestos e morais, temendo a volta de Moraliz.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

TENERÁ - Lilia


TENERÁ
Lilia 




É ele! É ele! A criançada, enlouquecida, entre o prazer e a euforia. Nem bem escutam aquele barulho se arrastando pelos paralelepípedos, mais os latidos dos cães e, correm às casas para abrir os armários – as empregadas que não se descuidem – em busca de panelas, frigideiras, caçarolas, espumadeiras de alumínio para acrescentar às que o andarilho recolhe em suas andanças; traze-as amarradas à cintura junto com as cordas dos cachorros, eles estridentes cumprimentam as crianças, cidadãos e concidadãos daquelas terras capixabas.



É ele, o Tenerá, repete o povo da cidade. Percorria o Estado de ponta a ponta e agora apontava na rua do norte pelos trilhos do trem, calçando sapatos que tiveram o seu dia, paletó branco sobre a camisa encardida e calcas rotas. Claro de pele, de olhos, menos os dentes, barba rala, cabelos escuros, exibia um sorriso meio triste, meio sarcástico, como se confessasse ou escondesse um segredo. Singular.



Tenerá de olhos distantes, frios, ciosos. Não sei se Rubem Braga se referiu a ele, em alguma ocasião, mas para aquela gente era um mito folclórico! A cidade não existiria sem ele, abandonam seus afazeres para vê-lo passar.



E ele? Simplesmente atravessa a cidade uma vez por ano, sempre no inverno sem parar, sem olhar a não ser para a frente. Diante de uma zombaria, ou comentário maldoso, murmura, o bastante para ser ouvido, “deixai ladrar os cães”. Sua filosofia aumenta-lhe o encanto, o fetiche. Naquele dia o circo não se arriscava a desfilar, para que, se o palhaço, o malabarista, a mulher aranha, todos eclipsados?



Outro inverno e mais outro e outro, sempre o Tenerá acompanhando as crianças crescerem - as recém chegadas já no clima – vendo os moços ficarem velhos e os velhos indo embora.



Porém, naquele ano ele não apareceu, nem no seguinte. As localidades vizinhas indagadas, nenhuma resposta, pediu-se ajuda às autoridades. Em vão. Ele desaparecera da face da terra.



Sem o seu mito a cidade foi indo à falência: ninguém na praça, ninguém na reza, ninguém no bar.



Algum tempo depois um indivíduo exangue, com as feições irreconhecíveis, foi encontrado à boca de certo túnel da ferrovia. Socorrido, no hospital durou poucas horas e suas derradeiras palavras, quase num murmúrio: “Deixai ladrar os cães”.






terça-feira, 8 de junho de 2010

INSPIRAÇÃO FALHA - Lila

INSPIRAÇÃO FALHA
Lila


Ele não se ateve a forma, simplesmente deixou a caneta correr livre pelo papel debruçado na mesa, ainda com resquícios do café que acabara de tomar.



Tinha de apresentar um trabalho na oficina das duas e meia da tarde. Mas e a inspiração? Nenhuma.


Na noite anterior já esta preocupado, caminhando por aquela via larga, mal iluminada. O laboratório, logo pela manhã e já se imaginava branco com giz na lousa, pingos de suor frio escorrendo pela testa: a língua seca sem nenhuma vontade de para obedecer as enfermeiras, e com algum blá-blá-blá de extrangeiro, não adiantaria se irritar não entendia nada mesmo.


Decididamente, nesta noite, não conseguiria conciliar o sono, miraria fixo um ponto qualquer , ouvidos a postos no relógio da cozinha, vendo o dia clarear.Um risco que teria de correr. Não percebeu o buraco a sua frente, foi até onde deu e a poça engoliu-lhe os sapatos, as meias, 1/3 das calças, num mergulho só. Em segundo, era barro por todos os lados.


Pudera, uma vida como a sua, a gatinha do colégio se mandou, o corinthians fora da libertadores e os comentaristas sem dó, nem compaixão, à mesa, fazendo a felicidade dos são paulinos.


Foi quando se sentiu jogado ao chão com força e o motoqueiro tentando levantá-lo, sadudia-o “Ei cara está cansado da vida? “


Agora, o relógio da cozinha com uma abatida renitente o chamava à razão. Dormira com a cabeça entre os braços, por quase duas horas.

VIDA DESGRAÇADA - LILA


VIDA DESGRAÇADA
Lila

Ele tinha adaptado o carro para sua limitações.

Agora, nem sabia se tinha feito certo. Uma correria dos diabos, pegar menino no colégio, levar o outro para a aula de judô, para o dentista e o almoço? Seu gorro não era lavado ha três dias e a mulher no pé dele: o celular: Voce não vem almoçar? - E o guarda de olho, já tantas multas, tantos pontos a menos na carteira.

"Desliga, Ana, pelo amor de Deus". -

Achou que já ia ganhar dinheiro como free-lance, mas não era bem assim. O gerente do Banco, mesmo esta a 3 meses no vermelho; uma desculpa ali, outra aqui, também quem mandou pedir empréstimo na sua agência?

Aliás parecia um carma de família sofrer nas mãos dos outros. Sua bisavó já falava disso enquanto acompanhava com os olhos as baforadas do caximbo; seu avô havia sido amarrado ao pé do formigueiro só porque desobedecera ``as ordens da sinhá": Não tocar nas mangas, para não morrer envenenado, não se mistura leite com manga.E o pobre do guri, apesar das apelações dos filhos dos donos não se livrou da pesca foi devorado pelas formigas que se fartaram de manga movimentando leite e manga aos borbolões.

O caso teve tanta repercusão nos jornais da época que serviu até de companha abolicionista. E a igreja aproveitou para usar o tema" amai-vos uns aos outros".

Hoje os bandidos  respeitam-no, uma baforada só e elas fogem aterrorizados. O moleque cai de rir e bate na traseira do carro em frente.

Agora a situação era com o DSV, deixemo-lo usar de sua artimanhas, apostando que sai vencedor..

domingo, 6 de junho de 2010

SERTÃO DA INGAZEIRA - Chico OCosta



SERTÃO DA INGAZEIRA
Chico OCosta
 

O velho Arlindo Necavento, sertanejo taciturno e de gestos faciais sérios, às vezes exibia sobrecenhos de leve humor acompanhado de um sorriso esprimido entre os dentes quase cerrados, porém de sonoridade apreciável.

Certa vez o velho estava na sala tomando café com uma visita muito especial, antes seu desafeto, agora o amigo Olavo Mendonça. Não se soube como que por falsos passos seu filho ainda pixote de quatorze anos sem querer passou entre eles. Repentinamente levou o braço à cabeça e com uma velocidade espantosa, enquanto que o jovem num instinto de defesa lançou o corpo esguio para frente, mas suas pernas finas ainda suspensas ficaram marcadas pelos nós das tiras que prendiam o chapéu-de-couro aos queixos e nuca do velho zangado, tais barbicachos funcionaram como um impiedoso rebenque.

Ambos sertanejos confabulavam alegremente e por alguns minutos foram interrompidos por um desatento rapazote, que por tal atitude aviltante envergonhou o velho pai diante da nobre visita. Novamente retomaram a conversa de negócios, pois era de grande interesse do velho Arlindo adquirir uma fazenda que cobiçava há muito tempo, pois gostaria de tê-la fazendo parte de suas propriedades.

Depois que a visita foi embora o velho Arlindo ainda raivoso chamou sua mulher Adalgisa e orientou-a dizendo: o nome eu dou, mas cabe a Manoelito honrá-lo, inclusive por carregar o meu respeitado sobrenome.

O jovem ainda trêmulo chorava enquanto a criada Chiquinha passava-lhes salmoura nos vergões deixados em suas delgadas pernas que mais pareciam dois cambitos.

Embora Manoelito soubesse da severa educação familiar imposta, não soube explicar para a sua mãe como foi causar tamanho aborrecimento ao seu pai diante da visita.

Horas depois o velho puxou Manoelito pelo braço e o colocou entre as suas pernas e acariciando com seu queixo de áspera barba por fazer, mimou o filho, que alegre e aliviado pediu-lhes desculpas e assim continuaram a vida de cobranças severas, mas com a certeza de que seu pai tinha um coração cheio de amor e bem querer familiar.